Manifesto pela Família

64Apesar de ter dificuldade com a manutenção e uso dos termos, ainda aceito quem me identifica como “de esquerda” – talvez eu mesmo ainda me aceite dentro destas posições que já não tem sentido ou conteúdo claro (afinal, que é ser de esquerda, hoje? e de direita?). Parece que só se determina um grupo numa posição ou outra quando temos que enfrentar um problema: a favor ou contra determinada coisa, defensor ou acusador de outra. Com total generalidade e pouco cuidado, jogamos pra lá ou pra cá quem quisermos e como quisermos. De todo modo, dentro dessa bagunça, alguma afeição ainda tenho por ser jogado para “esquerda”

Assim, acatei e acolhi uma crítica que tem me feito pensar muito: um sociólogo que pesquisa comunidades evangélicas no Rio de Janeiro disse que as igrejas são presa fácil para discursos conservadores porque os grupos “de esquerda” não conseguem falar ou tratar do tema “família”. Verdade. Mais que verdade. Família, laços próximos, biológico-sociais-culturais que constituem aquele pequetito núcleo de pessoas que normalmente habitam debaixo do mesmo teto, não é braço nem tema de nossos discursos. Pelo contrário (e já me colocando diretamente como “de esquerda”) antes mesmo que esse assunto chegue à mesa já temos como pressuposto e defesa a crítica à família pequeno-burguesa (tradicional) – crítica que compartilho, aceito e também defendo. Todavia, se não fizermos a crítica material da família, ou seja, se apenas aceitamos um modelo abstrato e teórico que chegue de cima (ou de fora) e não que nasce desde as bases e conteúdos culturais, reais, cotidianos, nossos, incorremos nos erros que Marx tanto apontou dos hegelianos: não são suficientemente críticos, pois faltam com a crítica da crítica, com a crítica material.

Vou enquadrar genericamente aqui como “esquerda” quem de alguma maneira acate ou aceite críticas marxistas – seja à filosofia, às estruturas sociais, econômicas ou ainda políticas. Assim, coloco em questão um grupo mais específico; pois para lutar por justiça social, igualdade, dignidade, defender a vida, o pobre, a viúva e toda frente de defesa de minorias, não precisa ser “de esquerda” – basta ser humano preocupado com a vida humana. É uma discussão a respeito dos fundamentos, do discurso, das práticas de partidos, intelectuais e organizações “de esquerda” a respeito da família. Por isso, provocativamente, é um Manifesto pela Família.

É curioso porque o primeiro texto que Marx e Engels escrevem juntos é A Sagrada Família, em 1844 – antes do famoso Manifesto comunista. N’A Sagrada Família, está colocado o modo como superam a oposição entre “massa” e “espírito”. Na interpretação que fazem dos hegelianos, Marx e Engels percebem que havia uma distância entre o “espírito” (para Bauer, a Crítica) e as “massas”, que eram apenas os indivíduos humanos que carregavam materialmente a história (postos abaixo ou inferiores à racionalidade, àquilo que é mais sublime e importante para o desenvolvimento da humanidade). As “massas” são inferiores. São superadas e superáveis, ou seja, progridem graças ao espírito, capaz de iluminar e conduzir toda a brutalidade do “povão”. N’A Sagrada Família, Marx denuncia essa postura e abre o campo para a ideia de “auto-libertação do proletariado”. Na relação dialética de superação das oposições, não será um lado o beneficiário ou o superior ao outro, mas o humano que se desenvolve materialmente nas relações, ações, interações e reações frente ao mundo. Aproxima-se dos operários franceses e, diferente da ideia de que partidos, intelectuais e grupos especiais com sua “crítica” vinda do espírito guiariam as “massas”, percebe que eles como “povão”:

[…] não creem que possam eliminar, mediante ‘pensamento puro’, os seus senhores industriais […] Eles sentem de modo bem doloroso a diferença entre ser e pensar, entre consciência e vida. Eles sabem que propriedade, capital, dinheiro, salário e coisas do tipo não são, de nenhuma maneira, quimeras ideais de seu cérebro, mas criações deveras práticas e objetivas de sua própria auto-alienação […eles sabem que…] Se o homem é formado pelas circunstâncias, será necessário formar as circunstâncias humanamente.

Disso, uma postura explícita e uma implícita importantes nessa leitura de Marx/Engels: 1. são as massas (os operários, no caso) que vão se libertar de si e por si enfrentando a realidade posta; 2. o discurso teórico é produzido a partir da circunstância real e daquilo que as massas (no caso, os operários) têm consigo e trazem para as relações, ações, interações e reações frente ao mundo, aos problemas que devem enfrentar.  Continuar lendo

Meditações e raízes: São Bruno de Colónia

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São Bruno rejeitando o bispado

Não nego que vivo num período de crises. Não que isso seja algo ruim ou uma etapa de vida que queira superar. Talvez não mais. Antes ficaria preocupado em busca de uma estabilidade ou calmaria, um maior controle sobre as situações. Hoje, parece que a ideia de controle é uma sensação ou ilusão passageira útil para enfrentarmos alguns problemas e não nos deixar desanimar. Mas até mesmo na monografia que escrevi para graduar em filosofia já indicava que a “estabilidade” é um estado útil, pragmático, mas irreal ou não factível com o que vivemos todo santo dia. A verdade é que não temos controle e nem deveríamos querer ter. Saber seu lugar e o seu tamanho frente às estrelas quando está tudo em silêncio é encontrar paz no meio da crise (ou da guerra)

Estabilidade ou calmaria, não. Paz, sim. Uma não necessariamente vem com a outra. No meio de uma série de processos de mudanças no modo de vida, algumas coisas marcantes tem acontecido. Uma delas começou quando decidi cuidar das plantas de casa depois que um eucalipto que estava conosco há mais de década morreu. Aprendi muito com elas; se tornaram companheiras enquanto trabalho. Aprendi muito com suas raízes; descobri que apesar de importantes, depois que uma árvore morre, elas precisam ser arrancadas para se colocar outra no lugar – e isso dá muito, mas muito trabalho (especialmente se tanto a terra quanto as raízes já estiverem bem secas). De todo modo, não há planta que viva sem seu fundamento: sua raiz. Depois de arrancadas as raízes mortas e secas, para que haja nova vida, quais raízes estão ali para se fixar, renascer?

