Hermenêutica da responsabilidade

10253832_692325454137802_718422940620503694_nDizer-Explicar-Traduzir: são três definições que Richard Palmer dá para Hermenêutica. O problema da hermenêutica seria a “interpretação”, mas em uma função e um campo específicos: a compreensão. Falar, interpretar, é falar de alguma coisa: compreendê-la ou tentar compreendê-la. Em outras palavras: dominá-la, conquistá-la. Tornar alguma coisa minha prisioneira, sob meu controle. Falamos das coisas, damos nomes às coisas, para compreendê-las. Pelo menos é assim que normalmente é trabalhada a hermenêutica

A ideia desse texto é abrirmos outra possibilidade: para além de uma hermenêutica da compreensão, uma hermenêutica da responsabilidade. A diferença não é a função da hermenêutica, mas seu sentido. A questão que colocaremos não é sobre o melhor modo de se interpretar, mas antes – e bem antes disso -, a pergunta é pragmática: para quê interpretamos? Para quê hermenêutica? Qual seu sentido, para além de sua função?

A chamada Nova Hermenêutica começou predominantemente teológica, com o exercício de interpretação dos textos bíblicos. A ideia era tornar o processo de leitura e interpretação mais humanístico, histórico, voltado à construção do texto e a busca pelo sentido histórico proposto nele. Mas ela atravessou a parede religiosa e mergulho na filosofia. Martin Heidegger – provavelmente o filósofo mais influente do século XX – chega a propor que a filosofia é (ou pelo menos deveria ser) hermenêutica. Como? No exercício ativo de falar do ser, falar de algo, dizer-explicar-interpretar o ser-no-mundo enquanto ser-no-mundo. É uma filosofia complexa e profunda, mas que essencialmente deseja “compreender” o ser.

Tentando se afastar de uma filosofia (e também de uma teologia) hermenêutica que “compreende”, conquista enquanto fala das coisas, outras correntes postularam a impossibilidade de se falar “do ser”, tentando resgatar uma certa interpretação metafísica antiga. “A linguagem não daria conta de todas as coisas”, essas correntes tentavam sustentar. Mas, numa proposta e reação extremamente coerentes, a hermenêutica humanista, de compreensão do mundo, afirmou: “tudo é linguagem. Se compreendemos algo, falamos dele, só o fazemos por causa da linguagem”. Não haveriam fatos que escapassem à linguagem – nos termos de Nietzsche, “apenas interpretações”.

Tudo seria uma interpretação, tudo uma compreensão, tudo no campo hermenêutico. Uma hermenêutica de conquista que a tudo compreende, a tudo conquista. Nada lhe escapa. Nem Eu, nem Você, nem o Outro, nem Nós…

Num vocabulário próprio, apelido esse exercício hermenêutico de produção de “sistemas significativos de justificação”: é o trabalho de construção de dizeres, interpretações e explicações que respeitam determinado campo que tem por finalidade compreender tudo. Uma interpretação se torna justificável dentro de um sistema. Não podemos afirmar qualquer coisa, se pretendemos dizer-interpretar-explicar. Precisamos de certa “lógica”, ou organização de significado, para ser comunicado e comunicável. Dentro de um sistema significativo de justificação tudo é compreendido, tudo é justificado.

O problema é: se é um exercício criativo, tudo é linguagem, é possível se produzir trocentos sistemas significativos de justificação, porque não podemos falar “qualquer coisa”? Porque antes de se produzir uma afirmação, é-nos exigido certo rigor, ou certo acordo com um sistema significativo de justificação? Não poderíamos criar um que a tudo abarque, compreenda? Porque então um “limite”? A resposta que proponho é: o sentido anterior da hermenêutica – não seu campo, suas funções, áreas, etc -, que foi esquecido.

