Do método Pragmático à proposta Relacional


IMG00061A ideia desse texto é compartilhar o caminho que tomo para fazer análises e propor sistemas. Espero que seja útil para quem se interessar. Tive a sorte de conhecer gente muito boa e ter acesso a produções teóricas um tanto diferentes, pouco trabalhadas.

Envolvido desde pequeno num ambiente religioso de engajamento social, preocupação com educação e, mais tarde, de produção de teologia, me formei enfim em filosofia. Minha casa, meus pais, me deram a oportunidade de ter tempo e segurança para firmar e tornar consistentes estudos e uma pequena produção teórica própria. Assim, gostaria de dividir, com esse texto, o método de trabalho:

Na graduação em filosofia, tendo como parceiros Pedro Conceição e Jarino Junio, que me ensinaram muito e apresentaram a mundo novos (como estudos incomuns sobre filosofia da linguagem, música e filosofia da educação), tive contato com a Filosofia da Libertação de Enrique Dussel e com a produção teórica de Emmanuel Lévinas. Porém, minha pesquisa foi em Pragmatismo, especificamente o estadunidense e, especialmente, o de John Dewey. A ideia era apresentar o método que ele propunha para os estudos em filosofia. Ele se tornou o primeiro passo, uma pedra fundamental, para o trabalho sistemático…

A proposta é difícil de ser trabalhada, porém, simples. De maneira (bem) resumida, Dewey percebeu que havia uma distância muito grande entre aquilo que se era proposto por discursos filosóficos e as experiências comuns, cotidianas, ordinárias. A filosofia, assim, se tornava inútil. Dizer que ela não deve ter função é muito mais cômodo – e muito mais indiferente também. Quer dizer, somente para quem pode ter o luxo da inutilidade a filosofia “presta”. Para quem precisa resolver problemas, viver a vida cotidiana e intensamente, a filosofia não “serve”. Não! Algo está errado. Então, Dewey propõe um método que retome a função da filosofia, que conecte-a novamente à vida comum, à vida de todos.

Para isso, era preciso unir “experiência e natureza”: nossas ações são contínuas, não há diferença entre pensar alguma coisa ou estender a roupa no varal. As duas vivências são exercícios musculares, vivos, de sujeitos humanos resolvendo problemas. Não há o mundo “racional-intelectual” especial de homens e o “resto da natureza”: estamos em continuidade, vivendo. Para um momento romântico uma poesia é encantadora, mas para dor-de-barriga, é melhor tomar um remédio. Na frente de uma onça você pode ser um gênio, mas se não tiver perna pra correr… Tchau! Basicamente é aprender a valorizar todas as experiências em cada situação. Porque normalmente temos o hábito de valorizar muito um livro e pouco o “pregador-de-roupa”, sendo que para estender no varal, o segundo é bem melhor.

Além disso, o pensar só é despertado porque antes tivemos alguma situação indeterminada: um problema a ser resolvido. Tivemos, à princípio, uma relação com cheiros, gostos, dureza, consistência, medo, ansiedade… Depois, através de experiências, produzimos significados, termos, expressões, pensamentos.  O método pragmático consistiria, em outro momento, à retomada da experiência ordinária: não perder de vista de qual situação indeterminada, à partir de qual problema, produzimos determinado pensamento. Não vem “do nada” ou do mundo especial dos homens, mas dos problemas cotidianos, das experiências ordinárias em continuidade.

O método pragmático, assim, se tornou um referencial para minhas produções: não se pode esquecer da experiência ordinária, comum, origem de qualquer proposta. Além disso, estamos em continuidade, em diversas situações. Na leitura de Rorty, James e outros, cheguei a beirar o relativismo: não existem fundamentos, mas situações x e ponto. Beirei, mas fui impedido por experiências ordinárias. O próprio método me impediu de abrir mão de um valor fundamental: o Próximo.

No pragmatismo por ele mesmo, tudo são coisas a sere utilizadas – inclusive outra pessoa, outro sujeito. Porque, à princípio, pensa-se na ausência de outro sujeito além de mim mesmo. Mesmo não  sendo declarado, esse pressuposto está-aí. Mas na relação comunitária, pessoal face-a-face, com as dores e os problemas da vida de tanta gente diferente que amo e por quem sou amado, não é possível aceitar que o sujeito “sou-eu” em  minhas experiências em certas situações e ponto. Há vida além de mim e além da minha.

