Filosofia, Diferença e Paz

tn_620_600_protesto_africa_do_sul_massacre_minaPalestrando sobre o tema “Que é filosofia?”, Martin Heidegger utiliza seu pensamento revolucionário e marcante do século XX para fazer um resgate da História da Filosofia. Sua leitura começa na Grécia Antiga, que de acordo com ele era o único lugar do mundo capaz de fazer a verdadeira pergunta filosófica, e culmina na “nossa história europeia”. Heidegger diz literalmente que a história da filosofia é a história da Europa. E a prova disso é que a Europa era bélica e tecnologicamente poderosa. Descobrimos com isso que, para ele, o fruto de uma verdadeira filosofia é o poder, a conquista

Além disso, descobrimos também que, para ele, só há filosofia com o pensamento europeu. Para se tornar parte dessa civilização poderosa, inteligente e conquistadora, é preciso se tornar “europeu”. Para ser desse mundo, é preciso entrar para a Civilização – nos termos comuns, é preciso se “globalizar”. Nada de novo até agora nesse bendito texto. Quais são as características dessa civilização maravilhosa da qual precisamos fazer parte caso queiramos fazer filosofia? Além de poderosa e conquistadora, ela também é conhecedora, sabida do que “realmente as cosias são” (ou pelo menos tem o melhor método para descobrir isso) e, além disso, ela não é supersticiosa e mística: tem valores universais, intrínsecos a todos os humanos e tenta derrubar as “fronteiras”. Uma civilização sem diferenças…

Quer dizer, desde que você aceite entrar para ela. A pergunta que deveríamos é: “se os valores são universais e intrínsecos à humanidade, porque é que eu tenho que entrar para a civilização para ser reconhecido como pensante?”. A resposta é: ou não sou humano, ou só é considerado humano por essa filosofia quem entra nela e abandona o que tinha antes. Quem se converte para uma religião que não gosta de crenças, superstições e mística. A religião europeia, ou a filosofia europeia, ou ainda a “globalização”, está acima das diferenças: pois seu desejo é derrubá-las. Como? Utilizando daquilo que a legitima como verdadeira filosofia, verdadeira civilização: poder e conquista.

Os pressupostos para conviver na Terra, para a Paz entre homens,  estão calcados na crença de que dominando e conquistando, todos aceitando o poder dessa filosofia, dessa civilização, tudo ficará bem. Destruir com a diferença (com o diferente) não é guerra ou maldade, é purificação. É o jeito de organizar o Estado, a Política, a Ordem. É o jeito de superar fronteiras. Superar não para que tudo seja de todos, mas para que tudo seja da Civilização.

Não dá para conversar: pois o objetivo da conversa não é convidar alguém para entrar em casa, mas conquistar a casa do outro, torná-la minha ou como a minha. Continuar lendo

5 desafios para refazer a Igreja

 casa na rua dos bobosInstituições estão em descrédito. Seja política, jurídica, religiosa, esportiva, midiática… A confiança depositada é vazia. Sei que eu não confio mais em instituições – pelo menos não de modo ingênuo. Não sei bem a causa, mas o que sinto é que não dá para nos relacionarmos com elas à partir das definições que elas mesmas se impõe. Uma coisa é “o que é essa instituição”, outra é “para quê que ela serve?”

O descrédito e a canseira nos empurram para o lugar fácil de “então joga essa joça fora!”. Chega de instituições é uma resposta fácil e prática. Também um tanto preguiçosa. “Aquilo que é belo e bom é difícil, árduo”, diz Platão na República. Abandonar é até mais cômodo, mas não necessariamente bom. Não é nem justo jogar fora porque não é bom para mim. Assim, a ideia desse texto é trabalhar a instituição, especificamente religiosa, a Igreja, olhando para os desafios a serem vividos à partir do “para quê que ela serve”, e não à partir do “o que ela é”. Pode parecer uma diferença retórica e boba, mas não, é fundamental. A definição que uma instituição se coloca é passível de dúvida; aliás, é descrendo de que ela seja capaz de “ser sempre assim” que faz com que nos cansemos dela. Agora, entender sua função abre horizontes concretos: como trabalharemos com aquilo que temos e para suprir as necessidades do mundo, resolver seus problemas.

