Casa dos excluídos

Ruin'Art-757Era uma casa muito engraçada: ela tinha de tudo, não faltava nada. Comida, água, teto, mobília, quartos, banheiros, salas, cozinhas, corredores, carros, redes, eletrônicos e espaços vagos para todas as novidades que surgissem. Tinha todas as coisas. Só ficava de fora aquilo que não era coisa: gente

Carlinhos Queiroz disse que a convocação de Jesus e a vocação do discípulo é “ser gente”. Convocados a sermos gente, não coisas. Nas teorias sociais seria a crítica marxista à transformação do trabalhador em objeto: nas mãos do “patrão” ele é parte de um sistema produtivo, mais uma peça, mais alguma coisa. Resgatar a humanidade, o sujeito. Seriam tentativas das filosofias humanistas, das produções europeias do pós-guerra, da relacionalidade entre Eu e Outrem de Emmanuel Lévinas, da filosofia da libertação de Enrique Dussel. Cada um a sua maneira percebe: precisamos ser gente, esse é nosso chamado.

Ser gente é complicado porque “gente não entra na casa”. A tradução comum de economia é “leis da casa” ou “organização da casa”. Parece que “é proibido ser gente” é uma das normas do código legal econômico. Na casa só entram coisas, não gentes. Pessoas são excluídas. É a insanidade de ver sistemas criados por homens excluindo os próprios homens.

A Teologia da Libertação tinha como bandeira a defesa das vítimas, dos oprimidos, dos excluídos. A princípio, excluídos eram fáceis de serem percebidos: os pobres latino-americanos que não conseguem entrar no sistema, que são oprimidos e desqualificados simplesmente por não terem e nem serem coisas. Depois os problemas de identificação se agravaram: os ricos com doenças terminais também não seriam, em certo sentido, excluídos? Quem seriam os sujeitos-históricos excluídos? Ao que parece, o problema pode ser resolvido de maneira simples: o “sujeito” é o excluído. Sendo pessoa, ou melhor, se você for uma pessoa, está automaticamente excluído.

A casa  não aceita gente, é casa de excluídos. Inclui digitalmente desde que a relação seja entre coisas: não nos relacionamos com pessoas na digitalidade da casa, mas com ícones, fotos e links. Se não me agrada uma das “coisas” que aparecem em minha rede social, a excluo. Descartar objetos, rejeitar relações. Casa de excluídos. Não se pode ser gente, tem que ser coisa! Nem as comunidades religiosas escapam: mesmo sendo o convocação e a vocação de Jesus, nas igrejas não se pode ser gente.

Valorizam-se teorias, pensamentos, músicas, riquezas ou práticas litúrgicas, mas não pessoas. O sábado não está mais em função do homem, mas o homem em função do sábado. Seja sábado, não seja você! Não se pode nas Igrejas “dizer qualquer coisa”, tem-se que seguir uma cartilha: seja da ortodoxia, seja da filosofia, seja do fundamentalismo, seja do liberalismo. Não se pode abrir o coração. Não se pode dizer o que sente. Igreja que era para ser comunidade, casa de misericórdia, casa de inclusão, casa acessível, casa social, se torna casa exclusiva: só para as coisas que podem.

Faça-se de si mesmo uma coisa. Torne suas relações coisas. Outros são coisas. É tanta coisa que não tem espaço para mais ninguém. Paulo Freire conta que em uma escola no Chile, nas experiências pedagógicas, um camponês-educando disse: “agora percebo que se não houvesse gente, não haveria mundo”. O educador intrigado, então, inquiriu: “mas, imaginemos que não houvesse gente, mas houvesse todo o resto; aves, árvores, rios, pássaros, etc, ainda assim, não haveria mundo?”. O camponês respondeu: “não haveria quem dissesse ‘isto é mundo'”.

Ser humano é ser excluído. Agir como humano, como sujeito, imperfeito, com dores, fraquezas, imbecilidades, imaturidade, beleza, singeleza, cuidado, amor, misericórdia, riso, piada boba, divertimento qualquer, é se excluir, ser expulso, posto para fora da casa. Passamos a morar em lugar nenhum, como peregrinos, que em todo canto é estrangeiro e andarilho. Andarilho tem uma casa: a casa dos excluídos. Ela não tem teto, não tem nada. Não é engraçada, é bem angustiante. Mas é casa, é humana, é de gente. Hermann Hesse escreveu que gente como nós, andarilhos, são “os guias do futuro”. Nosso futuro está nas pessoas, é gente. Nosso futuro é uma pessoa.

A pergunta de Pedro para Jesus, “para quem iremos?”, é o clamor da gente. Futuro é uma pessoa, é pessoa, é relação entre um e outro, de um-para-o-outro. É a relação de quem vive na casa dos excluídos. A Igreja deveria ser a casa dos excluídos, mas enquanto não é, procuremos entre nós este lar. A sensação de pertencer a lugar nenhum é a busca por essa casa. O sentimento de estar fora de todo lugar é a procura dessa casa. A paz só é encontrada quando nos achamos ao lado de outros perdidos, outros excluídos, que saem das sombras e se mostram. Paz que não é segurança, mas a tranquilidade de saber que não se está só: somos excluídos juntos.

Meu desejo é que nos mostremos, saiamos das sombras, apresentemos nossos corações excluídos. Meu desejo é que sejamos gente! Meu sonho é saber que estamos em paz descobrindo que somos de lugar nenhum, que nossa casa não está nesse mundo, mas entre nós. Que nosso lar não é um sistema cheio de coisas, mas casa de excluídos: casa de gente como a gente.

Bruno Reikdal Lima

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