Saindo de Casa: experiência de fé corpo-a-corpo

ZZ6CF1418E“Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra (Atos 1: 8)”

Quando falamos de “missão”, podemos nos acostumar com uma ação isolada, exclusiva direcionada para “fora” de nossa casa e com o objetivo de ensinar ao mundo o que aprendemos em nossa sala. Podemos confundir, também, com o que chamamos de ação social: pode ser um trabalho voluntário, uma doação financeira ou, sei lá, auxiliar alguma instituição. Não podemos ser um exército de catequistas e nem fazer da missão um “evento” da Igreja…

Talvez isso tenha a ver com a nossa maneira de ler a Bíblia e de trabalhar nossas experiências de fé: nos acostumamos a dizer para elas o que elas devem nos dizer, e não deixar que elas nos guiem. Não nos deixamos surpreender pelas novas possibilidades e por outras experiências. O melhor é ter o controle e uma boa resposta. Deveria ser como disse Moltmann: “Não é a Igreja que ‘tem’ uma missão, mas o contrário, na missão de Cristo se cria uma Igreja. Não é a missão que deve ser compreendida a partir da Igreja, mas o contrário”.

A gente se acostuma tanto quanto a ter o controle e saber das coisas, que até nos nossos contatos uns com os outros, não nos deixamos ser surpreendido pelo Outro, pelo Próximo. Já “sabemos” o que ele vai nos dizer ou vai fazer. Não permitimos que nossas relações nos baguncem, que nossos corpos se toquem e nos façam chorar ou rir. Quando vemos gente diferente da gente, não vemos a gente, mas nossos preconceitos. A face do próximo não abre um espaço de silêncio e de busca por uma nova possibilidade, mas de preconceito, frases-prontas, desdém. Aqueles que não são como os da nossa casa, não falam nossa língua, devem ser convertidos ou rejeitados: essa seria nossa missão ou uma das maneiras que lidamos com “missões”.

Nesse caminho, ficamos dentro de nossa casa, planejando o que faremos, fechados para o mundo, com tudo trancado. Assim como os discípulos no tempo o Pentecostes. Não há espaço para o sopro do Espírito, pois em casa fechada, como diz Jung Mo Sung, não tem espaço para o vento soprar e tirar o mofo que está lá dentro. Não tem como arejar. Mas, se uma pequena brecha permite com que o vento sopre, podemos sair de nossas casas e aprender a falar a língua dos outros, daqueles que são diferentes de nós. O poder do Espírito nos empurra para fora de Jerusalém, nos leva para os confins da terra.

Skatistas da periferia aprendendo a língua de playboys mimados em condomínio, empresárias aprendendo a língua de funcionárias domésticas, o pedreiro durante a semana é diácono na Igreja no domingo e tem sua língua ouvida por seu melhor amigo gerente de uma multinacional. O Espírito sopra e há espaço para nos surpreendermos com o Outro. Assim, em minhas crenças, deveria ser nossa maneira de lidar com a Bíblia, de lidar com “missões”.

Nossa missão tem que ser guiada e apresentada como uma novidade de nossas experiências de fé. Não determinados a missão, ela se nos surge, e ai a abraçamos ou não. É a experiência com Cristo, aquilo que nos une como povo, que constrói a missão da Igreja, nossa missão.

Experiência de fé se dá nesse contato corpo a corpo, face-a-face, com o Próximo que nos surpreende, que nos cala, que na distância que existe entre nós e nossa casa para ele e a casa dele, nesse espaço vazio, o Espírito pode soprar. É vivermos na esperança de ler com orgulho Josué 22: 3: “Durante muito tempo, e até hoje, vocês não abandonaram os seus irmãos, mas cumpriram a missão que o Senhor, o seu Deus, entregou a vocês”.

Sim, não podemos jogar a missão para um âmbito espiritualóide de outra ordem. O encontro e a experiência de fé corpo-a-corpo: existem necessidades, fome, prisões. É o chamado de Jesus para o cobrirmos, o alimentarmos, saciarmos sua sede, o visitarmos em sua prisão, o recebermos como estrangeiro enquanto fazemos tudo isso uns com os outros. A única coisa que me preocupa é que essa experiência seja enquadrada num evento de Igreja ou ação social igual qualquer outra. A missão tem que ter como princípio a base material de nossa experiência de fé, o corpo do Próximo, que nos convida a conhecer suas necessidades. Essas necessidades devem ser cuidadas e trabalhadas, não como assistência social, mas como reconhecimento de um irmão, de parte de nosso Povo, de nossa comunidade, do Corpo de Cristo, que está morrendo.

A ação voluntária isolada, doação financeira eventual ou descolada da vida e caminhada diária, não reconhece o Próximo como nosso irmão, não possibilita a ele o reconhecimento de um sujeito parte de nosso Povo. Ele em comunidade pode participar e se tornar agente da missão junto conosco. Missão deve criar missionários, não dependentes: criar sujeitos que agem junto ao nosso Povo, não objetos de uma ação de outros sujeitos. Nossa experiência de Fé comum tem que ser viva e produzir vida. Missão guiada pelo Espírito produz missionários, irmãos autônomos, responsáveis por nós e pelos outros. Parte do Sacerdócio Universal de Todos os Santos: não precisam de mediadores, tem a experiência de Cristo neles mesmos enquanto estamos todos nos relacionando universalmente no Povo, em comunidade.

É, minha crença: uma utopia, eu sei. Viagem bem distante e complicada. Talvez impossível. Mas é a esperança animada por experiências de Fé, compromisso com missão e fidelidade ao Reino. Mas como disse Pedro Casaldáliga: “Somos operários da utopia. A proclamamos e a fazemos: é dom de Deus e conquista nossa. Assim, queremos dar ‘razão da nossa esperança’. Intentemos, então, viver com humildade e com paixão de uma esperança coerente, criativa e subversivamente transformadora”.

Que Deus nos abençoe. Que ele nos fortaleça e dê coragem para corrermos boas carreiras, olharmos para os dias e dizermos: “Não me detenham, agora que o Senhor coroou de êxito a minha missão. Vamos nos despedir, hora de voltar para a casa de meu senhor” [Gênesis 24: 56]…

Bruno Reikdal Lima

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