Comunidade Religiosa

1451429_511973532231746_980444450_nTemos dificuldade de lidar com sistemas complexos. Nossas escolas de pensamento produzem teorias baseadas em “causa e efeito” e “princípio de não-contradição”. Ou é isso ou é isso. Faça isso e dará isso. O resultado são teorias que funcionam como fórmulas a serem ou não aderidas. Assim as escolas se tornam rivais, discutem, um tentativa deve eliminar a outra e, no fim, problemas não resolvidos, dificuldades de se estruturar políticas, sistemas, crenças…

Na Igreja, então, mais complicado ainda. Reconhecida por seu hábito de ser conservadora e engessada, uma comunidade religiosa tem dificuldade de lidar com relações complexas, relações em expansão. Daí o motivo das infinitas conversas, palestras, encontros e essas coisas a respeito da “fé no século XXI”, a “o cristianismo hoje”,  o “futuro da igreja ou da religião” e tal. Daí a dificuldade de remontar a casa, rever as bases, reposicionar a função da Igreja e como deve ser organizada internamente. Daí (e este é o último “daí”) que José Comblin é um profeta: ele nos alertou para o fato de que não devemos tentar adaptar à Igreja, mas voltar às “origens”…

Não, isso não significa se esconder em si, nos próprios dogmas e retornar a velhas fórmulas. Se fomos impelidos a já pensar assim, é porque estamos acostumados com o “ou, ou”, com teorias e significados cristalizados. Retornar às origens, para o padre Zé, é mergulhar numa mensagem profunda: a pessoa de Jesus, os valores do Reino de Deus. Isso não implica em tentar imitar o que um dia foi feito, mas encontrar onde está a fonte eterna da mensagem de Cristo. Tentando fugir do exercício teológico, gostaria de propor com esse texto algumas questões da organização da instituição que são possibilidades para ressignificação da Igreja e de sua função. Talvez, inclusive, esse trabalho possa se estender para outras instituições e organismos da sociais.

A primeira reação quando tentam falar da Igreja e da necessidade de se repensar estruturas é a de criar um “espaço atrativo”. Como traremos fiéis? Wrong! Ideia errada. Deixando para falar daqui a pouquinho a respeito da inversão de valores cristãos e abuso religioso escondidos nessa postura, vejamos que o caminho de solução é baseado numa estrutura causal: “façamos x e, necessariamente, o resultado será a vinda de y pessoas”. Voltando, há uma maldade tremenda nessa solução: está escondida uma Igreja que vive para si mesma e tem a centralidade em seu culto, sua atividade, e não na Mensagem de Cristo. Retornar àquilo que é essencial à mensagem é tentar encarnar os valores do Reino: Ele não atrai pessoas, mas vai e se insere no “meio de nós”. Não é missão da Igreja ser atrativa, mas ser missionária: é comunidade cristã enquanto mergulha no cotidiano da gente, se coloco à serviço dos problemas das pessoas, dos excluídos. Faz como Cristo: vai ao mundo, não se distancia dele.

Publicidade não faz Igreja, faz negócio. Igreja faz missão – e sem alarde!

Outra solução para reorganizar a Igreja é a inserção de adereços ou alteração da liturgia. Não que não se deve propor novas liturgias. A questão é que mexer na ordem do culto ou naquilo que ele propõe não faz da Igreja uma Igreja renovada e para seu tempo. Liturgia é casca, superfície. Antes, deve ressignificar e trabalhar o “porque praticamos uma liturgia”. A Igreja vivendo para si mesma altera a liturgia para fazer um evento mais interessante ou mais bonito. Comunidade religiosa que vai para além de si independe da liturgia, pois a pratica de modo que esteja conectada aos problemas e ao dia-a-dia de pessoas. Promove a ceia não pelo culto, mas para incluir pessoas, trabalhar a fraternidade, ressignificar a importância dos laços pessoais. Canta não pelo êxtase ou pela performance agradável. Mesmo com um sonzinho bem tosco e péssimos músicos, canta como expressão de alegria  ou choro comunitário: corações conectados que se fortalecem num rito. Abre espaço de culto para que as pessoas se conheçam, se fortaleçam, compartilhem a fé, as crenças, as experiências. Abrem culto para que seja possível enfrentar durezas fora do lugar seguro que é a Igreja.

