Política é o Circo

109_em_comicio_a_favor_do_voto_direto_na_epoca_da_democracia_corinthianaAntes política do “pão e circo” era um jeito de usar das necessidades do povo contra ele mesmo. Antes, porque hoje, ao que parece, transcendemos a tática e arquitetamos a própria política nesses padrões: é ela mesma nosso pão, é ela mesma o próprio circo

Somos torcedores de um time de guerreiros, gladiadores ou salvadores. Que vença o melhor (e que este seja nosso!). O desejo pela morte do adversário é o sentimento teológico de sacrifício: a morte desses impuros será nossa remissão, a solução de nossos problemas, o caminho para alcançar perdão e bênçãos. E ainda ficamos impressionados como é possível a religiosidade em uma época tão “tecnológica”…

De nada adianta se colocar fora das quatro paredes de um santuário se nossa relação com o mundo ainda é messiânica, sacrificial, fundamentalista. Nosso partido é o salvador, a morte do adversário é o sacrifício puro que alterará o rumo das forças do mundo e nossa cartilha política a melhor, a perfeita, a solução. Emmanuel Lévinas disse que política é o meio de prever e vencer todas as guerras. E para salvar a política, qual nossa solução? Mais política! Genial… Dá para entender, nesse quadro, a defesa estadunidense da “guerra pela paz”: para acabar com a guerra, mais guerra. Não! Alguma coisinha está errada. Talvez o fato de que a guerra tem sido nosso divertimento e a garantia de nosso pão.

Política, guerra: nossa religião. Nosso espaço sacrificial, nosso lugar de fuga. Temos respostas simples, cartilhas repetidas, ódio ao diferente. Fundamentalistas laicos. Cremos ser nosso time, nossa torcida, o messias que veio salvar o mundo. Cremos em fórmulas mágicas, rituais escritos por alguém há mais de 100 anos que garantem vida plena e boa. Cremos em promessas de salvação imediata. Defendemos com unhas e dentes nossos líderes. Iludidos com nosso próprio poder, fazemos de nossas posturas políticas nossa fé, de nosso sistema um deus, do sistema oposto o diabo, de nossos correligionários irmãos, de outros, inimigos impuros a serem combatidos e sacrificados. Na Modernidade a religião precisava ser “esclarecida”, hoje, o esclarecimento se tornou religioso. E não é mais política que salvará a política.

Levantar-se pelos próprios cabelos não dá certo. A bagunça vem (e tem que vir) de fora. O Outro é interlocutor, não inimigo. Política já não é meio e nem ambiente para se travar o diálogo. Política é o circo, política se finge de pão. Adoecida, necessita de cura. Cura. Não sacrifício. Engajamento é mais profundo do que torcida…

Em sistemas complexos, não é a defesa de fórmulas que resolvem problemas. Em relações, com trabalhos incontroláveis, nos quais as interferências e ações de agentes produzem efeitos intencionais e não-intencionais, princípios norteadores não cabem numa estrutura legal e muito menos na determinação de projetos fechados. Pensar globalmente não é pensar totalmente, ou melhor, dentro de um sistema total (se não, totalitário). Princípios norteadores se dão em relação: nas relações complexas e incontroláveis. Assumir limitações, incompetência, necessidade de um projeto largo, capaz de ser fechado e reaberto em outro sentido, é um primeiro passo de rompimento com a guerra – de abandono do circo e do pão políticos.

A complexidade e a impossibilidade não deveriam nos empurrar, com isso, de volta para a disputa imatura por fundamentalismos laicos. Deveriam nos obrigar a silenciar um pouco, a amadurecer: assumir limitações, abandonar sistemas fechados de organização e trabalho político. A impossibilidade, a fraqueza, a complexidade, o tamanho “real” do mundo deveria nos esclarecer. Nada é tão simples assim. Não temos tanto poder, não somos messias. Não são os sacrifícios dos Outros que garantem salvação e uma “melhor colheita”. Nossas cartilhas são pequenas e insuficientes.

Enquanto não, fazemos da guerra nosso esporte: torcedores fanáticos a um passo de quebrar tudo e todos. O mundo não é dividido entre azuis e vermelhos. Antes eu era contra partidos políticos, até que um amigo, Talles Lima, disse que o sonho dele era ver um povo junto com várias bandeiras, cada uma com sua cor e crença. Sonho, impossibilidade. Realmente é. Então, melhor voltar à guerra pequena pela minha bandeira e continuar a relação de merda que vivemos, né?! O sonho de um mundo diferente é convite ao trabalho. Lutar pelo que vale a pena, viver pelo que realmente é difícil. Assim tenho em mim a frase platônica “aquilo que é belo/bom é difícil/árduo”. Boa luta, bom combate. Luta não contra carne ou sangue, contra os outros, mas contra aquilo que não tem rosto: o vazio de nossas crenças assassinas.

Em Miquéias, há uma profecia: “No futuro, acontecerá que o monte do templo do Senhor será estabelecido como o principal lugar no mundo e se elevará acima das colinas. E os povos correrão para lá […] Ele fará justiça entre muitos povos e resolverá disputas entre nações poderosas e distantes. Transformarão suas espadas em arados, e suas lanças em foices. Nenhuma nação erguerá a espada contra outra, e não aprenderão mais a guerra. Todo homem poderá sentar-se debaixo de uma árvore, e ninguém o incomodará, pois assim falou o Senhor dos Exércitos”. Profecia não é determinação, é desejo: que o mundo no futuro seja assim.

A história é aberta e somos construtores. Isso significa que existe a possibilidade de um mundo diferente. Não é garantia de um mundo melhor e nem de que nossos esforços nos conduzirão par ao êxito (não somos messias!). É convite ao trabalho, convocação à responsabilidade. Ética para além da Política. Religiosidade, se assim podemos dizer, antes da Política, não junto a ela. Sentido há: o Outro, o futuro. Para quem já me conhece, aqui e assim entendo que “o futuro é uma pessoa”.

Bruno Reikdal Lima

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