Pecado original

pragaComer do fruto tornou o homem culpável: conhecedor do bem e do mal. Nesse sentido, responsável pela relação com aquilo que lhe é exterior, com o diferente, com o Outro, com o Próximo. Mas não o fez pecador…

O nascimento da consciência, da responsabilidade, retratada no comer o fruto não é o pecado, mas a abertura para a possibilidade de pecado. Iniciada uma relação verdadeira, efetiva, torna-se possível a anulação do Outro conscientemente: responsavelmente.

Ao sair do Paraíso, o homem não é tirado sob a alegação de “ser pecador”, de ter pecado, mas sob a alegação de que o Paraíso não mais o suporta. Ele agora é responsável pela terra, deve cultivá-la: é responsável pelo Outro e seu suor sofrido o lembra desse dever. Mas pecador, não: é culpável, agora, por ser consciente, mas não culpado por tomar consciência.

O primeiro pecado, a originalidade do pecado, surge quando o espaço que fora aberto no Éden é preenchido: quando a possibilidade de pecar se concretiza. A originalidade do pecado é o rompimento da relação que há entre o Eu e o Próximo, entre o Mesmo e o Outro. Assim o é na primeira história em que a palavra “pecado” sai da boca de Deus.

Na história de Caim, o primogênito de Adão e Eva, o primeiro filho da humanidade, o pecado bate à porta e deseja conquista-lo. Quando Deus aceita a Abel e sua oferta e não a Caim e sua oferta, a rejeição se dá pela integridade, a inteireza do sujeito Caim. Primeiro filho da humanidade, já responsável e culpável, conhecedor do bem e do mal, Caim se enfurece por sua não aceitação por parte de Deus. Na relação entre Deus, Caim e Abel, há uma trama de desejos.

O desejo incontrolável precisa ser contido, precisa encontrar um limite: uma exterioridade que o direcione de modo a impedi-lo de consumir tudo que encontra. Ao ver a relação de Deus com Abel, Caim deseja o Mesmo. Caim deseja controlar a relação de Deus e Abel, de Deus com ele mesmo. O desejo por ser aceito, ser sempre reconhecido, o desejo de “ser”, aparece no rosto de Caim. Deus o adverte para que tome cuidado, para o desejo que o pecado tem de conquista-lo, mas que ele mesmo deve ser dominado. Caim precisa “dominar-se”, precisa perceber a diferença da relação, a liberdade que existe fora dele mesmo.

Caim deseja conquistar a relação. Caim deseja a conquista: ser reconhecido de qualquer jeito. Deseja o Mesmo. Assim, é conquistado pelo pecado: seu rosto se transforma, expressa seu desejo de conquista, e avança sobre o Outro, sobre seu irmão mais novo, Abel. Ao convidá-lo para ir “ao campo”, para ir à terra onde viver, onde conquista sua própria vida e existência, sua casa, Caim o mata. A casa de Caim se torna a cova de Abel. O diferente, a relação, o Outro não se mantém ao ser conquistado por Caim, pelo desejo de Caim. A destruição do Outro, a aniquilação do irmão, a não percepção do Próximo faz com que Caim mate, com que faça sumir o Outro, põe fim à relação. Não há exterioridade, há apenas Caim, apenas o Mesmo.

Bruno Reikdal Lima

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