O dom esquecido

 PAR309416Diz-se que um dos últimos pedidos de Dom Hélder Câmara foi: “não deixem morrer a profecia”. Uma das últimas obras de José Comblin se chama A profecia na Igreja. Nas cartas de Paulo sempre encontramos apelo ao cuidado com o dom da profecia. Mas onde ele está? Esquecida em algum lugar, se encontra a profecia…

Mesmo nos meios pentecostais, que realizaram um trabalho transformador ao resgatarem a importância dos dons e espalharem uma mensagem de empoderamento, independentemente da posição social ou escolaridade, a profecia foi esquecida. Os dons espirituais foram valorizados, mas o deslumbramento com as epifanias, experiências religiosas e místicas (principalmente quanto ao “falar em línguas), desviaram os olhos da igreja (e falo principalmente dos líderes institucionais) das advertências de Paulo:

“[…] busquem com dedicação os dons espirituais, principalmente o dom de profecia […] quem profetiza o faz para edificação, encorajamento e consolação dos homens. Quem fala em língua a si mesmo se edifica, mas quem profetiza edifica a igreja […] prefiro que profetizem […] Se não proferirem palavras compreensíveis com a língua, como alguém saberá o que está sendo dito? Vocês estarão simplesmente falando ao ar. Sem dúvida, há diversos idiomas no mundo; todavia, nenhum deles é sem sentido […] procurem crescer naqueles que trazem a edificação para a igreja.” [1 Coríntios 14: 1 – 12]

O dom de profecia deve ser buscado, tem prioridade. É desejável a voz profética. A igreja pentecostal foi profética em certa medida, em certo tempo: enquanto agia na contramão social, enquanto era revolucionária. Fosse negro, branco, de periferia, rico, homem, mulher, jovem, velho… Fosse quem fosse, na comunidade eram todos “irmãos e irmãs”. Muitas vezes, atores sociais rejeitados – que sofriam preconceito social – encontravam na igreja um dom e/ou um espaço na hierarquia da instituição. Eram reconhecidos, seu status de rejeição era combatido (mesmo que sem intenção clara). Havia, na prática, denúncia, crítica, palavra profética encarnada. Ensinava-se música, tinha alfabetização de adultos, compartilhamento de serviços, conhecimentos, experiências. As comunidades exerciam a profecia em silêncio.

O padre José Comblin escreveu que “profeta é a pessoa que se faz a voz dos que não têm voz”. A comunidade pentecostal foi profética enquanto voz dos excluídos. Hoje, porém, é voz de quem? E a pergunta não deve se dirigir apenas aos pentecostais, mas à religião cristã. A referência ao pentecostalismo acontece por ter sido, recentemente, a bandeira dos dons espirituais – dos quais a profecia deve ser o maior. Onde estão as vozes proféticas? Em que medida somos profetas? Qual a figura do profeta? Quem o é?

A profecia é tão esquecida que falamos do Jesus-Deus, Jesus Filho de Deus, Jesus-Amor, Jesus-Mestre, até Jesus-histórico… Mas Jesus-profeta? Nada se ouve. E não faltam nos evangelhos referências a Jesus como profeta! Seus discípulos, os seguidores, o povo, todos o comparavam a profetas. Encontravam nele a figura de Elias, Eliseu, João Batista. Ele mesmo resgatava os profetas constantemente. Alertou para a vinda de falsos profetas, criticou os fariseus por perseguirem profetas. Chega a soar estranha falar da profecia em Jesus, de Jesus como modelo de profeta para o cristianismo.

Qual a figura do profeta? Olhemos para o autor e consumador de nossa Fé! Em que os demais profetas se parecem com Ele? Aí, encontramos a raiz profética, a veia de profeta.

Jesus não era sacerdote, nem escriba e nem fariseu; Jesus era gente do povo, descentralizado do poder institucional. Os profetas do antigo testamento também o são: não vivem dos reis e nos reinos, mas são apartados do poder, denunciam ele. São aqueles que trazem notícias ruins para os governantes, para os poderosos. Criticam de fora do poder, mas de dentro da comunidade: a instituição, o sacerdócio, a Igreja, está errada na condução da Mensagem, na direção do povo. Profecia é uma denúncia política e um anúncio social: o poder destrói e o povo pode ter uma esperança de lugar-melhor. Esse era o anúncio de Jesus quanto ao Reino de Deus e a queda do Templo.