Para quê procuramos ser comunicativos? Ou melhor, para quem? É aqui o âmbito de uma hermenêutica da responsabilidade: só tem sentido dizer-interpretar-explicar se for numa relação com alguém – ou nos termos de Emmanuel Lévinas, com Outrem. O sentido não se encontra em um indivíduo que procura compreender o mundo, mas no Eu que deseja falar para o Próximo. A princípio, não se fala do ser, mas para alguém. O sentido só é sentido enquanto direcionado, não enquanto compreendido. Compreender é trazer à mim, tomar o que está à mão. Mas direcionar, encontrar sentido, é colocar para Outro.

O exercício de hermenêutica do ser interpreta por interesse de um intérprete. O exercício fundamental de uma hermenêutica da responsabilidade fala para e por Outrem. Não se fala por interesse, somente, mas por destinação na relação com o Outro. O sentido é destinado para alguém está em relação, numa proposta profunda de responsabilidade: a resposta, a voz, a minha palavra devo a Outrem – e não à mim, por princípio. A finalidade não é a palavra sobre ou do ser, mas para e por/pelo Próximo!

É hermenêutica da responsabilidade porque a interpretação não é devida à verdade (busca pela verdade) ou ao ser (domínio do ou sobre o ser), mas devida a Outro, serviço ao Próximo. Apesar do significado parecer exagerado e extremamente religioso, é mais profundo e anterior à própria hermenêutica-teológica contemporânea: o exercício não é de entender originalmente um texto sagrado, mas de servir independentemente do tempo ao Outro, a alguém, a Outrem.

Dizer, por exemplo, que “a história é contada pelos vencedores” é atestar o exercício de conquista, domínio e controle de uma hermenêutica do ser: sua função é dizer-explicar-traduzir o que é, justificando todo acidente e acontecimento de acordo com quem vence, quem conquista. O ser é determinado pela voz mais forte. Diferentemente de um trabalho de hermenêutica responsável: o dito, a explicação e a tradução tem sentido o Outro, o Próximo, independente de quem seja. O sentido é relacional, em relação, com relação a Outrem. A interpretação é resposta responsável: resposta à questão que a relação com alguém, o sentido primeiro, põe.

Por fim, uma hermenêutica da responsabilidade não pode e não deve compreender tudo: não se compreende o Outro. A voz, a fala, o dizer-explicar-traduzir que não são “meus”, não estão sob meu domínio, mas vem do “além-de-mim”, a voz do Outro, do Próximo, está para ser ouvida, não compreendida. Ela rompe com o silêncio, ela surge, ela se lhe revela. A relação entre Eu-Próximo é relação sujeito-sujeito, não sujeito-objeto.

A relação sujeito-sujeito não pode entrar numa categoria de compreensão, de conquista, mas numa proposição relacional: o sentido é de um-para-o-outro. Diferentemente da relação objetiva, na qual as coisas são utilizadas, usufruídas, compreendidas, dominadas. Mas, aí, não é uma hermenêutica e uma relação com sentido, pois não é direcionada de um-para-outro, mas plenamente uma relação “sem-sentido”: de um-com-ele-mesmo. Usufrui-se para si e consigo. Conquista-se algo para si e consigo. Mas entre Eu e o Próximo, não se usufrui, não se conquista. Se relaciona, é-se responsável.

A proposição de uma hermenêutica da responsabilidade é fundamental para a reorientação, o sentido da filosofia (e até da teologia!). Uma hermenêutica de compreensão, do ser, conquista e justifica a conquista. Mantém-se em um sistema significativo de justificação sempre justificando e rejustificando. Silenciar um pouco o exercício de compreensão resgatando o sentido primeiro – o para quê (para quem) da hermenêutica – rompe com a compreensão e abre possibilidade para a relação: proposição de significados, para além de justificação. Responsabilidade anterior e profunda, em relação. Afirmar, assim, como Heidegger, que a filosofia é (ou deveria ser) hermenêutica seria afirmar que ela deve ser responsável. Deve primar e se ver como resposta, como responsável, a alguém, a Outrem, ao Próximo além de si mesma.

Bruno Reikdal Lima

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