Ilusão do poder: política fora do alcance

Yes We Can“Você pode”: não dá para ler ou ouvir isso como se fosse uma abertura, uma possibilidade. Se fosse assim,  propagandas não utilizariam tanto o verbo poder. Nos acostumamos a entender o “você pode” como “você tem poder”. Aliás, você tem o Poder. Poder de mudar, poder de fazer, poder de acontecer. Fizemos da possibilidade uma certeza, da abertura uma conquista, do verbo um substantivo…

O poder verbo transformado em substantivo encanta, ilude. Não significa que seja uma mentira! Significa que alguma coisa está acontecendo, mas é muito difícil perceber o que. Tem uma citação de Dewey que eu utilizo muito: “ilusões são ilusões, mas o ocorrência de uma ilusão, não é ilusão”. A ilusão do poder é uma ilusão – e isso  não quer dizer que seja uma mentira, uma enganação. Indica que alguma coisa está acontecendo…

Acontece que nossa cabeça descolou do chão. “A cabeça pensa onde o pé está”, mas se ele se fincou nas nuvens, a queda é garantida e perderemos a própria cabeça. Outra citação que gosto muito é de Chesterton, quando diz que o sensato quer elevar a cabeça aos céus, e o louco que colocar os céus dentro de sua cabeça. O resultado é que a cabeça, no segundo caso, acaba se estilhaçando. Com os pés no chão, podemos elevar nossos olhos e erguer a cabeça; com os pés acima das nuvens, cremos ter dominado os céus. Na verdade, é a cabeça que vai se esborrachar. Tudo bem, cremos que podemos: não como uma possibilidade, mas como uma certeza – você pode!

Nasci em 1989, sou considerado por cientistas e psicólogos gringos como pertencente à geração Y: um grupo de pessoas que nasce num mundo que se crê liberto da história, sem crises, rumo ao Paraíso Terrestre nos anos 2000. No clima dessa “paz eterna” logo ali, certeza que a venda de uma democracia representativa (como a nossa) foi em cima dessa ilusão de perfeição e fim de problemas: votando em uma ou outra pessoa, “você pode”. Aliás, a escolha pelo voto “direto” é o sinal perfeito da liberdade. Caracterizada pelo quê? Por uma possibilidade? Não. Caracterizada pela certeza: certeza de que posso, de que tenho poder.

É a exaltação do poder, não da possibilidade. Do poder enquanto substantivo, não como verbo. Liberdade, nesse quadro, não é a mudança e a transformação, mas a força de conquista, o meu poder de limitar o mundo de acordo com minhas vontades. Ilusão do poder coçando nosso ego.

Minha geração nasceu no mundo Disney dos sonhos realizados, da vida tranquila e perfeita, da paz eterna garantida, do fim de guerras, do se queremos, podemos. Minha geração nasceu no mundo em que as histórias são contadas através do “poder”: eles tinham vontade, então puderam mudar tudo. A luta contra a ditadura, por exemplo,  não é contada como uma série de acontecimentos desconexos, acidentes, relações inalcançáveis, negociações poderosas, intervenções, acertos e erros políticos. É uma luta sofrida de um grupo organizado que “queria a mesma coisa”, e “pôde fazer a mesma coisa”. Tinham o poder de mudar “em suas mãos”. Poder, poder, poder… Sai ditadura em que um podia, entra democracia em que um pode: eu posso!

Transferimos o poder de um para um: de um ditador para um eleitor (consumidor). Mantivemos o “um”, mantivemos o poder. Ilusão de poder! Ilusão tão  doentia que faz crer que um indivíduo muda o mundo por seu desejo, que suas conquistas dependem somente dele e mais nada, nenhum acidente, relação, imprevisto. É poder! É o “você pode”. Poder que isola qualquer relação e nos cega para nossos limites: cremos que podemos tudo, que atingimos tudo e agimos em tudo. Tudo é nosso e tudo depende de nós.

Esse “poder” todo faz achar que podemos mudar o país e os rumos da política. Que “eu” posso fazer isso. Pelo amor… Como, mesmo??? Impeachment?! Isso! Um papel que assinamos, um botão que apertamos e pronto. Quisemos, pudemos, podemos. Temos o poder de resolver e decidir tudo agora? Ilusão, doce ilusão de poder. Então não vamos “fazer nada”? Claro, vamos encher a timeline do facebook e os blogs com textos que ninguém vai ler (como esse) sobre política e nossa opinião, sobre a necessidade de fazermos algo porque “podemos”.

O que você acha sobre… Eu? Dependendo do que estamos falando, “nada”, pois está fora de meu alcance. É triste, mas necessário assumir: está fora do nosso alcance. Existem coisas que não podemos, sobre as quais não temos poder. Existem coisas que não podemos, com as quais não há possibilidades. Falar, opinar, escolher não é poder e nem liberdade. Liberdade é defender o “descontrole”: não é sobre tudo que temos poder, o destino não está definido ou traçado por nossas ações.

Não falar, não dizer, não opinar, não poder… nada disso significa “não fazer alguma coisa”. Silêncio é o exercício de colocar os pés no chão. Onde estou? Qual meu alcance? Quem depende de mim? Em quais relações estou envolvido? Quais as necessidades destes que me rodeiam? Silêncio. Nem tudo posso. Pelo menos não em mim mesmo.

No meio em que estamos, nas relações que nos envolvem, nos próximos que nos rodeiam, podemos. No chão que nos fortalece, podemos, há possibilidades. Falar de Brasília, do manancial, da dor lá longe, é fácil. Trabalhar em casa, na rua, na comunidade, muito difícil. Difícil porque trabalhar dá trabalho. Falar, não. Falador, no máximo, passa mal. Ilusão do poder, do “você pode”. Existem possibilidade do outro lado da rua, mas não tenho o poder sobre o governo central e a política de um país.

Por fim, existe política fora de nosso alcance. Democracia, eleição, reclamação não são políticas alcançáveis, são formalidades institucionais de uma máquina gigante, de um sistema historicamente construído complexo e que sabe Deus onde vai parar e o que vai acontecer. Tudo dentro de uma sociedade “global”, sistema financeiro sem pé nem cabeça, comunicações, transações, interferências em proporções inimagináveis. É fora do alcance, é sem possibilidade imediata (sem mediação).

Existe política alcançável, mais profunda do que formalizações e burocracias. Existe uma organização de cidade, um cuidado do comum, que é possível sempre: você pode, sempre, cuidar das relações próximas, exercitar o olhar para aquilo que é alcançável. Nós podemos, sim, comunitariamente, trabalhar em diversas frentes, promover mudanças. Mas sem a ilusão de poder! São possibilidades, não conquistas. Nada é garantido.  São exercícios cotidianos. Nem tudo está nas nossas mãos. Não, a ditadura não caiu porque “pudemos” derrubar e nossa vontade foi realizada. Uma série de relações e situações se envolveram no processo. Não, impeachment não vai resolver os problemas do país e não, não é poder em nossas mãos. Não, não, não não. São relações mediadas, complexas, bem fora do alcance. Diferente do trabalho comum, comunitário, do cuidado com os arredores. Politização não é publicar um texto (como este) sobre política ou compartilhar uma denúncia. É mergulhar nos problemas, é vivê-los, defender as relações próximas, entrar em combates possíveis. Não porque podemos, mas porque é possível…

Bruno Reikdal Lima

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