Estou, imagino, no momento de reconstituir as raízes. Arrancadas as mortas e secas, o solo respirou, revirou, mas precisa de vida nova. Curiosa e coincidentemente, nas trocas de ideia internas e meditações, nas voltas por aqui e ali com minha linda magrinha Bruna Candeani, encontrei um livreto chamado “Raízes”, de um monge beneditino alemão que meus pais gostam muito, Anselm Grün. Não somos católicos, mas monges, místicos, sábios e intelectuais são sempre mais que bem-vindos nas cabeceiras de cama aqui em casa. Peguei pra ler. Pois bem, Grün me deu um caminho.

Para encontrar ou reencontrar as raízes, um dos caminhos que Grün propõe é seguirmos em busca ou através de nossos nomes. Ele propõe três etapas: 1. a etimologia do nome; 2. algum “patrono/a” do nome (santo ou santa, filósofo ou filósofa, heroína, etc.); 3. o nome para nossa família e em nossos antepassados. Interpretar destas maneiras nosso próprio nome poderia, de acordo com a proposta do monge, ajudar a encontrarmos nossas raízes, a nos recolocarmos no mundo, na terra. Segui-os.

Bruno significa “marrom”, “moreno”, “bronzeado” ou “escuro”. Fosse de raiz latina ou germânica, Bruno tem esses sentidos. Conversava com uma amiga a esse respeito ano passado e ela me indicou que muitas vezes os “mouros” (muçulmanos ou pessoas do norte da áfrica) eram chamados de “brunos”. A pele escura ou amarronzada (que já tive na infância e que retorna somente quando estou de férias longe de salas de aula, escritórios e luzes brancas da cidade cinza de São Paulo) se perdeu com o tempo e com as mudanças da vida. O que meu nome significa já teve sentido quando eu era pequeno, mesmo quando nasci. Hoje, desbotado, amarelado e encardido por falta de sol por longos anos, aparento e manifesto essa distância da raiz, do significado de meu nome. O desgaste do tempo pode arrancar o detalhe que pode dar significado para toda uma vida. Pode fazer um nome se tornar apenas mais um nome, sem conteúdo real. Continuar lendo

Alienação e personalismo

30-artigo-qual-adorac3a7c3a3o-c3a9-idolatria-bg-ilustrado-04Numa série de textos que escrevo fico me explicando sobre o porque trabalhar com teologia para discutir questões políticas, filosóficas ou mesmo econômicas. Claro que minha história, cultura e tradição comunitária, familiar e religiosa constituem e são material a partir do qual escrevo. De todo modo, há um mais, sempre: creio que além de estruturas fundamentais de nossa produção teórica e crenças cotidianas (pontos a partir dos quais tomamos decisão) estão fundamentadas teologicamente ou encontram eco nas interpretações que fazemos de textos religiosos (sejam cristãos, de religiões de matriz africana, islâmicos, hindus, confucianos ou qualquer outro de outra experiência humana). É nesse espaço que gente como Vattimo, Agamben, Zizek, Schmitt, Dussel e mais tantos tem tratado do tema e retomado questões teológico-filosóficas. Aqui, não será diferente

Não tomaremos um texto bíblico como ponto de partida; mas como uma estrutura análoga, semelhante ou ainda como uma armação auxiliar que nos permite perceber problemas fundamentais de nossas posturas comuns, modos de vida e organizações sociais, políticas, econômicas, etc. E os problemas que queremos articular para trabalhar esses campos de nossas vidas são o “personalismo” e “alienação”. Esses pontos, de alguma maneira, apareceram em interpretações recentes conectados e se retro-alimentando. Não vamos dar, ainda, nenhuma definição para nenhum dos termos e peço que o leitor também não o faça: por enquanto imagine serem apenas duas palavras ou ícones sem significado pleno. Primeiro, olhemos a armação teórica que nos permitirá dar conteúdo para nosso problema:

Nos dois mitos bíblicos da Criação em Gênesis (o primeiro entre os capítulos 1 a 2: 3 e segundo a partir de 2:4  até o final do 3) – importante destacar que existem no Livro Sagrado outros relatos da Criação e que o nome “gênesis” de começo ou início foi adotado no período helenístico, assim como a interpretação que estendia para todo o mundo o “começo”, como história universal e não do nascimento de um Povo, como pretendia a comunidade judaica – Deus cria para além Dele. É na separação, como já discutiram trocentos filósofos cristãos e também judeus, que efetivamente a criatura se torna livre. Deus, o Criador, cria algo vivo, independente, para além. O judeu-lituano-francês Lévinas chega a afirmar que a origem de uma humanidade realmente humana é esse a-teísmo, a criatura que não se confunde com o Criador, que não é a mesma coisa, o mesmo, mera extensão de um no outro, mas sujeitos que apartados podem verdadeiramente se relacionar, se aceitar um ao outro ou não. Bem, no primeiro desses mitos, à imagem e semelhança de Deus a humanidade (homem e mulher) é criada. No segundo, Adam (humano) é feito de adamah (terra) e com o ruah (sopro/vento) se torna vivente. De sua carne (ish, em hebarico é “homem” ou “macho”) é feita por Deus a ishah (mulher ou fêmea), que mais à frente terá nome próprio, Eva (mãe de todos e todas), agora separada do “macho”, outro que não ele…