Emmanuel Lévinas, a Filosofia e a Teologia da Libertação se tornaram voz para essa experiência relacional. Há vida transcendental, além da continuidade: o Outro, o Próximo, o Diferente. A relação entre sujeitos não é coisificável. Os significados não são produzidos por mim, simplesmente, mas também vem à mim de Outro. Isso não faz do método pragmático falho e errado/ruim, mas insuficiente em si mesmo. Em nossas relações, há espaço para além do que há, do que está-aí já pré-programado e preconcebido.

No pragmatismo havia método de trabalho. Mas foi em Lévinas e na Libertação que encontrei voz às experiências cotidianas que transcendem a mim mesmo, que dão sentido àquilo que faço e devo fazer. A proposta relacional é a proposição ética tendo como centralidade o “entre nós”, a relação com um interlocutor, com um sujeito além de mim, além do Mesmo.

Com filosofia, encontro assim a produção de sistemas significativos de justificação: a organização de significados em sistemas que justificam aquilo que fazemos e o modo como vivemos ou desejamos viver. É a justificação em campo comum de diálogo: procura por legitimidade em comunidade para nossos anseios. É o trabalho e o exercício de criar totalidades que a tudo explicam. Kant tem o seu, Platão o seu, Kierkegaard o seu, Dewey o seu. Sistemas significativos de justificação. Mas, para além da totalidade, as arestas vazias que servem, inclusive, para críticas ou para aprofundamento em novo sentido, há o exercício teológico de produção de sistemas propositivos de significação.

Em que estão estruturados os significados de nossas experiências? Em nada além da situação determinada para qual e pela qual foram despertadas. Em relação a elas e em relação ao Próximo, temos espaço, então, para propor atitudes sem fundamento: atos fiéis. São propostas éticas, religiosas, políticas: muitas vezes as propostas utópicas de um mundo melhor. São nossos sistemas propositivos de significação. Propomos significados que nos lançam para “nada”, apenas como confiança e serviço ao Próximo. Aliás, creio que o sentido para o trabalho teórico, qualquer que seja, só tem sentido se for à serviço do Outro, se houver relação com o Outro. Baseado em quê? Em nada além de uma proposta significativa.

Esse já é um desenvolvimento Relacional. A proposta relacional vaga, assim, no “espaço relacional”: o vazio que existe e deve ser mantido entre o Eu e o Próximo, entre nós. E o sentido para qualquer exercício é de um-para-o-Outro. É o serviço obrigatório e eterno que o Eu deve ter para com o Próximo. Lévinas ensina que o Outro é responsabilidade ilimitada do Eu. Assim, há o vazio entre nós, a diferença entre o Eu e o Próximo, que deve ser mantido e que tem como sentido o Próximo, o Outro. O Próximo é minha responsabilidade, a ele devo resposta. Dele recebo o inesperado: ele é interlocutor, sobre ele não tenho e não devo ter poder. Ele é Outro.

O trabalho garantido que tenho é de sujeito-histórico: minha liberdade de construir história e participar do mundo. Eu sou o sujeito-histórico. Porém, para além de mim, há o Outro, o Próximo, o sujeito-relacional: aquele para quem devo, com quem me relaciono, sentido de meu trabalho e serviço. A relacionalidade, assim, é o trabalho no vazio de um-para-outro, na responsabilidade constante, em cada e determinada situação. É trabalho concreto, vivo, em relação próxima. A experiência primeira, da qual partimos para a solução de problemas, é a relação com o Próximo. É o para quem deve-se trabalhar, produzir. Experiência original e originária. Em certo sentido transcendental, mas, aqui, no termo “relacional”.

O método pragmático foi o start. O trabalho com Lévinas e com a Libertação voz do sentido. Mas as experiências cotidianas, concretas, em casa, em família, em comunidade, que originaram e entregam consistência para o sistema significativo de justificação e, também, para o sistema propositivo de significação de uma Filosofia e de uma Teologia Relacional. Espero que alguns desses insights sejam úteis para nossos pensamentos, nossos problemas, nossas experiências comuns e ordinárias.

Um abraço. Fica em paz…

Bruno Reikdal Lima

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