Uma leitura marxista de Economia

Frases-pichadas-pixações-políticas-pensamentos-nos-muros-12Não dá para esquecer a primeira aula de Economia IV quando cursei Sociais: o professor entrou na sala de chinelão, naquele estilo roots, e já ganhou quem vê as aparências antes de apreciar o coração. Se dizendo marxista, ele fez um alerta para que não nos acostumássemos com discursos prontos e fôssemos estudar “de verdade”. Economia em Karl Marx não poderia ser panfletagem

Nessa, um aluno já discutiu com ele sobre a ideologia marxista, economia de mercado e uma série de frases prontas sem significado estruturado (lição 1: só fale daquilo que você sabe explicar o que é). E quando o aluno mandou um “a culpa é dos donos dos meios de produção”, a casa caiu… literalmente.

O professor perguntou se o pai do brother era empregado ou “patrão”. O rapaz respondeu que empregado. O professor, então, perguntou onde ele morava, e o rapaz disse “no Batel” (bairro chique em Curitiba). “Qual carro ele tem?”, e a resposta foi “um Audi (x qualquer)”. E o professor fatalizou: “Seu João é dono da quitanda de uma periferia e tem um empregado. Comprou um carro usado e sua para pagar as contas de casa. Quem desequilibra a balança?” E aí começou a aula!

O tema da aula era “ótimo (ou eficiência) de Pareto”. A primeira discussão era sobre o “equilíbrio”, a tendência ao “0”,o esforço para equilibrar a “balança”. Foi esse meu primeiro contato efetivo com uma análise marxista, não uma conversa panfletária. A ideia era mostrar que o esforço para produzir mecanismos que equilibrassem as finanças não é um exercício de economia, mas de “finanças”. O que aprendi foi: há uma diferença entre economia e sistema financeiro.

Eu deixei a faculdade de Ciências Sociais, mas nunca essa aula de Economia IV. Só podemos falar, e só é possível praticar, o esforço para equilibrar a balança se houver uma medida que torne igual aquilo que é diferente. É essa a função da moeda, do dinheiro. Porque o primeiro livro d’O Capital é sobre o dinheiro? Porque Marx precisa separar a ideia de dinheiro da de capital para, depois, demonstrar a confusão que produzida no capitalismo: quando economia e sistema financeiro são unidos. Quando o dinheiro se torna a medida, a economia é “disfarçada”: parece se tornar possível equilibrar os desiguais.

Porque vez por outra surge a expressão “economia real”? Porque sistema financeiro não é “economia” propriamente dita. É no sistema capitalista que isso acontece. A diferença entre uma produção e outra impede o “equilíbrio”. O “ótimo de Pareto” funciona enquanto se aceita que economia e sistema financeiro são uma mesma coisa. Ser obrigado à tender à zero na balança comercial só funciona com a aceitação da medida, da mediação. Pior: com a crença de que um número pode mediar a produção de uma pessoa em troca da de outra. Para mim é difícil encontrar na esquerda atual algum marxista pois não encontro essa separação nas análises econômicas e nas propostas políticas por ela feita.

Marx produz ferramentas que possibilitam “colocarmos cada coisa em seu lugar”. Dizer que um problema é político-econômico sempre não é o mesmo que dizer que um problema é político-e-financeiro, sempre. Sociedades “pré-capitalistas” não fundiam moedas com problemas político-econômicos, de acordo com a análise de Marx. A economia não se baseava na “quantidade de capital”, mas na “riqueza” produzida. Por altos e baixos, é nessas que uma China se fortalece com as crises subsequentes do sistema financeiro: ela produz riquezas, não dinheiro. É nessas que uma análise que diz que a riqueza de um país é sua população, faz sentido e todo sentido. O problema é que misturamos tudo num saco só – inclusive os marxistas (teoricamente leitores e discípulos de Marx).

O capital é “ilimitado” porque trabalhamos com ele confundindo a medida com a própria produção. Saber fazer essa conta e essa diferença é que separa os meninos dos lobos: os marxistas dos capitalistas. O “capital” não vai morrer, não vai cair e nem se deteriorar. Se alguma catástrofe acontecer, é com a “economia de verdade”: com pessoas, com gente. Por isso quando vejo um cara que se diz de esquerda comemorando o “apocalipse” financeiro entro em desespero: “você não vê! Não é a casa deles que está caindo; é o mundo que está indo pelos ares!”. Hoje um trabalho marxista é tentar transformar as medidas, de modo que a igualdade não seja “econômica” (financeira), mas social…

A panfletagem, na minha interpretação, do “Manifesto Comunista” faz sentido visto à partir desse ponto: a transferência da igualdade de um sistema de trocas financeiras para a igualdade social, efetiva. Assim como Enrique Dussel interpreta, o problema de Marx não era a propriedade, mas a desigualdade entre sujeitos. A proposta de redistribuição de renda não é (e não deve ser) para a manutenção do mercado, mas para a valorização de outra coisa que não a “medida” (o dinheiro). Forçar a igualdade dentro do mercado é forçar a desvalorização daquilo que “todo mundo tem”. A igualdade social é um apelo à valorização das diferenças entre os sujeitos, das diferenças “reais”. É trabalhar com uma economia da diferença: que valoriza a riqueza produzida, não a medida que será utilizada nas transferências dessas riquezas.

Bruno Reikdal Lima

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