Histórias conhecidas, mas que precisam ser melhor vasculhadas. No primeiro relato, a humanidade, com homem e mulher, é constituída à imagem e semelhança de Deus e isso é bom. No segundo, mais à frente, há a história de que ishah (mulher) e Adam (humano), ish (homem/macho), comem do fruto do conhecimento do bem e do mal. Nesse momento, Deus comenta que agora o humano era semelhante a ele, “como nós”(sabe-se lá com quem ele estava conversando…), e isso mudava radicalmente as relações – não era necessária ou esclusivamente bom. Afinal, ser imagem e semelhança de Deus é ou não o projeto criativo, divino?

Assumindo a interpretação de Lévinas (e de uma longa tradição de filosofia e teologia cristã), Deus cria em separado, uma criatura que é feita para e como Outrem, não para o Mesmo, para si. Deus e o homem são distintos. Nesse sentido, à semelhança de Deus, o homem também cria, também é, em sua medida, criador. Ignácio, Orígenes, os “pais da igreja” (filósofos e teólogos helenísticos) destacam várias vezes essa capacidade criativa humana como sua semelhança ao Criador. Todavia, assim como o Criador, a criatura não deve criar para si, mas para Outrem, como Outrem. Deve criar, mas não para seu proveito, senão para a liberdade. Assim deve ser a relação pai-filho, mestre-discípulo, comerciante-comprador, produtor-consumidor. Trabalha-se, cria-se, para alguém, não para si. O trabalhado se aliena de quem trabalha para que seja possível a criação e manutenção da vida.

Mas há a possibilidade dessa semelhança produzir efeitos maléficos ao próprio humano. O processo de “tornar-se como nós”, como Ele, conhecedor do bem e do mal, é ambíguo e pode se corromper, não necessariamente ser bom. E assim se dá quando aquilo que é “desejado”, produzido, querido, que há de ser criado e consumido, domina o Criador, o sujeito, não se separa plenamente. No segundo relato, quando homem e mulher comem do fruto, ele (que era desejável aos olhos) tem poder sobre os jardineiros, sobre os sujeitos: o objeto trabalhado ou produzido, aquilo que será consumido por Outrem, se torna “dono” ou fica acima das decisões livres ou autônomas dos sujeitos. Entregam-se ao fruto – que ao ter mais poder do que a Palavra dita por Deus como ordenança (não comam), torna-se um ídolo.

A relação entre ser semelhante à Deus enquanto criador, positivamente cumprindo com a Criação, e a de se fazer semelhante de Deus instituindo outra coisa acima Dele ou de sua ordenança perpassa praticamente todos os textos bíblicos, dos profetas até a tradição neotestamentária. Assim se dá, por exemplo, no Êxodo com um povo que é capaz de se libertar e ser criador de sua própria vida e meios de subsistência (à semelhança de Deus) e que, ao mesmo tempo, cria um objeto que se torna “mais poderoso” que o próprio Deus: instituem por si mesmos um deus que não é Deus (estão acima de Deus enquanto criadores) e este (o bezerro de ouro) passa a ter poder sobre o próprio povo – um ídolo. O povo se corrompe, a semelhança com Deus está tensionada e distorcida, a separação entre os que fazem e aquilo que fazem produzem efeitos violentos e fatais. Deste modo, é possível ser semelhante ao Criador dando e produzindo vida ou usurpar a semelhança criando o que mata, rouba ou destrói.

Chamemos esse espaço entre a produção e o que é produzido de “alienar”. O sujeito que produz se esvazia, gasta energia, tempo de vida, para realizar uma tarefa, produzir algo – um pão, por exemplo. O sujeito se aliena naquilo que produz. Para bom entendedor, já deu pra sacar que essa é a estrutura que Marx (judeu) utiliza para falar sobre o que é “trabalho”. O pão, o produto, tem nele a energia gasta pelo trabalhador e, mais que isso, deve ter um pouco mais de energia para que a vida se mantenha e se reproduza. Ou seja: o pão não tem a mesma quantidade de energia gasta pelo padeiro, mas um tanto a mais, para quando o padeiro compartilhar esse alimento com sua família, recupere suas forças e garanta um tanto mais de energia para todos e todas. Um “excedente”. O padeiro é criador, o pão a criatura. Estão separados. Mas diferente de Deus, o padeiro não é capaz de criar um “sujeito”, livre, com poder e vida própria. Se o padeiro se relacionar com o pão como possuindo vida própria, como se fosse sujeito, como se fosse semelhante a Deus, corrompeu-se a si e ao pão criando um ídolo. O pão não é mais importante que sua vida e a vida de seus familiares. Seu produto está encerrado em si para ser consumido, não endeusado. Ao padeiro não cabe esse poder. Continuar lendo

Benjamin, Lévinas e a necessidade de sermos poço

sertãoCom o tempo, uma tradição, um cânone ou um “clássico” se tornam fonte de inspiração para um futuro inesperado. A tradição é a água que permitia a vida em milênios passados e que hoje que fica escondida debaixo da terra, necessária para saciar os seres vivos que hoje pisam num novo chão. Para que os sedentos não morram é necessário cavar um poço, firmar uma estrutura simples, relativamente frágil, mas trabalhosa e fundamental. Graças ao poço, alguém pode puxar essa água para a superfície e trazer para cá a possibilidade de manutenção da vida. Graças ao poço,  muitos e muitas podem ser saciadxs. Não somos água. Mas podemos (devemos!) ser poço ou puxadorxs de água. A terra está seca, o tempo castiga e não há quem nos sacie

Tempos “interessantes” como os nossos são terra seca. Tenho pensado muito que a função dos filósofos e filósofas (veja que não falo dos que estudam filosofia, mas de todo aquele e aquela que servem e trabalham pela sabedoria) é as vezes ser poço, as vezes ser quem puxa a água. Resgatar com a tradição a água que nos sacie, levar aos irmãos e irmãs essa possibilidade de vida, luta contra o tempo e contra a aridez.

