A arca: a liberdade que nos prende

ECN1989001W00006-21Passava a chuva, aparecia o arco-íris e minha avó perguntava: para mim e para minha irmã: “vocês sabem porque é que existe o arco-íris, crianças?”. Fazia parte das férias na viagem para a casinha em Atibaia

Lembro de ter respondido algumas vezes essa pergunta, lembro de ter ouvido ela contar a mesma estória como se fosse uma grandissíssima boa nova. Minha vó nos dizia: ”o arco-íris foi feito por Deus para nos lembrarmos de sua aliança” – e em seguida meu avô concordava com a cabeça (que não é pequena…) e cantava algum hino de igreja.

Tive uma boa infância. Ouvi repetições que sussurravam novidades, mesmo eu sabendo o começo, meio e fim das estórias. Sabia que minha vó se referia à chuva como se fosse aquele dilúvio que inundava a Terra e ao arco-íris como a promessa esperançosa de que jamais haveria o desejo divino de destruição da humanidade. Hoje sei responder que arco-íris é um acidente de gotículas de água que, funcionando como prismas, refletem diferentes cores que desenham um caminho colorido que leva coisa alguma à lugar nenhum e se sustenta no ar. Hoje sei da possibilidade de participar do fim da humanidade, da destruição do planeta. Hoje poderia responder minha vó de outro jeito. Hoje poderia dizer como surge o efeito arco-íris e que a aliança parece estar um tanto cortada. Poderia, só que não…

A pergunta da minha avó era muito mais profunda. A pergunta da minha avó tinha a ver com a esperança eterna que não costuma falhar: a Fé. Minha vó não queria saber do arco-íris, minha vó queria saber se eu manteria um sonho vivo, se eu e minha irmã seríamos a resposta que o mundo procurava, se nós manteríamos a esperança acesa. Minha vó repetia o Gladiador: “O que é Roma? Roma era um sonho, tão delicado que só de sussurrar seu nome, poderia desaparecer”.

Da estória e das perguntas contadas pela minha avó, guardei uma parte estranha que sempre me encantava. Tinha uma arca cheia de bichos atolada no cume de um monte. A chuva tinha parado, as águas estavam baixando, mas não tinha como se saber se já havia terra firme e habitável para se recomeçar a vida. Para resolver o problema, o tal do velhinho chamado Noé resolveu soltar pássaros regularmente para encontrar segurança e se libertar do cativeiro que a antiga protetora de sua vida se tornara. A arca, sendo a guardiã e a possibilidade de salvação da humanidade, com o fim da tempestade, havia se transformado numa prisão…

Primeiro Noé soltou um corvo, mas o bichinho rondou a arca, deu voltas em torno da prisão e retornou sem trazer nem um pingo de esperança. Agoniado e ansioso por liberdade, soltou, então, uma pomba. Ela saiu pela manhã apressada em sua missão, mas, ao anoitecer, retornou de bico vazio e olhos entristecidos. Noé, com as íris dos olhos marejadas, esperou mais uns dias e novamente soltou a pomba valente. Mais uma vez a mensageira desapareceu ao horizonte e, no fim de tarde, retornou apressada rasgando o céu alaranjado pelo Sol poente com um graveto de esperança no bico. Por fim, passados uns dias, Noé soltou mais uma vez a mensageira, mas, dessa vez, ela não retornou mais para a prisão. A mensagem estava dada.

Por vezes nossas arcas salvadoras que vencem tempestades param em cumes de montes e perdem sua função libertadora. Nossas arcas, assim, se tornam prisões. Alguns se apegam demais ao cativeiro e, quando soltos para serem mensageiros, apenas rondam a prisão, fazem uma análise panorâmica de tudo, mas não trazem esperança e novidade nenhuma. Em outras vezes, a missão de trazer alguma boa nova que nos tire de dentro da arca é acolhida com muita paixão por uma pomba, mas ela retorna para a casa-morta com o silêncio dos cemitérios. Lindo, porém, é quando a mensageira encontra a liberdade, descobre vida fora da arca, segurança além dos muros da prisão, mas, não se contenta em se estabelecer num galho novo, retornando para a casa morta e avisando a todos que há um novo mundo surgindo, ainda há esperança.

A maturidade definitiva dessa experiência é quando a mensagem deixada é a mensagem do silêncio do nascer do Sol. Quando não precisa se perguntar onde está a pomba ou se há um lugar melhor do que a arca. Todos já sabemos: estamos livres! O silêncio da pomba gritava liberdade, salvação e segurança…

Se encontramos um sinal de esperança, precisamos retornar à arca para avisar os outros. Além disso, pode ser que a mensagem mais profunda e libertadora seja o silêncio do nascer do Sol, quando tudo ainda está parado, acordando e o brilho do senhor do dia nos obriga à contemplação. Desaparecer calado no horizonte pode ser a sutil mensagem de salvação. Daí vem a pergunta da minha avó: “vocês sabem porque existe arco-íris, crianças?”. Sim, vó! Para nos lembrar de que existe um sonho de esperança, uma aliança de Fé entre nós e Deus de que haverá terra seca num futuro, que deixaremos a arca para vivermos e desfrutarmos do mundo lindo de liberdade construído como casa-viva para nós…

Bruno Reikdal Lima

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