Consolo e Esperança

justiça  ssWim Kayzer produziu um documentário intitulado O Belo e a Consolação (2000); uma série de entrevistas com intelectuais respondendo a questão “O que faz com que valha a pena viver a vida?”. O grande final da série é um debate um tanto quanto chato e cansativo (de 3 horas de duração) entre os entrevistados

Parecia que as discussões girariam em torno de respostas como constituir família, ter amigos, prazer, viver a vida desfrutando do que aparecer num dia qualquer… Até que, séria e sisuda, Martha Naussbaum problematizou a questão afirmando que nem todos tem a chance de responder esse tipo de pergunta por que morrem antes mesmo de aprender a falar. O que podemos fazer, então, para criar justiça entre os seres humanos? Ela fez a pergunta errada no lugar errado.

Estavam no debate intelectuais, artistas, filósofos, físicos e essas coisas. A pergunta estava sendo respondida por pessoas que não precisam se preocupar com a comida de amanhã – ela está garantida. Ali, falar de justiça não fazia sentido. Aliás, para filósofos e intelectuais, o que faz sentido? Logo que Martha levantou a questão da justiça, um dos pensadores que participavam do debate, o historiador Simon Schama, debochou cheio de cinismo: “Eu prefiro sexo a justiça. Inclusive, estou surpreso que não conste na lista de ninguém. Não apenas o sexo, a jardinagem também”. As palavras “prazer” e “desfrutar” voltaram a ser o centro da discussão, mas tão insossas quanto arroz sem sal ou quanto aqueles pratos da moda gourmet de programas de televisão: são lindos, maravilhosos, mas não sentimos seu sabor, cheiro e ainda pensamos que “aqui em casa jamais sairia desse jeito”.

Claro que para quem vive como um francês de classe média, com vida previsível e sem graça de um Humbert Humbert – personagem principal de Lolita, de Nabokov – sexo será muito melhor do que justiça; a falta de problemas hoje faz com que as lembranças da infância sejam batalhas pesadas demais. Humbert Humbert é um francês que não tem o que fazer, não tem sonhos, nem planos e vive em função de um momento lindo e desastroso perdido no passado.

Filósofos criticam o “penso, logo, existo” – e isso se torna um tema importantíssimo nas universidades – porque podem pensar sobre isso; eles não precisam constatar o “sinto fome, logo, existo”, já que comida é uma questão indiferente. Aliás, eles podem escolher o que vão comer. E disso podemos tirar que quando um objeto se torna indiferente para nós, temos a possibilidade de escolher entre seus semelhantes: quando o objeto “comida” é indiferente, passamos a escolher o que comeremos entre os vários tipos de objetos comida disponíveis. Quando “geladeira” (objeto onde a comida é guardada) se torna indiferente, passamos a escolher qual queremos dentre os diferentes objetos geladeira. Escolha não é sempre uma questão de liberdade, pode ser uma questão de indiferença. Se vivemos de debates e escolhas sobre as opções do objeto sexo, pode ser porque ele se tornou indiferente…

Martha estava sendo massacrada pela ironia cínica da indiferença. Aquele ar burguês-blasé crescia. Que sentido fazia perguntar pela justiça? Há tantas opções belas na vida, tudo é tão efêmero e sem razão que não vale a pena viver a vida pela justiça ou por algum sentido desses. Mas pela falta de sentido de uma noite de prazer com uma moça ou um rapaz (e quem sabe ainda escolho acordar cedo e cortar a grama pela manhã) parece fazer com que a vida valha a pena, é um bom sentido (vai entender?!).

Já tentaram resolver o problema do mundo, não deu certo[1]. Pelo menos já resolvemos o nosso. Assim, não faz sentido justiça porque nada faz sentido, mesmo. Então, deixe quieto… Tendo o nosso “problema resolvido”, não faz sentido cuidar do dos outros…

No meio da chatice burguesa e depressiva, Richard Rorty, como aquela luz clichê no horizonte, surge e faz com que todos parem de se digladiar por nada num instante de sabedoria. Salvando a justiça e, junto com ela, Martha, Rorty diz que existem escolhas facultativas na vida como jardinagem, sexo, profissão, teatro e etc., mas, no caso da justiça, ela é uma resposta única e correta para qualquer situação.