É curioso ir a uma livraria grande/famosa (qualquer que seja) e passar o olho nas prateleiras de “ciências humanas e sociais”. Faça a experiência e veja em História a quantidade de livros que revisam a história do nazismo, da Segunda Grande Guerra e do tempo da Ditadura no Brasil. Curioso porque são temas em voga: totalitarismo, fascismo, ditadura, “intolerância”, fanatismo, etc. Cada termo desse usado genericamente, sem conteúdo e utilizado sempre como ataques estranhos. É a loucura de ler ao mesmo tempo em redes sociais e em mídias (sejam as grandes ou alternativas) “PM fascista” e “manifestantes fascistas”. Afinal, quem é quem? Ver ao mesmo tempo “ditadura do PT”  e “Temer autoritário”. Como? E a saída mais seca, esguia e fácil: “tudo é a mesma coisa! Farinhas do mesmo saco!” e a famosa hashtag #foratodos.

Sem baliza. Não temos mais o que nos medie, termos e estruturas comuns. Não que antes tivéssemos, mas, de um modo ou de outro, agora estamos explicitamente e finalmente vazios. O Estado de Exceção é cada vez mais regra. Essa, imagino, seja mais uma hora para sermos poço e resgatarmos da fonte conteúdo que nos sacie, que possibilite manutenção da vida e não rendição à aridez e ao tempo. Como Viveiros de Castro brincou (sério): se vivemos no fim dos tempos, deveríamos ir conversar com os índios, já que estão no apocalipse há mais de 500 anos. Se revisão da história da grande guerra, do nazismo, discussões sobre fascismo, autoritarismo, totalitarismo e tudo o mais estão aí como fenômenos de nosso tempo, que voltemos à vida daqueles que passaram por isso: não como observadores de um sistema que se constitui, mas como a vida que padece e persevera imersa nisso tudo. Não nos referimos, como diria Lévinas, à história que “narra a escravização” e se esquece da “vida que luta contra a escravatura”, mas ao resgate dessa vida, tentar beber dessa fonte; não o esforço de tentar voltar no tempo, mas de vivê-lo hoje por inteiro…

Lévinas era um judeu-lituano-francês,  preso e enviado para um campo de concentração nazista em Oflag (de 1940 a 45). Perdeu toda sua família nos campos de concentração – exceto sua mulher, que foi protegida por freiras em um convento. Sobrevivente do tempo que nos deu as histórias e os termos que temos sequestrado. Walter Benjamin também era judeu: mas não se tornou um sobrevivente. Tentou fugir, foi pego no caminho, preferiu a morte aos campos. E dessas vidas temos fonte para entender e dar conteúdo para saciar sede, possibilitar a vida nesse deserto a lá Mad Max que parece que vivemos. Nessa “estrada da fúria”, cumpre-se o que Lévinas dizia: “política é a arte de prever e ganhar de todas as maneiras a guerra”. Continuar lendo

Sujeito histórico da revolução: de conceito a conteúdo

grafite arte urbana QBRK (11)[8]Esse texto é mais um fruto das releituras que temos feito da filosofia de Marx. Assim como Por uma “virada hisórica” na filosofiaMarx para além da esquerda, é o esforço de interpretar criticamente essa filosofia. Claro, jamais sozinho, como se as nossas produções intelectuais caíssem do céu na cabeça de uns iluminados. Jamais! Devo muito esta tentativa de leitura – ainda imatura e escorregadia – às pesquisas do grupo de estudo recém-criado “Itinerário Marx”, às discussões com xs parceirxs Tatiana Peixoto, Diego Blanco e William Dubal, assim como ao conteúdo apresentado num curso livre recente pela amiga e professora Suze Piza; e às contribuições e indicações dos colegas Thiago Lisboa e André Trevisan. Talvez minhas contribuições um tanto mais “peculiares” sejam o contato com teologia e a constante preocupação em “falar” a partir da América Latina; mas nessa trilha eu estaria devendo a muito mais gente, a acontecimentos e acidentes que no percurso possibilitaram este instante e oportunidade de trabalho com filosofia

O título, “Sujeito histórico: de conceito a conteúdo”, indica que trabalharemos uma “categoria” clássica de Marx; um ponto ao mesmo tempo  resistente e central, e incerto e frágil. Mas só indica. A “categoria” é nosso mote para tratar outro assunto: o modo de produção intelectual. De todo modo, não procuraremos repetir a proposta do “marxismo estandarte” ou as discussões voltadas às ciências sociais ou acontecimentos políticos. Antes, procuraremos nos voltar para o modo como podemos trabalhar este “conteúdo”. Na verdade, utilizaremos essa “categoria” (utilizo esse termo por falta de outro) como objeto de um esforço maior: fazer uma crítica ao modo como lemos e trabalhamos a filosofia de Marx – talvez outras filosofias também! -, seguindo a orientação de Michael Löwy, que nos mostra a dificuldade que o próprio “marxismo” (no sentido das leituras correntes de Marx que se sedimentaram) tem de ler Marx de “modo marxista” (no sentido de assumir as proposições do próprio Marx ao lê-lo). Se nos dirigimos às propostas econômicas e também sócio-políticas sem antes assumirmos sua filosofia – enquanto “método”, ou seja, como dizia o professor Benedito Elizeu Cintra: “filosofia é um método, um modo de interpretação” -, perdemos as potencialidades criativas de sua produção, reduzindo os termos por ele cunhados, as categorias, enfim, o “conteúdo”, a significações correntes, modos de pensar comuns.

