Além do tempo

timeisgoneA produção teológica propriamente latino-americana, ou melhor, a estruturação e sistematização de uma expressão teológica com rosto latino, ascendeu e se fortaleceu no final da década de 60 e durante a década de 70

A característica especial da Teologia da Libertação é seu método: a adoção da filosofia marxista como ferramenta de análise-interpretação-pesquisa. O sofrimento de vítimas, a opressão, a desigualdade, o neocolonialismo, o rosto do Próximo requeria uma resposta diferente: uma luta contra as “potestades”, contra a maldade de um sistema político-econômico escravizante.

Foi essencialmente no terreno católico que a Teologia da Libertação criou raízes e cresceu. Porém, em especial, uma de suas sementes foi a tese Por uma teologia da libertação, de Rubem Alves, teólogo protestante. Mais tarde a obra foi rebatizada de Da esperança, pois, apesar do cunho político e o princípio reflexivo ser a diferença e a relação entre os povos ricos e a pobreza latino-americana, o que o autor desejava era animar a esperança: esperança por um futuro diferente, pela libertação do passado.

Assim, Rubem Alves trabalhou em sua tese a necessidade de se romper com o passado, negar as correntes da história, para a construção de um novo futuro, aberto, inconcluso. Para tal, lançou mão da relação homem-mundo na história: o homem é histórico, sujeito-histórico, e tem como vocação a liberdade, a criatividade de construir um futuro diferente, livre do passado. Um mundo melhor, um futuro aberto, é a esperança. No movimento, em movimento, o homem deve romper com o passado e trabalhar no presente para um futuro diferente.

E qual a novidade? Apesar de parecer simples, a questão é que afirmar um mundo histórico, aberto, liberto do passado, depende da problematização do dogma da onisciência e da predestinação: se o homem é um sujeito-histórico e o futuro está aberto, Deus não sabe o futuro e o homem não foi predestinado. Em um ambiente presbiteriano, predominantemente calvinista, essa afirmação é uma rachadura em um dos fundamentos teológicos protestantes. Afirmar a construção histórica da humanidade e a construção humana na história e descentralizar o discurso teológico: é colocar o homem em cena, como agente. Rubem Alves apelida seu discurso teológico de linguagem humanista. 

Desse entrave, por exemplo, uma série de questões a respeito do poder de Deus, da função da teologia, da validade do discurso teológico, da predestinação, do futuro e outros temas, entraram em voga. O volume morto veio à tona reabastecendo a represa dos debates teológicos. Rubem Alves não se aproximou da Teologia da Libertação e nem produziu uma escola teológica própria. Tornou-se inspiração e inspirador – assim como despertador – de outras teologias e revisões teológicas dentro da própria tradição calvinista e protestante.

A ideia desse texto não é promover o resgate histórico da TL, de Rubem Alves ou dos desdobramentos das discussões. Apresentar esse quadro é importante para vermos que o problema central não era só teológico, mas envolvia um método filosófico, um campo hermenêutico. O que acontece é que a introdução da relação homem-mundo dentro da história, ou melhor, a historicidade do mundo, o envolvimento do homem na e com a história, tinha como pano de fundo uma concepção de tempo, comum tanto a Rubem Alves quanto à teologia calvinista tradicional, que passou desapercebida. Em defesa dessa mesma concepção, ou a partir dela, a discussão ganhou proporções maiores e se estendeu para outros temas. Assim, vale tentarmos ressignificar o sentido de “tempo” e ver o que que dá, em relação às discussões de temas centrais à teologia tradicional.

Sou influenciado e me inspiro tanto em Rubem Alves quanto na Teologia da Libertação. A relação histórica do homem, de um sujeito-histórico com o mundo, é fundamental para minhas propostas. Mas não creio, sem um trabalho diferente, ser tão útil na expressão de experiências vivas de fé, concretas e cotidianas, de minha comunidade, em minhas relações. Creio que uma proposta relacional tem um envolvimento diferente: com uma experiência de tempo profunda e especial.

