Santidade e a doutrina da eleição

SUM2006007Z06931-01Uma vez Jung Mo Sung contou uma historinha: é preciso abrir a janela e as portas de casa para que o vento sopre, tire o mofo e traga novos ares. Jesus disse em João 3 que o Espírito é como o vento. Para sermos animados pelo Espírito não podemos nos trancar em casa, como os discípulos fizeram em Atos; para que a Boa Nova se espalhasse, precisavam abrir o ambiente. Assim também precisa ser com nossas propostas teológicas

Rubem Alves escreveu que a mudança de linguagem de fé acontece numa relação de negação do velho e surgimento do novo: nascer, morrer e ressuscitar. Uma relação dialética do passado e do presente resultando num novo futuro. Não concordo muito, porque sou de uma escola filosófica diferente, mas entendo que seu desejo é da abertura para o novo.

Rubem escreveu isso no seu “exílio”: quando se retirou para os EUA na época de ditadura. Parece que naquele tempo novidade era algo extremamente perigoso e rejeitável. Hoje, o “velho” é que é rejeitável – todos ficam esperando pelo próximo lançamento. Talvez a necessidade não seja mais de fortalecer o novo, como ele precisava fazer. Me parece que hoje precisamos instaurar outra coisa: não a luta do velho e do novo, mas o trabalho relacional: entre as diferenças. É nessa trilha que proponho minhas leituras e arrisco minhas propostas.

A escola a qual pertenço não é dialética, mas “ética” – só. E dela, na influência das escolas pragmática e fenomenológica, tenho tentado resgatar o termo “relacional” para a teologia. O exercício é de resignificação de nossos dogmas e discursos de fé. É a tentativa de abrir janelas e portas para que o vento sopre, o Espírito entre, e reanimemos nossas expressões de fé.

Não creio que a religião e a religiosidade estejam em crise; se estivessem, não estaríamos vendo um crescimento e intensificação de fiéis e eclosões, inclusive, de fundamentalismos. Experiências de fé temos tido, mas temos encontrado dificuldade de comunicá-las, de trabalhá-las em nossas relações cotidianas, uns com os outros. Assim, tendo em vista a teologia protestante brasileira, gostaria de tentar mostrar uma possibilidade de significarmos “santidade” e o dogma da “eleição”, do “povo eleito”:

Nessa nova vida já não há mais grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro e cidadão, escravo e livre, mas Cristo é tudo e está em todos. Portanto, como povo escolhido de Deus, santo e amado, revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou. Acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o elo perfeito (Colossenses 3: 11-14)

A princípio, pensei em utilizar apenas o trecho “como povo escolhido de Deus, santo e amado, revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência”, mas percebi que os demais versículos iluminavam o “povo escolhido” de um jeito especial. A “perícope” (é o termo usado para o trecho que selecionamos como tendo significado completo) teria maior extensão. E foi nesse momento que percebi a relação estreita entre a santidade e a eleição.

O que há de essencial em uma proposta relacional de teologia é o caminho do “entre”: o vazio que existe e deve existir entre Eu e o Próximo. É a experiência viva da relação cotidiana de “amar o Próximo como a si mesmo”. Sendo esse o maior dos mandamentos, deve ser ele o guia de nossas leituras: sem a relação com o próximo, ou a partir do Próximo, a leitura bíblica não tem sentido. Sentido há quando existe uma direção para algum lugar, e se a leitura é de “mim para mim mesmo”, não tem direcionamento lá fora, não tem sentido. Agora, havendo vida para além da minha, sabendo que é para o Próximo que devo exercer minha religiosidade, a leitura tem sentido, não é vazia.

Aliás, aqui já começamos a leitura do texto de Colossenses: nessa nova vida não há mais as distinções aparentes, pois Cristo é em todos. Soren Kierkegaard conta que na Parábola do Samaritano aprendemos que antes de qualquer papel social (mãe, pai, amante, professor, pintor, etc), somos Próximos – e devemos ser Próximos. Perceba a sutileza: devemos ser o Próximo! Quando Jesus pergunta quem era o Próximo do homem que estava caído, temos que responder que o Próximo daquele era o próprio Samaritano. Assim, “ame o Próximo como a si mesmo”, pois você deve se tornar o Próximo. Sendo Próximo, ame-o como Próximo. As aparências, as distinções, já não são importantes, pois enquanto Próximos, Cristo é em todos.

Mas não é que não deva haver diferenças! Muito pelo contrário! Somos diferença. Somos todo diferença. Entre eu e o Próximo, há muita diferença. E ela deve ser mantida, pois não devo tornar o outro parte de mim, mas tornar a mim mesmo Próximo do Outro; não me tornar o Outro, mas seu Próximo. Devemos estabelecer uma relação e mantê-la viva, separados, enquanto Próximos. Nos tornamos, assim um povo, um povo separado, um povo escolhido…

Somos separados, somos escolhidos, somos santos, somos eleitos: “povo escolhido de Deus, santo e amado”. Mas o que isso significa? Que sejamos melhores ou especiais? Não, necessariamente. Significa, em nossas relações, que sou separado do Próximo e para o Próximo: fui eleito, escolhido, como o responsável pelo Próximo, como quem deve amá-lo, como quem está a seu serviço. “Santo” muitas vezes é traduzido como “separado”. Santo e separado por ser servidor, estar à serviço, sempre.

Por isso devemos, enquanto “povo escolhido de Deus”, nos vestir de “profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência”. É a lembrança de nosso dever santo: suportar uns aos outros e perdoar as queixas que tivermos, perdoando como Ele nos perdoou em nossa relação com Ele. A doutrina da eleição tem sentido quando direcionada pelo serviço ao Próximo: é a trabalho santo, o sacro-ofício, pelo Próximo. A relação que deve ser estabelecida, viva e mantida.

É no espaço “vazio” entre nós, na nossa separação, na minha eleição enquanto responsável pelo Próximo, que devemos estruturar nossa teologia, nossas propostas de fé. É o princípio, o fundamento. É esse o ambiente do amor, o espaço do amor. Assim, “acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o elo perfeito”. O que nos une é o espaço vazio entre nós, o espaço do amor. As janelas permitem que o vento entre e areje nossa casa, mas são os muros e as paredes que canalizam e direcionam o vento. O Espírito sopra entre nós, o amor nasce quando se abre espaço, quando se esquece de dominar e há a entrega ao serviço.

Santidade e eleição: separados para o serviço ao Próximo, para o lava-pés, para se deixar de lado as distinções aparentes e priorizar a categoria transcendente de “Próximo”. Antes de tudo, numa origem inalcançável, somos Próximos e devemos nos fazer de Próximos, mantendo a separação, a diferença, o espaço relacional entre nós. O mistério e o paradoxo da separação que nos aproxima: me resigno a meu serviço, à minha entrega, afastando da tentativa de tornar o Próximo igual à mim e, assim, me fazendo de Próximo, o amo como a mim mesmo. Somos eleitos, separados, para amar.

Devo a leitura à filosofia de Emmanuel Lévinas

Bruno Reikdal Lima

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