Mas isso valeria a qualquer filosofia; porque Marx? Não lembro quem escreveu, mas “em tempos interessantes, precisamos retornar aos clássicos”. O “interessantes” significa “críticos”. A escolha por esse “clássico”, em especial, vem pelo fato de vivermos uma crise generalizada de um “modo de viver”, que envolve toda a estrutura “moderna”: Estado, Mercado, sociedade civil, religiosidade, instituições de ensino, etc. Crise antecipada pelo próprio filósofo “escolhido”. Entretanto, podemos encontrar em muitos outros possibilidades de análise. Pois bem, na crise atual, paira o medo, ataques e repúdios contra sua produção. Porque? A busca pela resposta me empurra para retomar esta trilha. No período da graduação, tive contato com o pragmatismo estadunidense e a reação comum de alguns professores e colegas era de “preocupação”/”aversão” a esta proposta, pois fragilizava a filosofia. Fui tentar entender o como; e curiosamente descobri exatamente o contrário! Meu trabalho para tirar o título de licenciatura foi sobre o método pragmático de se fazer filosofia. Assim, parece que retornar a esse clássico pode mostrar exatamente o inverso dos ataques que tem sofrido. Só para não deixar passar: a qualidade dos ataques e dos que tem atacado também são um convite para a leitura, já que são extremamente simplistas (os ataques) e intelectualmente desonestos (os que atacam). Não é possível que a produção gigantesca de um intelectual que transformou a história seja “derrubada” por uma ou duas frases. No mínimo, ingenuidade da nossa parte.

Assim, não procuraremos perguntar “o que é sujeito histórico?” ou “quem é o sujeito histórico?” – como, inclusive, tem feito em geral a sequência da tradição marxista. Num passo anterior, é nos perguntarmos o caráter ou como podemos entender o caráter de “sujeito histórico” (senão de todas as “categorias” de Marx) arriscando uma leitura filosófica. Não que sejamos os primeiros a fazer isso. Mas ao nosso modo, estamos tentando.

Nas Teses sobre Feuerbach, que Engles diz ser “o primeiro documento em que está depositado o germe genial da nova concepção de mundo”, Marx indica algo que também está presente (dentre outros textos) na Contribuição à Crítica da Economia Política e A ideologia alemã: o “indivíduo abstrato” precisa ser superado. Isso não significa que se substitui uma determinada expressão por outra, mas o modo de pensar que possibilita uma ideia de “indivíduo abstrato” precisa ser superado. Em sua crítica a Feuerbach, Marx mostra como este não consegue perceber que “indivíduo abstrato” é uma construção de certo modo de vida; e este modo de via é o problema. Como solução, Marx não faz o esforço pelas argumentações, mas a mudança de posição ou de lugar do problema: não se trata de estabelecer conceitos e aplicá-los, mas de desenvolver uma práxis. Esta proposta é singular: procura desconsiderar a separação “ontológica” entre teoria e prática e tirando do posto privilegiado o exercício das “ideias” (criação de conceitos). A última Tese contempla o esforço com o famoso “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é  transformá-lo”. Continuar lendo

Marx para além da “esquerda”

Karl-MarxNa primeira aula de um curso no ano passado, Dussel disse: “é tempo de descolonizar a cabeça”. A cada dia que passa, vejo como nossos corpos são colonizados: fomos alienados de nossa própria história, pensamos num mundo onde nossos pés não estão, através de olhos que não são os nossos. Nossa história foi construída de maneira deslocada – e hoje mais do que nunca isso está exposto em nossas contradições discursivas e cotidianas. No meio do embate político, descobrimos que vivemos e pensamos uma história que não é nossa. O discurso da “Guerra Fria” e do “Fim da História” entram em conflito e nossa falta de conteúdo próprio, de nos conhecermos e de sacarmos outro modo de pensar o que aconteceu a partir de onde nossos pés estão não permite a superação de dicotomias e polarizações simplistas. Fico tentado a dizer que falta “estudo” também de nossa parte, mas não: falta é botar no mesmo lugar onde está o pé, primeiro e fundamentalmente

Se entrarmos numa sala com pessoas que tiveram a sorte de estudar certos conteúdos de história ou ter um bom professor que operou milagres em situações precárias para a aprendizagem e perguntarmos “o que aconteceu em 1989?”, TODOS responderão: “a queda do muro de Berlim”. Seria o fim da Guerra Fria e, culminando em Fukuyama, o “Fim da História”. Já não haveria mais porque lutar e nem discursos a defender: dos aparentes “polos mundiais”, um caiu e tudo se estabilizou. De repente nos anos 2000, surge do nada uma onda de governos desse aparente “polo mundial” derrotado em Estados latino-americanos (como se fossem continuidade histórica desse suposto “polo mundial”), e o único discurso que se tinha para compreender o que estava acontecendo era o mesmo da Guerra Fria, a mesma história, um “repeteco”. Mas, e se perguntássemos o que aconteceu em 1989 e a primeira resposta fosse “primeiro presidente do Brasil eleito sob sufrágio universal pós 1/4 de século de Ditadura”? Que tipo de discurso seria construído para explicar o que acontece aqui colocando a cabeça junto dos pés? Em 1989 aconteceu o Caracazo, que resulta na revolução venezuelana e o “nascimento” de Chaves como líder político do país. Aconteciam as primeiras greves e lutas na bolívia que resultariam na Guerra da Água, na Guerra Federal e a união das 90 e tantas etnias ameríndias do país. Aconteciam as primeiras alianças políticas de ex-tupamarus no Uruguai, que resulta nos governos Vasquez-Mujica. Nasciam, aqui no Brasil junto a abertura política já mencionada, os grandes partidos de hoje. Que diferença isso faz? Toda: não somos continuação ou continuidade de uma Guerra Fria, mera extensão de um dos “polos mundiais”, e de dicotomias simplistas. Mas, quem somos, então?