Uma coisa que não se discute é a organização política da Igreja: a função de pastores e autoridades. Quando se toca nesse assunto, a primeira contrapartida (antes mesmo de se propor alguma coisa) é: “e quem vai cuidar dos assuntos institucionais?”. Eu não prescindo do pastor e da função do pastor. Aliás, creio ser fundamental e necessária. Tanto como guia e mentor espiritual, quanto como administrador de questões administrativas e internas. Mas isso não garante que seu papel seja de poder, professor, mestre, absoluto. Tem autoridade reconhecida e instituída, mas a liderança é comunitária. Na mensagem cristã, muitos são os dons e as funções, mas todos são  irmãos e a base é dinâmica e fluida. Ter uma função não significa ter poder, ter autoridade instituída não significa liderança. No povo e na mensagem de Jesus o reconhecimento de autoridade e liderança é comunitário, Ora uns tomam a palavra, ora outros. Ora são mulheres que devem agir, ora homens, ora crianças. Mas a voz de Deus, o Espírito e as decisões não estão nas mãos sempre do mesmo. Até Jesus se coloca como aprendiz de uma mulher estrangeira que pede para que sua filha seja cuidada. Ela exorta Jesus.

A questão é que a autoridade dentro de um sistema político não devem ser garantia de palavra final. Numa comunidade cristã há liberdade e espaço para o Espírito. A liderança é espontânea: ora de uns, ora de outros. Mas, para tal, os ouvidos devem estar sempre abertos e os olhos atentos. O chamado e o convite para sempre vigiarmos tem função comunitária. Além disso, Paulo, por exemplo, diz que todos os dons são importantes mas um, especialmente, é fundamental e que todas as pessoas devem buscá-lo: o dom de profecia! O profeta é aquele que não é “autoridade instituída”, mas é voz e mensageiro de Deus. A comunidade deve ser comunidade de profetas. Deve-se abrir espaços e ouvidos. A Igreja deve ir além de si mesma, não viver para sua manutenção. A voz de profetas vem dos “de fora”, dos pequenos, daqueles que não tem autoridade instituída, mas liderança espontânea reconhecida. “A voz do povo é a voz de Deus”. Não significa que se abre mão dos líderes, mas sim que são espontâneos e estão para além das autoridades administrativas.

A casa precisa ser aberta para arejar. A comunidade só se renova se houver espaço para o vento soprar. Dentro de quatro paredes com pensamentos estratégicos não se renova uma instituição, uma organização, uma política. Estruturas são lentamente alteradas e gestadas em espaços abertos, espontâneas nas mãos de pessoas “x”, muitas vezes não planejados. O convite à fé é chamado para confiança de que nossas ações não resultam necessariamente no que esperamos e que, mesmo com boas intenções, elas podem produzir efeitos não-intencionais ruins. Sistemas complexos, é o mundo em que vivemos. Não temos controle e não sabemos onde darão nossos passos. Os efeitos e ações são imprevisíveis, por isso deve-se sempre comunitariamente colocar-se à serviço da vida do povo, das gentes, da sociedade. Para reparar e cuidar dos excluídos, dos que sofrem, dos problemas que se aparecem sem “motivo aparente” e muitas vezes “sem solução”, que a Igreja deve cumprir sua missão.

Missionária, litúrgica, fraterna e baseada na liderança espontânea. São caminhos que podemos percorrer, possibilidades de se encarnar à Mensagem…

Bruno Reikdal Lima

Do método Pragmático à proposta Relacional


IMG00061A ideia desse texto é compartilhar o caminho que tomo para fazer análises e propor sistemas. Espero que seja útil para quem se interessar. Tive a sorte de conhecer gente muito boa e ter acesso a produções teóricas um tanto diferentes, pouco trabalhadas.

Envolvido desde pequeno num ambiente religioso de engajamento social, preocupação com educação e, mais tarde, de produção de teologia, me formei enfim em filosofia. Minha casa, meus pais, me deram a oportunidade de ter tempo e segurança para firmar e tornar consistentes estudos e uma pequena produção teórica própria. Assim, gostaria de dividir, com esse texto, o método de trabalho:

Na graduação em filosofia, tendo como parceiros Pedro Conceição e Jarino Junio, que me ensinaram muito e apresentaram a mundo novos (como estudos incomuns sobre filosofia da linguagem, música e filosofia da educação), tive contato com a Filosofia da Libertação de Enrique Dussel e com a produção teórica de Emmanuel Lévinas. Porém, minha pesquisa foi em Pragmatismo, especificamente o estadunidense e, especialmente, o de John Dewey. A ideia era apresentar o método que ele propunha para os estudos em filosofia. Ele se tornou o primeiro passo, uma pedra fundamental, para o trabalho sistemático…