Desse ponto de Rorty, tiro que tratar a justiça como uma questão de escolha de ser aderia ou não, é tornar a própria escolha (o ato de escolher) como promotora da indiferença, e não da liberdade. Assumir o dever da justiça seria se comprometer com a liberdade, seria efetivamente possibilitar a liberdade, lutar por ela. Viver pela liberdade não é fazer escolhas, é viver de modo que sua existência seja possível. Nisso, existe uma questão que não é facultativa: a justiça.

Indo além de sua primeira proposta, Rorty ainda salienta que existe uma diferença entre nossa efemeridade individual e a morte eterna da humanidade. Uma coisa é nos consolarmos com nossas memórias e experiências individuais, outra é termos projetos e planos para a humanidade, para a História humana.

A distinção feita por Rorty entre consolo e esperança durante o debate foi a inspiração deste texto. No meio de um pessimismo e completa falta de sentido, existe uma resposta certa para qualquer situação: justiça. Ao separar nossas experiências pessoais de nossas estruturas políticas, Rorty desenha o seguinte quadro: consolo é quando olhamos para trás e dizemos “nem tudo foi tão ruim”, e esperança é quando olhamos para frente e dizemos que o futuro será melhor. Uma coisa é nossa efemeridade, outra é o projeto para a humanidade.

Para filósofos e intelectuais que procuram o porquê das coisas em tempos que a pergunta certa deveria ser “porquê não?”, pedir para que creiam num propósito ou criem um projeto é pedir demais. Para intelectuais que sabem que não existe uma verdade, pedir para que inventem uma também parece ser uma tarefa exageradamente trabalhosa. Dizem que tudo é ilusão para não precisarem se comprometer com nada, mas não percebem que ao fazer isso afirmam que o “nada” não é uma ilusão e, por isso, estão comprometidos com ele. Rorty propõe que criemos algo, que não caiamos no nada. O porque das coisas não importa. Afinal, se nada é certo, porque não crer em alguma coisa? Porque não abraçar um projeto? Porque não olhar para o amanhã e ter esperança? Como John Dewey disse: “Ilusões são ilusões, mas a ocorrência de uma ilusão não é uma ilusão”, pois nos serve de alguma coisa. Portanto, as usemos!

O que faremos com nós mesmos? Em que projeto nos engajaremos? Qual a nossa esperança? Ao mesmo tempo, quando olharmos para trás, teremos figuras em nossa memória para afirmarmos “nem tudo foi tão ruim”? Consolo e esperança: experiências lindas, projetos fantásticos.

Um ilusionista faz truques assustadores. Dizemos que eles não são reais porque sabemos que seria impossível acontecer aquela mágica sem as estruturas que ele inventou e que fazem com que ela aconteça. Sabemos da existência de mecanismos mesmo sem vê-los, por isso desacreditamos da mágica como “mágica”. Mesmo assim, a mágica nos encanta, nos deixa de boca aberta. Seu efeito é absurdo e maravilhoso. Sabemos do aparato escondido pelo mágico que faz com que o impossível aconteça e isso não impede seu efeito.

Graças a Deus pelo truque que acontece por causa de processos invisíveis aos observadores! Esperança é construir a estrutura do impossível para que o futuro veja seus efeitos e trate como a coisa mais normal do mundo: “Claro que essa mágica acontece, é um truque! Veja as estruturas…” Entretanto, isso só será dito daqui muito tempo, quando nós olharmos para trás e também dissermos: “É, nem tudo foi tão ruim assim…”

A mágica não é real como mágica, mas acontece como efeito de determinadas reações. O Sol não dá voltas sobre a Terra porque sabemos que acontece o contrário, mas o efeito aos nossos olhos de que ele nos circunda é inegável. Assim como a mágica é real, o dia clareia porque “o Sol está nascendo”…

[1] Uma das participantes do debate disse praticamente essa frase se referindo à justiça: “Já tentaram, não deu certo”.

 Bruno Reikdal Lima

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