Num debate, falando sobre filosofia e a realidade boliviana, Simón Yampara disse: “Hoje, na Bolívia, vemos que na expressão política não saímos da polarização direita-esquerda. Os aymaras, os quechuas, os kollanas [algumas das muitas etnias ameríndias na Bolívia] não somos nem de direita, nem de esquerda, nem em pensamento, nem em ideologia, mas nos fazem crer que sim, e então, ocasionalmente, estamos nos camuflando. Mas devemos nos perguntar: ‘então, quem somos?'”. É tempo de descolonizar a cabeça. As categorias políticas, as “expressões políticas”, no caso essa dicotomia esquerda-direita, não são nossas: não somos meras extensões de determinada cultura e tradição. Sim são úteis e constituíram parte de nosso repertório, mas tem sido insuficientes em nossos debates, organizações políticas e participação efetiva nas transformações institucionais. Não é apenas uma instituição que está em “crise”, é uma cultura muito peculiar. O processo de autonomização de nossa gente acirra as contradições sistêmicas dessa cultura e de seu modo de vida. A política, a economia e as dicotomias esquerda-direita da tradição europeia moderna chegaram e se fixaram nessa terra com canhões, não sozinhas. Nossa língua, nossa história, nosso modo de pensar e trabalhar foi constituído na força militar de determinada gente sobre outra. Isso não significa que o que proponho aqui seja jogar tradições fora, mas sermos críticos e históricos: botarmos o pé no chão. Esquerda-direita não dão conta não porque são insuficientes, mas porque não são daqui: esse recorte histórico não nos compete e não nos tem dado possibilidades.

Paulo Freire certa vez disse que era necessário “criticar a arrogância, o autoritarismo de intelectuais de esquerda ou de direita – no fundo, da mesma forma reacionários – que se julgam proprietários: os primeiros do saber revolucionário, os segundos do saber conservador; criticar o comportamento de universitários que pretendem conscientizar trabalhadores rurais e urbanos sem com eles se conscientizar […] buscam impor a superioridade de seu saber acadêmico às massas ‘incultas'”. No fundo, são reacionários tanto uns quanto outros porque não põem os pés no chão. A história sobre a qual se constroem não é a nossa, mas a deaparentemente mundial. Os olhos que tomam emprestado para ver o mundo não é a da gente, mas a do intelectual com nome impronunciável. As reinvindicações ou o modo de solucionar os problemas políticos, econômicos e sociais não nascem da necessidade e da voz do povo, mas do repeteco a-crítico de conteúdos que chegam junto com os canhões. O problema é que são “proprietários” do conhecimento, donos da história, da filosofia. Não são trabalhadores/produtores de conteúdo: são donos ou consumidores. Bem, é preciso descolonizar a cabeça.

De todo modo, o título desse post é pro-vocativo: Marx para além da esquerda. Talvez com o caminho de explicações que tracei até aqui dê para sacar onde quero chegar: Marx, quando chega em nossa terra, não é propriedade de uma “esquerda” e, muito mais que isso, a própria ideia de “esquerda” é uma importação barata e sem crítica. Quem somos?Essa é a pergunta. Esse ponto talvez incomode quem se coloca à esquerda (tomando as categorias tradicionais). Por outro lado, Marx para além da esquerda é pro-vocativo também para quem se coloca à “direita”: que não faz a mínima ideia de quem seja ou o que produziu, que se permite reduzir o mundo a aparentes “pólos mundiais” e coloca no mesmo saco Rebelião da Silésia, Zumbi dos Palmares, Comuna de Paris, Coluna Prestes, URSS, China, Coreia do Norte, Venezuela, Bolívia, Cuba, PT, San Martín, Simón Bolívar e bolivarianismo – se bobear até Getúlio (e aquela bizarrice de que “Hitler era comunista”). É pro-vocativo porque apesar das categorias tradicionais impostas, há alguma semelhança e analogia entre Marx e os movimentos populares – inegável! É só olhar quem que se envolve com os excluídos e ver que posicionamento dentro do quadro tradicional insuficiente elx está. E esta semelhança é abertura para entrarmos nesse Marx: porque, para além da esquerda enquanto categoria limitada e deslocada, a luta popular se inspira nesta mensagem? Continuar lendo

Crítica, posicionamento e manifesto: minha sobrinha e um mundo impossível

CAPÍTULO II
DOS DIREITOS SOCIAIS

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

O ocupante do cargo de ministro no Ministério da Saúde do governo interino (pra não dizer golpista) de Temer disse essa semana em entrevista:”A Constituição Cidadã, quando o Sarney sancionou, o que ele falou? Que o Brasil iria ficar ingovernável. Por quê? Porque só tem direitos lá, não tem deveres. Nós não vamos conseguir sustentar o nível de direitos que a Constituição determina”. Tirando o “ato falho” de dizer que Sarney que “sancionou” a Constituição (o que mostra que na visão desse ocupante foi uma concessão do “líder do Estado”) e não promulgada por toda a Casa a partir da vontade popular, o caso da Saúde é uma portinha para entrarmos no debate de fundo que movimenta diferentes posições que infelizmente tem se resumido num espetáculo mal feito de uma Guerra Fria atrasada entre “direita” e “esquerda”. O ponto é que há mundos impossíveis em disputa; e o que os fundamenta nos coloca junto ao ocupante ou de frente pra ele.