A proposta é difícil de ser trabalhada, porém, simples. De maneira (bem) resumida, Dewey percebeu que havia uma distância muito grande entre aquilo que se era proposto por discursos filosóficos e as experiências comuns, cotidianas, ordinárias. A filosofia, assim, se tornava inútil. Dizer que ela não deve ter função é muito mais cômodo – e muito mais indiferente também. Quer dizer, somente para quem pode ter o luxo da inutilidade a filosofia “presta”. Para quem precisa resolver problemas, viver a vida cotidiana e intensamente, a filosofia não “serve”. Não! Algo está errado. Então, Dewey propõe um método que retome a função da filosofia, que conecte-a novamente à vida comum, à vida de todos.

Para isso, era preciso unir “experiência e natureza”: nossas ações são contínuas, não há diferença entre pensar alguma coisa ou estender a roupa no varal. As duas vivências são exercícios musculares, vivos, de sujeitos humanos resolvendo problemas. Não há o mundo “racional-intelectual” especial de homens e o “resto da natureza”: estamos em continuidade, vivendo. Para um momento romântico uma poesia é encantadora, mas para dor-de-barriga, é melhor tomar um remédio. Na frente de uma onça você pode ser um gênio, mas se não tiver perna pra correr… Tchau! Basicamente é aprender a valorizar todas as experiências em cada situação. Porque normalmente temos o hábito de valorizar muito um livro e pouco o “pregador-de-roupa”, sendo que para estender no varal, o segundo é bem melhor.

Além disso, o pensar só é despertado porque antes tivemos alguma situação indeterminada: um problema a ser resolvido. Tivemos, à princípio, uma relação com cheiros, gostos, dureza, consistência, medo, ansiedade… Depois, através de experiências, produzimos significados, termos, expressões, pensamentos.  O método pragmático consistiria, em outro momento, à retomada da experiência ordinária: não perder de vista de qual situação indeterminada, à partir de qual problema, produzimos determinado pensamento. Não vem “do nada” ou do mundo especial dos homens, mas dos problemas cotidianos, das experiências ordinárias em continuidade.

O método pragmático, assim, se tornou um referencial para minhas produções: não se pode esquecer da experiência ordinária, comum, origem de qualquer proposta. Além disso, estamos em continuidade, em diversas situações. Na leitura de Rorty, James e outros, cheguei a beirar o relativismo: não existem fundamentos, mas situações x e ponto. Beirei, mas fui impedido por experiências ordinárias. O próprio método me impediu de abrir mão de um valor fundamental: o Próximo. Continuar lendo

Política é o Circo

109_em_comicio_a_favor_do_voto_direto_na_epoca_da_democracia_corinthianaAntes política do “pão e circo” era um jeito de usar das necessidades do povo contra ele mesmo. Antes, porque hoje, ao que parece, transcendemos a tática e arquitetamos a própria política nesses padrões: é ela mesma nosso pão, é ela mesma o próprio circo

Somos torcedores de um time de guerreiros, gladiadores ou salvadores. Que vença o melhor (e que este seja nosso!). O desejo pela morte do adversário é o sentimento teológico de sacrifício: a morte desses impuros será nossa remissão, a solução de nossos problemas, o caminho para alcançar perdão e bênçãos. E ainda ficamos impressionados como é possível a religiosidade em uma época tão “tecnológica”…

De nada adianta se colocar fora das quatro paredes de um santuário se nossa relação com o mundo ainda é messiânica, sacrificial, fundamentalista. Nosso partido é o salvador, a morte do adversário é o sacrifício puro que alterará o rumo das forças do mundo e nossa cartilha política a melhor, a perfeita, a solução. Emmanuel Lévinas disse que política é o meio de prever e vencer todas as guerras. E para salvar a política, qual nossa solução? Mais política! Genial… Dá para entender, nesse quadro, a defesa estadunidense da “guerra pela paz”: para acabar com a guerra, mais guerra. Não! Alguma coisinha está errada. Talvez o fato de que a guerra tem sido nosso divertimento e a garantia de nosso pão.