O que está presente em Rubem Alves e não é discutido – é ponto comum e passivo tanto a ele quanto à tradição calvinista – é a concepção de um tempo linear, passado-presente-futuro, encadeado e ordenado por causa e efeito. O passado desembocando em um presente que, determina em sua liberdade, as possibilidades de futuro. Mesmo que Rubem Alves não creia na determinação eterna, na predestinação, sobre o futuro, crê em uma determinação do hoje para o futuro: o que é feito resulta necessariamente em… É calculável, determinável. Devemos agir de determinada maneira para nos libertarmos e construirmos um futuro melhor – crendo que esse futuro é alcançável, realizável, e o poder para essa realização está nas mãos do sujeito-histórico. O futuro bom é causado e determinado pelo sujeito. O tempo, o futuro, é determinado: a diferença nas duas teologias é o “por quem”. Em uma, Deus determinou. Em outra, o homem está determinando…

E se ressignificássemos o tempo relacionalmente? O princípio de relacionalidade, ou melhor, o fundamento relacional é o “espaço relacional”: o vazio existente e necessário entre Eu e o Próximo (entre o Mesmo e Outrem, de Emmanuel Lévinas). Tempo, nesse espaço, não é uma relação objetiva, causal, mas uma relação verdadeira: entre sujeitos, entre o Eu e o Próximo. O tempo é a própria relação, a própria experiência de conviver e ser surpreendido pelo Próximo, por Outrem. A questão é que o tempo – e a história também – não é objeto nas mãos do homem; é a relação entre sujeitos: a relação sujeito-sujeito, e não sujeito-objeto. O Próximo com quem me relaciono, com quem vivo, por quem sou responsável, não é um objeto, é outro sujeito, também histórico! “Homem” não é uma categoria genérica, deve ser uma experiência diferente: percebida e vivida com Outrem.

O tempo não é linear, não é um objeto: é a própria relação entre Eu e o Próximo. Futuro, assim, não é determinado ou determinável, é verdadeiramente futuro: desconhecido. O futuro é o Próximo que vem à mim; sua vida que me surpreende, irrompe, surge sem ser minha, livre de mim e para além de mim. Eu vivo em meu tempo, e o Próximo vive em seu tempo. É tempo além de mim, além do meu próprio tempo. Além do tempo. Sua palavra vem de outro tempo que não é o meu. Nas palavras de Lévinas, o Próximo é futuro que vem a mim e não que vem de mim! Não tenho controle, muito menos domínio. Quem o determina? Ninguém! O tempo acontece. Só.

Um movimento extremamente libertador – talvez mais do que a própria libertação que Rubem Alves pretendia. A palavra do Próximo é profética: vem de outro tempo que não o meu. A relação entre Eu e o Próximo é profunda, imensurável. Apenas vivida. Nesse tempo, o que é determinado e determinável? Apenas Eu. O Próximo está além e para além. Há um vazio entre nós, o espaço relacional. O Próximo não é minha projeção, minha propriedade, meu objeto. Ele é sujeito que se relaciona com outro sujeito. Incontrolável. Ele surge, me bagunça, descentraliza com um além de mim mesmo e me questiona. Minha resposta é a responsabilidade que lhe devo: “eis-me aqui”, estou a seu serviço. Devo ao Próximo. Nos relacionamos e não devo dominá-lo, pois é para além de mim, mais do que Eu. Sou responsável, isso sim.

O que tenho de certeza? O presente de mim mesmo, meu tempo. Para além de mim, nada está determinado e nem deve ser. O Próximo está para além de causa e efeito, de meus cálculos. O futuro é mais do que aberto: é relacional, é profético. Isso implica não no enfraquecimento de Deus ou no empoderamento do homem, mas na relacionalidade entre sujeitos. Não é uma teologia do poder e nem da libertação; é teologia poderosamente libertadora enquanto relacional.

O problema do tempo, o significa deste termo, é anterior e fundamental. O trabalho em sua significação – assim como a significação de uma série de outras questões – evita respostas prontas, discussões superficiais e levianas. Devemos sempre nos obrigar a dar um passo de cada vez, um silêncio por vez. O trabalho filosófico de ressignificação de termos exige silêncio, estudo. Requer um tempo de experimentação: descobrirmos em nossas relações, aos poucos, sua função, seu serviço, em que medida é santo e agradável, em que medida é destrutivo.

O trabalho não é de oposição. Construirmos significado diferente para o tempo nos coloca em tensão, mas não em guerra. Não há ausência de conflitos, pois surgem uma série de possibilidades de interpretação para cada tema consequente. Mas há Paz, no sentido de que tensionamos as diferenças, não aceitando-as, mas ressignificando o próprio caminho, método, o próprio campo hermenêutico. Para além do tempo, para além das afirmações categóricas, existem relações – e elas são princípio vivo de uma proposta. Experiência de fé concreta e cotidiana. Relacional.

Bruno Reikdal Lima

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