Amor

1621919_559951744100591_1970523823_nGênesis 3,7: “Os olhos dos dois se abriram e perceberam que estavam nus.”

Nasce o mundo. Havia sido criado, mas não “nascido”. A diferença entre homem e mulher, entre Um e Outro, se estende: agora sabem que o mundo não é “o mesmo”, não é posse de um, mas diferente. Não é só Paraíso se relacionando com ele mesmo, mas há a lembrança do Paraíso e o Mundo. Há diferença. Agora o mundo nasce, pois se relaciona, se torna vivo, ganha vida própria. Só é possível existir em relação com Outro. A vida também se percebe diferente: não é tudo vida, há a morte. Vida e morte: estão em relação.

Das diferenças, da alteridade, da relação, é possível que o Um não viva por si e para si, mas que se entregue para o Outro e pelo Outro. O espaço do “entre” não pode ser preenchido, continua vazio para que haja relação de verdade, para que o homem se relacione com a mulher, o Homem com Deus, o Mundo com o Paraíso, a Vida com a Morte. Não é e nem pode ser tudo uma mesma coisa. Mas nessa relação, Um pode tomar o lugar do Outro para que o Outro viva, continue mantendo sua diferença. É nessa Criação, nesse nascimento do Mundo, que se inscreve o plano Divino de salvação: Ele se entregou primeiro, abrindo espaço para que o Outro (Homem) surgisse e tomando seu lugar para que ele continuasse vivendo…

É com isso que podemos entender que “Ele nos amou primeiro”. Ele é o Criador por abrir espaço para que existíssemos, e Salvador por tomar nosso lugar para que pudéssemos continuar existindo: mantendo a diferença entre Um e Outro, entre Deus e Homem. Assim como Ele nos amou, nós devemos amar.

Professor Benedito Eliseu Cintra (quem me ensinou a ler Levinas), dizia em suas aulas: “O que é amar? Amar é não matar, e fazer de tudo para que o Outro viva”. É o movimento de Deus ao “se distanciar”, dar espaço para que existíssemos diferentes Dele: não matar; e o de tomar nosso lugar para que continuássemos existindo: fazer de tudo para que o Outro viva. “Porque Ele nos amou primeiro, assim devemos amar uns aos outros”. O amor nasce da diferença, da relação, da experiência do vazio entre o Eu e o Outro. Quando a mulher deixa de ser “extensão do homem”, nasce a possibilidade de amor verdadeiro, pois aí há relação. Quando a criança nasce, aí há amor verdadeiro, pois entre os pais e os filhos, há relação…

E porque manter essas diferenças? Porque não tomar posse do mundo? É a maravilha do mistério da Graça…

Bruno Reikdal Lima

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