Política, guerra: nossa religião. Nosso espaço sacrificial, nosso lugar de fuga. Temos respostas simples, cartilhas repetidas, ódio ao diferente. Fundamentalistas laicos. Cremos ser nosso time, nossa torcida, o messias que veio salvar o mundo. Cremos em fórmulas mágicas, rituais escritos por alguém há mais de 100 anos que garantem vida plena e boa. Cremos em promessas de salvação imediata. Defendemos com unhas e dentes nossos líderes. Iludidos com nosso próprio poder, fazemos de nossas posturas políticas nossa fé, de nosso sistema um deus, do sistema oposto o diabo, de nossos correligionários irmãos, de outros, inimigos impuros a serem combatidos e sacrificados. Na Modernidade a religião precisava ser “esclarecida”, hoje, o esclarecimento se tornou religioso. E não é mais política que salvará a política. Continuar lendo

Casa dos excluídos

Ruin'Art-757Era uma casa muito engraçada: ela tinha de tudo, não faltava nada. Comida, água, teto, mobília, quartos, banheiros, salas, cozinhas, corredores, carros, redes, eletrônicos e espaços vagos para todas as novidades que surgissem. Tinha todas as coisas. Só ficava de fora aquilo que não era coisa: gente

Carlinhos Queiroz disse que a convocação de Jesus e a vocação do discípulo é “ser gente”. Convocados a sermos gente, não coisas. Nas teorias sociais seria a crítica marxista à transformação do trabalhador em objeto: nas mãos do “patrão” ele é parte de um sistema produtivo, mais uma peça, mais alguma coisa. Resgatar a humanidade, o sujeito. Seriam tentativas das filosofias humanistas, das produções europeias do pós-guerra, da relacionalidade entre Eu e Outrem de Emmanuel Lévinas, da filosofia da libertação de Enrique Dussel. Cada um a sua maneira percebe: precisamos ser gente, esse é nosso chamado.

Ser gente é complicado porque “gente não entra na casa”. A tradução comum de economia é “leis da casa” ou “organização da casa”. Parece que “é proibido ser gente” é uma das normas do código legal econômico. Na casa só entram coisas, não gentes. Pessoas são excluídas. É a insanidade de ver sistemas criados por homens excluindo os próprios homens.

A Teologia da Libertação tinha como bandeira a defesa das vítimas, dos oprimidos, dos excluídos. A princípio, excluídos eram fáceis de serem percebidos: os pobres latino-americanos que não conseguem entrar no sistema, que são oprimidos e desqualificados simplesmente por não terem e nem serem coisas. Depois os problemas de identificação se agravaram: os ricos com doenças terminais também não seriam, em certo sentido, excluídos? Quem seriam os sujeitos-históricos excluídos? Ao que parece, o problema pode ser resolvido de maneira simples: o “sujeito” é o excluído. Sendo pessoa, ou melhor, se você for uma pessoa, está automaticamente excluído. Continuar lendo

Ilusão do poder: política fora do alcance

Yes We Can“Você pode”: não dá para ler ou ouvir isso como se fosse uma abertura, uma possibilidade. Se fosse assim,  propagandas não utilizariam tanto o verbo poder. Nos acostumamos a entender o “você pode” como “você tem poder”. Aliás, você tem o Poder. Poder de mudar, poder de fazer, poder de acontecer. Fizemos da possibilidade uma certeza, da abertura uma conquista, do verbo um substantivo…

O poder verbo transformado em substantivo encanta, ilude. Não significa que seja uma mentira! Significa que alguma coisa está acontecendo, mas é muito difícil perceber o que. Tem uma citação de Dewey que eu utilizo muito: “ilusões são ilusões, mas o ocorrência de uma ilusão, não é ilusão”. A ilusão do poder é uma ilusão – e isso  não quer dizer que seja uma mentira, uma enganação. Indica que alguma coisa está acontecendo…

Acontece que nossa cabeça descolou do chão. “A cabeça pensa onde o pé está”, mas se ele se fincou nas nuvens, a queda é garantida e perderemos a própria cabeça. Outra citação que gosto muito é de Chesterton, quando diz que o sensato quer elevar a cabeça aos céus, e o louco que colocar os céus dentro de sua cabeça. O resultado é que a cabeça, no segundo caso, acaba se estilhaçando. Com os pés no chão, podemos elevar nossos olhos e erguer a cabeça; com os pés acima das nuvens, cremos ter dominado os céus. Na verdade, é a cabeça que vai se esborrachar. Tudo bem, cremos que podemos: não como uma possibilidade, mas como uma certeza – você pode!