Antes de seguir para o caso da Saúde e o fundamento dos mundos impossíveis, preciso tocar num ponto delicado a respeito de “posicionamento político”. Faço coro com Simón Yampara que, num debate falando sobre a filosofia e a realidade boliviana, disse: “Hoje, na Bolívia, vemos que na expressão política não saímos da polarização direita-esquerda. Os aymaras, os quechuas, os kollanas [algumas das muitas etnias ameríndias na Bolívia] não somos nem de direita. nem de esquerda, nem em pensamento, nem em ideologia, mas nos fazem crer que sim, e então, ocasionalmente, estamos nos camuflando. Mas devemos nos perguntar: ‘então, quem somos?'”.

Do mesmo modo, aqui no Brasil, quem somos? Dxs negrxs, mestiçxs, cafuzos, caboclxs, mulatxs, mamelucxs, brancxs, indígenxs, imigrantes, quem somos? De pobres, miseráveis, ricos, classe média, super-ricos, quem somos? Dx sertanejx, dx urbano, do centro, da quebrada, da roça, dos pampas, do cerrado, dos litorais… Enfim, no pluriverso que somos, como é possível nos encaixarmos numa posição homogênea e vazia de conteúdo, de pura forma criada noutra terra que não a nossa, assumir esta camuflagem? A ressalva é importante, porque citar daqui pra frente Marx, Hobbes, Weber ou Hegel não me colocará num dos pólos genéricos. A questão é a partir de tentar mergulhar no que somos, nos apropriarmos de um ou outro discurso de maneira crítica e ficando os pés nessa nossa terra.

Pois bem, o caso da Saúde é paradigmático: sob a justificativa de “não ter como pagar as contas com a Saúde da população”, o ministro questiona a saúde enquanto direito. Afinal, é Saúde enquanto direito que se está discutindo? Não. É Saúde enquanto “mercadoria”: o custo da Saúde é entendido a partir do dinheiro gasto. Quanto custa uma perna? E um braço? Um transplante? Um coração? Quanto custa um pulmão? Quanto custa uma pessoa?

A essa última pergunta, um autor que parece que não podemos dizer o nome já refletiu. No livro I do O Capital, Marx fala sobre a mercadoria e sobre o que determina o preço de alguma coisa. Seria o valor de uso? Se sim, porque tanta coisa inútil é tão cara? Seria então a raridade/escassez? Se sim, porque coisas tão abundantes também são tão caras? Seria a durabilidade? A urgência? O tempo de trabalho para a produção? A quantidade de material?  De trabalhadores? O “gosto comum”? A relação simplista oferta-procura? A qualidade? A marca?O sêlo? Todos esses fatores e mais uma séria unidos? A complexidade e a história de uma mercadoria carrega tantas determinações que descobrimos que o preço é aleatório e arbitrário, e que ficamos alienados de todo o processo econômico, não sabendo mais por onde começa e onde termina. As soluções simplistas e estruturas lógicas solucionam a questão e escondem o que “realmente” acontece. Assim, nos tornamos alienados de nossa própria produção: ela ganha vida própria e desconhecida. No fim, chega o “salário”, o modo máximo de alienação: quando se precifica uma pessoa, tornando sua vida uma mercadoria. Se o preço de uma coisa é arbitrário, que dirá a vida de alguém! E esse é o grito ético fundamental: a vida não tem preço.

Marx nunca escreveu um tratado de política e nem orientações para a organização sistêmica de um Estado e definitivamente eu não sou um “seguidor marxista ingênuo”. Assim, a comparação com Venezuela, URSS, Cuba e sei lá mais o que não faz sentido: não estou falando da organização de um Estado (que Marx nunca trabalhou), apenas apontando o fundamento de um sonho de mundo impossível – é este ponto ético que interessa. A denúncia da maldade e cretinice que é precificar a vida de alguém tem que ser levada em conta. A crítica à economia que apaga a história, a matéria, a vida de gente de verdade para se voltar para números e contratos é o que interessa. Não, a organização do mundo não é e nem sempre foi assim. Aquilo que construímos, nosso modo de vida, podemos transformar ou destruir, reconstruir. O modo de vida que põe preço na vida das pessoas veio não pela competência e habilidade, muito menos por ser o melhor mundo: veio com navios, armas e canhões: nenhuma moeda e o mercado capitalista chegaram sem a força. A destruição e destituição do modo de vida local, da concretude e história real, material de pessoas e comunidades precisa ser destruído. Assim aconteceu aqui, conosco. Talvez por isso a crítica e denúncia marxista (da esquerda europeia) se aproximam e encontram campo comum com os discursos de libertação e descolonização na América Latina.

