Intuições sobre relacionalidade

1462939_511976798898086_458272640_nRelacionalidade é um termo que se tornou caro em minhas propostas e análises. Tenho produzido textos mais conceituais e específicos, mas, por ora, vale deixar o caminho aberto para quem mais se interessar e quiser produzir na trilha da relacionalidade. Algumas questões e intuições que me despertaram seguem nesse texto

“Globalização é a palavra que simboliza tudo o que acontece no presente”[1], afirma José Comblin, que continua:

“Existem milhares de livros dedicados à globalização e todos os leitores sabem bem de que se trata. Estão surgindo megaempresas sempre mais poderosas […] Proclamam que são capazes de estabelecer a felicidade no mundo inteiro […] O cidadão se tornou consumidor e se dedica a consumir para que o sistema possa crescer cada vez mais. A mídia é uma permanente fonte de propaganda para esse consumo. A nova civilização tecnológica exige muita riqueza. Quem não tem essa riqueza fica fora da sociedade e dessa civilização e não contribui para a prosperidade do mundo. O que significa o evangelho para os consumidores?”

“O que significa o evangelho para os consumidores”? Uma pergunta simples, mas que nos obriga a parar por um segundo e pensar na mensagem cristã. A questão não é uma discussão teológica, a princípio, mas meramente cotidiana: sabendo que direcionamos a mensagem evangélica para consumidores, o que essa mensagem significa para estes?

O cuidado analítico e crítico de Comblin não questiona primeiramente aquilo que estamos falando, mas o caráter daquele que está ouvindo: quem é? A centralidade da pergunta não é a própria mensagem ou seu porta-voz, não é a teologia, mas o ouvinte, o sujeito para quem ela é direcionada.

Aqui encontramos a primeira intuição sobre relacionalidade: a discussão teológica não é iniciada necessariamente e somente por suas falhas e problemas internos, mas também em sua relação com os sujeitos que vem de encontro a ela. A centralidade dos problemas não precisa ser interna: talvez o foco dos questionamentos precise ser deslocado, encaixado em outro lugar – ou como poderíamos dizer, em “outro paradigma[2].

O que está acontecendo lá fora? Quais são as relações estabelecidas? Slavoj Zizek escreve:

“Os cidadãos globais dessas áreas isoladas não seriam o verdadeiro contraponto dos que moram em favelas e outras manchas brancas ou lacunas da esfera pública? Na verdade, eles são os dois lados da mesma moeda, dois extremos da nova divisão de classes. A cidade que melhor personifica essa divisão é São Paulo, no Brasil, que ostenta 250 helipontos em sua área central. Para evitar o perigo de se misturar com gente comum, os ricos de São Paulo preferem utilizar helicópteros, de modo que, olhando para a o céu da cidade, temos realmente a impressão de estar numa megalópole futurista do tipo que se vê em filmes como Blade Runner ou O quinto elemento: as pessoas comuns enxameando as perigosas ruas lá embaixo e os ricos flutuando num nível mais alto, no céu.[3]

Existe vida para além das afirmações teológicas e, sim, precisa ser vista. A teologia não está isolada de conexões, relações, interações entre sujeitos. Ela é, na verdade, produto da relação entre homens de fé e a experiência com Deus. “Há tanta vida lá fora” que, mesmo não querendo, tudo se envolve e participa das construções em teologia. A teologia está em relação – essa é nossa segunda intuição, que já nos encaminha para a terceira.

Estando em relação com sujeitos, com vida, qualquer que seja nossa postura, ela é sempre uma resposta. Não é de nossa escolha responder ou não. Estar em relação implica numa constante exposição ao exterior: toda decisão, fala, postura é uma resposta, uma ação em relação ao que existe para além de si mesmo. Assim, a teologia, mesmo quando se cala, responde sempre àqueles que são outros.

Os problemas contemporâneos dizem respeito à teologia e estão sendo respondidos: seja com silêncio, com asserção, acolhimento ou rejeição. Mas o que respondemos? Leonardo Boff escreveu:

“Ninguém tem condições hoje de nos dizer para onde está caminhando a humanidade: se na direção de um abismo, que a todos vai tragar, ou se na direção de uma culminância, que a todos vai englobar […] Há sinais para todos os cenários. Mas nenhum é inequívoco. Somos condenados a fazer o caminho caminhando […] Quem tem autoridade bastante para nos dizer o que ainda é bom e mau? […] que revolução ética e moral cumpre fazer para superar a maior chaga que envergonha a humanidade e, concretamente, nosso país, os milhões e bilhões que gritam caninamente ao céu pedindo um pouco de compaixão e misericórdia na forma de pão, de água potável, de saúde, de moradia, de reconhecimento e de inclusão na família humana?[4]

A história continua seguindo seu curso, eventos acontecendo, situações extremas e urgências nos colocando em questão. As perguntas postas por Boff devem exigir de nós que pensemos sobre as respostas que temos dado aos problemas, sobre qual a função teológica em relação às emergências contemporâneas: hoje, em teologia, falamos de nosso cotidiano e para nosso cotidiano?

As primeiras intuições sobre relacionalidade tem que nos colocar em questão: não são respostas simples nem lugares comuns o auxílio para a teologia, mas a percepção de que estamos em relação. O deslocamento da centralidade, do centro de gravidade teológico, precisa nos dispor a enfrentar os diversos problemas contemporâneos. Não em busca da novidade ou da nova teologia, mas da boa nova, de uma mensagem efetiva, que responda às questões em prontidão, em serviço ao próximo, produtivamente.

[1] A profecia na Igreja, José Comblin.  Paulus.

[2] Paradigma é uma palavra importante nos debates contemporâneos. Principalmente em filosofia da ciência, o termo ganhou significado diferente e extremamente relevante nas propostas de Thomas Kuhn.

[3] Primeiro como tragédia, depois como farsa, Slavoj Zizek. Boitempo Editorial.

[4] Ética e Moral: a busca dos fundamentos, Leonardo Boff. Editora Vozes.

Bruno Reikdal Lima

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