Nasci em 1989, sou considerado por cientistas e psicólogos gringos como pertencente à geração Y: um grupo de pessoas que nasce num mundo que se crê liberto da história, sem crises, rumo ao Paraíso Terrestre nos anos 2000. No clima dessa “paz eterna” logo ali, certeza que a venda de uma democracia representativa (como a nossa) foi em cima dessa ilusão de perfeição e fim de problemas: votando em uma ou outra pessoa, “você pode”. Aliás, a escolha pelo voto “direto” é o sinal perfeito da liberdade. Caracterizada pelo quê? Por uma possibilidade? Não. Caracterizada pela certeza: certeza de que posso, de que tenho poder. Continuar lendo

Hermenêutica da responsabilidade

10253832_692325454137802_718422940620503694_nDizer-Explicar-Traduzir: são três definições que Richard Palmer dá para Hermenêutica. O problema da hermenêutica seria a “interpretação”, mas em uma função e um campo específicos: a compreensão. Falar, interpretar, é falar de alguma coisa: compreendê-la ou tentar compreendê-la. Em outras palavras: dominá-la, conquistá-la. Tornar alguma coisa minha prisioneira, sob meu controle. Falamos das coisas, damos nomes às coisas, para compreendê-las. Pelo menos é assim que normalmente é trabalhada a hermenêutica

A ideia desse texto é abrirmos outra possibilidade: para além de uma hermenêutica da compreensão, uma hermenêutica da responsabilidade. A diferença não é a função da hermenêutica, mas seu sentido. A questão que colocaremos não é sobre o melhor modo de se interpretar, mas antes – e bem antes disso -, a pergunta é pragmática: para quê interpretamos? Para quê hermenêutica? Qual seu sentido, para além de sua função?

A chamada Nova Hermenêutica começou predominantemente teológica, com o exercício de interpretação dos textos bíblicos. A ideia era tornar o processo de leitura e interpretação mais humanístico, histórico, voltado à construção do texto e a busca pelo sentido histórico proposto nele. Mas ela atravessou a parede religiosa e mergulho na filosofia. Martin Heidegger – provavelmente o filósofo mais influente do século XX – chega a propor que a filosofia é (ou pelo menos deveria ser) hermenêutica. Como? No exercício ativo de falar do ser, falar de algo, dizer-explicar-interpretar o ser-no-mundo enquanto ser-no-mundo. É uma filosofia complexa e profunda, mas que essencialmente deseja “compreender” o ser.

Tentando se afastar de uma filosofia (e também de uma teologia) hermenêutica que “compreende”, conquista enquanto fala das coisas, outras correntes postularam a impossibilidade de se falar “do ser”, tentando resgatar uma certa interpretação metafísica antiga. “A linguagem não daria conta de todas as coisas”, essas correntes tentavam sustentar. Mas, numa proposta e reação extremamente coerentes, a hermenêutica humanista, de compreensão do mundo, afirmou: “tudo é linguagem. Se compreendemos algo, falamos dele, só o fazemos por causa da linguagem”. Não haveriam fatos que escapassem à linguagem – nos termos de Nietzsche, “apenas interpretações”.

Tudo seria uma interpretação, tudo uma compreensão, tudo no campo hermenêutico. Uma hermenêutica de conquista que a tudo compreende, a tudo conquista. Nada lhe escapa. Nem Eu, nem Você, nem o Outro, nem Nós…

Num vocabulário próprio, apelido esse exercício hermenêutico de produção de “sistemas significativos de justificação”: é o trabalho de construção de dizeres, interpretações e explicações que respeitam determinado campo que tem por finalidade compreender tudo. Uma interpretação se torna justificável dentro de um sistema. Não podemos afirmar qualquer coisa, se pretendemos dizer-interpretar-explicar. Precisamos de certa “lógica”, ou organização de significado, para ser comunicado e comunicável. Dentro de um sistema significativo de justificação tudo é compreendido, tudo é justificado.

O problema é: se é um exercício criativo, tudo é linguagem, é possível se produzir trocentos sistemas significativos de justificação, porque não podemos falar “qualquer coisa”? Porque antes de se produzir uma afirmação, é-nos exigido certo rigor, ou certo acordo com um sistema significativo de justificação? Não poderíamos criar um que a tudo abarque, compreenda? Porque então um “limite”? A resposta que proponho é: o sentido anterior da hermenêutica – não seu campo, suas funções, áreas, etc -, que foi esquecido. Continuar lendo