Especialmente nessa terra abençoada por Deus e estuprada por homens-brancos, temos uma mancha nojenta: até a escravidão só foi “abolida” por pressão do mercado capitalista. Na busca pelo aumento de consumidores (quando ainda era necessária a relação quantidade-de-consumo-e-lucro), os Império Inglês exigiu a mão-de-obra assalariada por aqui. É por custo, por preço, pela vida de pessoas tornada mercadoria que as decisões são tomadas. Educação é mercadoria. Moradia negócio. Alimentação luxo a ser pago. Tudo com uma etiqueta, permitindo o acesso não a quem compactua com o “contrato social”, mas quem tem o papel que compra os contratos. Por trás do discurso sujo e cínico do ocupante no Ministério da Saúde não há a necessidade de viver e manter a vida, há os gastos na folha de pagamento. É muito cinismo simplesmente pormos essa pergunta! Será que é “direito” ter alimentação? Meu Deus do céu! Que que é isso?! Pior, é saber que não falta a produção de remédio, nem há falta de alimento, nem de terra, nem de água, nem falta de casa, de prédio, de moradia. Tem de sobra! Absurdo é saber que a produção já deu conta de alimentar e cuidar do mundo faz tempo, mas ainda assim há quem morra de fome ou tenha problema na vista porque não teve vitamina A direito na infância…

Quem põe preço no que não tem preço precisa ganhar mais dinheiro. Assim segue a vida, mesmo com super-produções, pessoas morrem, tem uma vida de merda. Ficar puto com isso me põe na “esquerda” da tradição européia? Não aceitar que a vida de alguém seja trocada por umas notas ou por dígitos numa tela me torna um “vermelho”? Aliás, alguém dorme em paz com isso?! Pior, sabendo que vivemos desse jeito não porque sempre foi assim ou porque é o único mundo possível, mas porque chacinaram gente e marginalizaram historicamente meu povo, meus vizinhos, gente que vive na mesma terra que eu, ainda vale a pena sentar a bunda na cadeira e dizer que “a vida é assim”? Como Dom Hélder disse certa vez: “quando alimento os pobres, me chamam de santo. Quando pergunto a causa da pobreza, me chamam de comunista”.

A oposição que o ocupante fez não foi entre “direitos” e “deveres”, mas entre “direitos” e “negócios”. Saúde é um negócio. Curiosamente, os financiadores da campanha dele foram grandes empresas de planos de saúde…

Mas tudo bem. O fundamento do mundo impossível pelo qual eu vivo é a denúncia à mercantilização de gente e da vida humana. Mundo impossível, mas não impraticável. O mundo que o senhor ministro interino golpista assume que é impossível superar os negócios e a mercantilização de gente. Assim, estamos entre dois mundos impossíveis: o mundo que é impossível superar e o mundo que considera impossível o mundo que vivemos. E a malandragem é que se é possível mercantilizar alguém, também é possível desmercantilizá-la. Se é possível se firmar na  impossibilidade de superar esse mundo, é possível se firmar no mundo impossível. A luta acontecerá entre os que se fundamentam em um ou em outro para cumprir com o dever: de manter o mundo ou de mudá-lo. Os dois procurarão provar as possibilidades. Eu me firmo no mundo em que gente não tem preço…

Minha sobrinha tem um pouquinho mais que 2 meses. Ela tem o privilégio de um teto, de ter uma mãe por perto, de ter acesso a hospital e ao pediatra. Por que? Porque há quem pague por isso. Minha sobrinha não terá falta de vitaminas essenciais para o desenvolvimento de seus órgãos internos, de seu cérebro, recebe diariamente estímulos cognitivos, não passa frio, é bem alimentada, terá acesso a uma gama de traços culturais, ouvirá gente falando em mais de uma língua, terá garantida uma escola com qualidade… Por que? Porque há quem cumpra com o preço daquilo que deveria ser a vida de todos, não direito e menos ainda negócio de alguns. Ela vai crescer num mundo que exige dela ser competitiva, que exige dela crer que todos nascem iguais, que outras pessoas se vitimiza. Minha sobrinha talvez não aprenda na escola a conexão entre invasão e colonização dessa terra e a pobreza e miséria. Talvez ela não descubra que o modo como vivemos não nasceu sozinho, mas chegou com armas e canhões. Desejo viver e entregar pra ela um mundo no qual o fundamento não seja a impossibilidade de superar a merda, mas a impossibilidade de se viver na merda!

Minha sobrinha é uma privilegiada. Talvez o corte de “direitos” não afete ela, porque talvez os pais dela ainda consigam dar conta do “negócio” da Saúde. Minha sobrinha vai pra escola, e mesmo que não seja aquela das melhores, as cargas de conteúdo que aprendemos e temos aqui em casa talvez deem conta e abram possibilidades. O sonho pelo qual vivo é tornar tudo o que é negócio em vida e pura vida, simplesmente. Dizem que isso aí é “comunismo”; mas eu sei que não é. Minha família expandida é de extrema-direita. Minha família é evangélica tradicional. Meu bisavô foi fundador da Assembleia de Deus do Ipiranga e meu tataravô da Assembleia de Deus do Brás e também de Santos. E foi no seio dessa família e de experiências religiosas que ouvi falar de um mundo sem desigualdades, sem doença, sem fome e sem guerra, pelo qual deveríamos viver e ser sinal aqui nessa terra. Foi na promessa de um certo mundo e sobre a vida de um cara chamado Jesus que destituiu os reis, os líderes religiosos e os exércitos que cresci. Foi ouvindo de um cara que saiu chutando quem vendia coisas no templo. Foi na mensagem de um cara que disse para superarmos a moeda e o dinheiro, entregando a César o que é de César (a moeda) e a Deus o que é de Deus (a comida para o Povo). Comunista? Caguei para o nome que querem dar. Sou brasileiro, cristão, evangélico, sem etnia definida, filho de gente do mundo todo, nascido num entre-classes.

Dará certo um mundo desse? Se for para dar certo como está dando esse em que vivemos, prefiro que não. Prefiro que dê errado. Mas se dar errado para esse mundo é não ter posses, empregados e não viver da exploração do sangue de pessoas, espero que sim, que dê muito errado. Saúde não tem preço, vida não tem preço. Gente não é mercadoria.

Pela e para minha sobrinha, Selena…

Bruno Reikdal Lima