A diferença do tempo entre nós: o tempo a partir de Emmanuel Levinas

futuro1. Do que falamos quando falamos sobre “tempo”? A crítica bergsoniana ao tempo

Quando conversamos sobre “cadeira”, nos remetemos à experiência com cadeira – tendo até um objeto verificável que nos auxilia nessa situação. Mas quando se trata do “tempo”, a que experiência nos referimos? Experiência com o que? Existiria um objeto verificável que nos auxiliasse nessa situação? Qual?

Provavelmente responderíamos que “relógio” é o objeto verificável que nos auxilia quando falamos sobre o “tempo” a nos referirmos à experiência com tempo. Utilizaríamos o relógio nessa situação porque o utilizamos comumente na ou para a marcação (medição) do tempo. Cada movimento do ponteiro refere-se à passagem ou à experiência com o tempo. Mas… Qual o “x” preciso que estabelece que cada 60 movimentos de um ponteiro corresponde a 1 movimento de outro ponteiro que, cada vez que se move tantas vezes, se refere a tantas horas? Quando dizemos que “se passou um dia”, o que realmente aconteceu? O tempo correu? Ou foi o espaço, o movimento espacial, que aconteceu?

Podemos relacionar essas perguntas à crítica que Henri Bergson faz a maneira como comumente lidamos com o tempo. O que fazemos é tomar o espaço como tempo. Comparamos espaços, colocamos diferenças espaciais em relação, e chamamos isso de “tempo”. Quando a Terra completa o movimento (deslocamento no espaço) de rotação, girando em seu próprio eixo, dizemos que se passou 1 dia. O que acontece não é a passagem do tempo, mas o movimento espacial. Quando dizemos que em 1 segundo determinada coisa aconteceu, comparamos o movimento de um ponteiro do relógio a outro movimento: comparamos o deslocamento espacial do ponteiro ao deslocamento espacial de alguma outra coisa.

Para Bergson, não poderíamos tomar o deslocamento espacial como sendo a experiência do ou com o tempo. Deslocamento espacial se refere à determinada experiência, mas “o tempo” não se refere a essa mesma experiência. Claro, para medidas e trabalhos que tem por finalidade soluções de certos problemas físicos comparar espaços faz sentido. Mas o que seria, então, o verdadeiro ou a experiência efetiva com o tempo?

2. Duração: o tempo da consciência

A partir de sua crítica, Bergson propõe a experiência da “duração”. Não vamos entrar no mérito específico e muito menos passar por todas as possibilidades que o filósofo abre a partir daí – para tal teríamos que repassar por toda sua obra. Por necessidades práticas, vamos indevidamente resumir olhando pelo buraco da fechadura da gigantesca porta que Bergson abriu em suas propostas. A experiência com o tempo não seria “objetiva”, uma experiência tomada como um objeto, mas “subjetiva”: é uma experiência do sujeito, à qual o sujeito está sujeito…

A experiência com o tempo, que Bergson chama de duração, é um movimento da consciência. É um dado “imediato”, uma experiência única sem controle que só é possível ao sujeito, ao humano. Não é uma passagem brusca de um ponto para outro, como o movimento de um objeto, mas uma continuidade de experiências que se interferem, que não tem mediação. É a construção de um sujeito que não se constrói sozinho, mas é afetado pelo tempo, por suas experiências, por uma história própria, uma memória própria. Tudo o que acontece sem mediação, num instante, e é vivido e dura em um sujeito constituindo sua memória, desvelando e revelando sua consciência.

3. O tempo “entre nós”: o futuro que vem a mim

Quando tomamos o espaço pelo tempo, marcamos o tempo como deslocamento de um movimento. Assim, quando um objeto sai do ponto 1 seguindo para o ponto 2, onde para e de onde vislumbra se continuar correndo chegará ao ponto 3, dizemos que o ponto 1 foi passado, o 2 é presente e prevemos o 3 como futuro. Antecipamos “todo tempo”. Na verdade, observamos o espaço, e não o tempo. Tratando “passado-presente-futuro” nessa linha, estamos falando de espaços percorridos. A experiência como o tempo, como vimos, é outra, de outra ordem.

A crítica de Bergson, tirando o tempo desse movimento espacial e trazendo para uma experiência do sujeito, a duração da ou na “consciência”, nos chama a abrir outra possibilidade para a experiência do “passado-presente-futuro”. Ao invés de algo “em linha”, algo novo.

Emmanuel Levinas atravessa a porta aberta por Bergson e toma um novo caminho: um novo significado, uma nova possibilidade de tempo. Para ele, tendo em mente que o tempo como duração é uma experiência do sujeito, da consciência, esse sujeito não vive ou experimenta a vida sozinho: sua consciência é despertada quando está “em relação” com algo exterior, “alguém de fora”, uma alteridade. Em suas palavras: “o tempo não é o fato de um sujeito isolado e só, mas é a própria relação do sujeito com o outro”.

Tenho minha experiência com o tempo, minha experiência de consciência, e o outro tem sua experiência com o tempo, sua experiência de consciência. Eu duro em meu tempo e outro dura em seu tempo. Quando nos relacionamos, quando nos encontramos, o tempo do outro é tempo que vem a mim. É com isso que Emmanuel Levinas apresentará o encontro com o outro como o “futuro que vem a mim”! Não é um tempo mensurável, marcado e que podemos prever: é um tempo que vem, irrompe, uma experiência entre sujeitos, entre o Eu e o Próximo.

A partir de Levinas, quando o outro nos fala algo, a palavra vinda é de “outro tempo”, de um futuro inesperado e incontrolável. As palavras seriam escatológicas! A relação com o outro seria escatológica: cada instante com alguém é efetivamente um instante e o único possível! É a profunda experiência do tempo.

Bruno Reikdal Lima

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