O dom de profecia é ingrato, é incômodo. Criticar a comunidade, denunciar a corrupção, imprudência, o poder. É trazer a notícia ruim, avisar dos males. É colocar, muitas vezes, o dedo na ferida ou levantar o tapete que escondia a sujeira. Talvez essa seja uma explicação do porquê o dom tem sido esquecido, deixado de lado: ninguém quer ser denunciado, a Igreja não quer ver suas mazelas, os poderosos não querem abrir mão do poder. Por isso o profeta é “rejeitado em sua própria casa”. É angustiado e sua vida será sempre angustiante. É o dom que ninguém quer…

Além disso, correndo o risco de ser extremamente duro e áspero, “a boca fala do que o coração está cheio” [Mateus 12, 34] – e se os corações são vazios, o que tem saído de nossas bocas? Corações cheios de alguma coisa falam alguma coisa. Mas nem cheios do ruim, nem cheios do bom, corações vazios vazam seu vazio pela boca. Informações e mais informações, frases e mais frases, músicas e mais músicas, vídeos e mais vídeos, textos e mais textos, pregações e mais pregações. Vazios. Nem vento produzem, pois se soprassem, ainda haveria possibilidade de espírito. Mas é vazio, oco, indiferente. Nada sopra, nada se move. Barulho vazio: “Vocês plantam, e colhem nada. Vocês comem, mas não se fartam. Bebem, mas não se satisfazem. Vestem-se, mas não se aquecem. Aquele que recebe salário é como se o colocasse num saco furado” [Ageu 1:6]. Vazios.

Somos um tempo de corações vazios.  Falamos muito, fazemos muito, mas cheios de vazio. As comunidades fazem alarde, barulho, tem poder, tem mídia, estão na política. Vazias. Talvez a voz profética esteja nesse espaço de denúncia: é tempo de se afastar! Largue o poder, volte-se para o povo! Pastores políticos, pastores midiáticos, músicos que lotam estádios… Chega! Voltem desse vazio! O povo sofre enquanto a instituição cresce. O povo sofre enquanto os olhos e bocas se voltam para os poderes, para os desejos de mais. Não é nos tornarmos intelectuais ou estúpidos, ricos ou pobres, calados ou falantes, mas enchermos nossos corações, abrirmos espaço para o Espírito.

A profecia está esquecida, a igreja perdida. Não há voz para os que não tem voz, não há voz que nos direcione. Raro encontrar no meio de tanto barulho.

Precisamos pensar, precisamos parar, precisamos nos esvaziar do vazio e nos encher do Espírito. José Comblin foi um profeta, e procurando manter a profecia viva, tentou direcionar os que desejam o dom com as seguintes questões:

“O cidadão se tornou consumidor e se dedica a consumir para que o sistema possa crescer cada vez mais […] O que significa o evangelho para consumidores? Ora, os primeiros consumidores são as crianças […] O clero e a instituição eclesiástica também são consumidores […] A pastoral precisa de muita tecnologia para atuar? Qual será a mensagem contida nesse consumo? A Igreja continuará sendo vista como rica? […] Quem pagará o consumo pastoral? […] Como o clero vai poder criticar a nova civilização tecnológica e rica nessa situação de dependência? Não vai se assimilar a essa classe? Não repetirá a situação da Igreja no passado colonial? Como evangelizar o povo dos excluídos a partir dessa condição social? […] Uma palavra dependente nunca será uma palavra profética.”

Na busca por conquistar o mundo, a Igreja foi conquistada por ele. Na briga, sempre vence o mais forte. E a igreja é e deve ser “fraca”, sem poder. Enquanto poderosa, a Igreja expulsará sempre seus profetas. Enquanto cheia de si, não terá espaço para o Espírito. O dom da profecia esta esquecido em algum canto, precisa ser reencontrado. Para que o Reino de Deus surja, o poder das instituições hipócritas, de soberanos, precisa ser denunciada – mesmo se dentro da Igreja! Aliás, Paulo adverte para que sejamos profetas, prioriza a denúncia do poder e o anúncio da Paz, para que a Igreja não se perca, para que os líderes religiosos não destruam o povo, para que não se assemelhem aos poderosos das estruturas e sistemas políticos doentios e corruptos. Assim também faziam os profetas do antigo testamento ao relembrar da aliança de Deus com o povo de Israel.

Angústia não é motivo de cansaço, incômodo não é sinal de fraqueza. É inspiração à profecia! Se também está incomodado, sejamos profetas! Busquemos juntos, em comunidade e comunhão, o dom da profecia. Como Slavoj Zizek escreveu: “Por essa razão, o cristianismo é a antissabedoria: a sabedoria nos diz que nosso esforço é em vão, que tudo termina em caos, enquanto o cristianismo insiste insanamente no impossível.”

Bruno Reikdal Lima

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