Macho e Fêmea, osso e carne

1798823_417049601765671_1494823437_nGênesis 2, 23: “Disse o homem: ‘esta sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada’”

Macho e fêmea são criados por Deus. Mas tanto um quanto o outro são chamados de “homem”. Não há diferença entre o homem e a mulher, pois os dois são “homem”. Há a distinção entre macho e fêmea. Aqui vale a proposta de significado para diferença e distinção: diferença é quando temos um “vazio” entre, e distinção quando dentro de uma “mesma coisa” apontamos suas características.

Até então, “homem” equivale para macho e fêmea. No segundo relato da criação (Gênesis 2), essa distinção também acontece, mas é apresentada a possibilidade de mudança na história. O homem estava só e Deus, então, cria um outro com quem ele se relacione: a mulher. Entretanto, a mulher não se nomeia, mas é nomeada pelo homem como parte dele mesmo. Ela não é mulher emancipada: outra completamente outra que não o homem. A mulher é tida por Adão como “parte dele”: osso de seus ossos, carne de sua carne. Adão não está se relacionando em diferença com a mulher, mas com ele mesmo. Dos “meus” ossos, da “minha” carne: de “mim” foi tirada, é “minha” propriedade, “minha” extensão.

Quando o ato de rebeldia a essa “mesmice” e controle acontece, eles se percebem, finalmente, diferentes. Pela primeira vez, há relação. Surge a necessidade da “mulher” (extensão de Adão) ter um nome próprio, pois não é mais parte de seu companheiro. O problema é que esse movimento de ter um nome próprio surge junto a crise de rebeldia: ela, em função do conflito, não pode escolher seu nome, mas é nomeada por ele, Adão. A relação ainda precisa ser construída…

Enquanto Eva era parte de Adão, extensão dele, não se relacionavam como diferentes, em um espaço “vazio” entre os dois, mas Adão com Adão-mesmo. Eram imagem de Deus, mas não se relacionavam como Deus se relacionava com eles. Não viviam a diferença, pois tudo estava sob controle do homem, era extensão dele: tudo tinha seu nome e a mulher, além disso, era parte dele.

Os olhos dos dois se abrem após comerem do fruto, após o ato de rebeldia: percebem o bem e o mal, deles sentem vergonha. Eles tomam consciência de que não são “o mesmo”, e isso traz culpa. Se sentem maus e males. Se descobrem nus aos olhos do outro. Precisam “se esconder”, abrir um espaço “vazio”, a intimidade, para que, a partir de agora, se relacionem de verdade. A experiência da separação abre a possibilidade de uma verdadeira e genuína relação: não de um com ele mesmo, mas com outro, do Eu e do Outro. Deixam de ser “macho e fêmea” e passam a ser “homem e mulher”, Adão e Eva: cada um com sua história, sua vida, diferença.

Adão não amava Eva, pois não se relacionava com ela. O amor ocorre “entre” dois. Depois de se encontrarem nus, diferentes, surge a possibilidade da relação, possibilidade do amor entre o homem e a mulher. Podem se amar, pois tem consciência de sua diferença.

Bruno Reikdal Lima

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