Igreja não é Reino de Deus, Igreja não é Jesus. Igreja é uma instituição religiosa que se põe como espaço para fiéis à Jesus e ao Reino de Deus se encontrarem, partilharem da vida, exercer sua religiosidade. Nela existem ritos religiosos que representam a missão, o trabalho e a vida espiritual dos fiéis. Que são significativos para a religiosidade e espiritualidade daqueles que nela se encontram. Os fiéis propõe o Reino de Deus e o vivem, a Igreja é espaço de compartilhamento dessas vidas, de ceia, de fortalecer uns aos outros e auxiliar na missão. Ela serve como encontro dos fiéis. Instituição necessária para este encontro, necessária para a prática religiosa que, querendo ou não, faz eco à espiritualidade e à relação com Deus. Sabendo disso, bora propor alguns desafios para que as instituições, que a Igreja, cumpra seu papel e não caia no vazio:

1. Reconhecer que a riqueza são as pessoas

A instituição não é gente, mas só pulsa e existe por causa de gente. Isso não só Igreja, mas em qualquer instituição. Mesmo que chamemos o Governo de “máquina pública”, são pessoas que tomam decisões. A riqueza de uma instituição é gente. Na Igreja, especificamente, não apenas as decisões são tomadas por pessoas, mas sua função é de espaço de encontro e mediação entre pessoas. Igreja existe em função e à serviço de gente, dos fiéis. São eles que a constroem e trazem vida. Paredes não pulsam nem respiram, não são sinal do Reino nem Corpo de Cristo. É gente e vida entre gente que apresenta o Reino, que constitui o Corpo. Isso não significa que a Igreja seja refém dos desejos de fiéis, mas que a vida da Igreja é a vida da comunidade toda – e isso nos leva ao próximo ponto.

2. Entender que as funções são diferentes, mas a vida comunitária é Dele

A Igreja tem o desafio de tirar o povo do vale e os reis dos tronos. A Igreja, como local de encontro entre fiéis, como vida de gente com a gente, deve superar a distância entre os líderes institucionalizados e os liderados institucionalizados. O problema não são cargos, diferentes funções ou trabalhos, mas as relações humanas que podem e devem ressignificar a operacionalidade da instituição. A administração eclesiástica, o direcionamento pastoral, a liderança, é necessária para o funcionamento da instituição, para o zelo pelo espaço de encontro e mediação entre os fiéis. Para assistência dos necessitados, é necessário que haja quem esteja a eles disponível. Nesse sentido, prestar serviço  uns aos outros, a instituição sempre em função dos fiéis. Não atendendo seus desejos e fantasias, mas suas necessidades e auxiliando na solução de problemas. Para tal é preciso trabalhar os pastores e líderes para que sejam gente como a gente, e suscitar em todos a missão pastoral, executar verdadeiramente o “sacerdócio universal de todos os santos”. Cumprir com a religiosidade, pregar e viver valores de Cristo, servir e amar ao Próximo como a si mesmo é a vida de todo cristão, deve ser o coração de todo fiel.

A questão institucional é divisão de trabalhos e operações dentro da comunidade. Os pastores precisam descer as escadas e os fiéis subirem, para se encontrarem no mesmo plano, apenas com funções e serviços diferentes. Cumprir o conselho de Paulo, em que todos os dos e serviços são importantes e fundamentais para a comunidade. Em que não faz diferença quem você é ou faz,  pois todos somos o mesmo corpo. O mesmo Espírito há em todos, mas os trabalhos são e devem ser diferentes para a manutenção da instituição, para a existência do espaço de encontro entre muitos.

3. Trabalhar pela diversidade

A Mensagem se espalha, as comunidades se alargam, a instituição se fortalece e maquiniza. Isso acontece. As vozes se multiplicam, os interesses também. Há variações de discursos, de condição social, jeitos, crenças, religiosidade. Classicamente, crê-se que o certo é, então, criar réguas que eliminem as diferenças e unifiquem a comunidade. Institucionalização. A Igreja para de ser local de encontro para se tornar escola montadora de pessoas e que atende a determinados grupos, desejos e interesses. Não tem o traquejo da diversidade, não  mantém a missão de lugar de encontro para se compartilhar a vida. Nesse campo que dogmatismos se instalam.

Não adianta crer que a solução é manter a comunidade pequena. Mensagem verdadeira se multiplica e não se contenta com a sala de casa. Aliás, esse processo já é uma institucionalização. E a manutenção de pequenos grupos se dá numa relação aristocrática: os mesmos, que falam a mesma coisa, que gostam das mesmas coisas, que frequentam os mesmos lugares, se reúnem no mesmo canto “separados do resto”. Não é lugar de encontro, é lugar-comum. A maravilhosa missão de ser encontro entre os diferentes, os diversos, é possibilitada por uma instituição larga, grande. O aumento do número de participantes é uma dificuldade e a manutenção da diversidade um desafio. Diferentes idades, diferentes histórias, diferentes culturas, condições sociais, línguas, casas, famílias… E todas deve se encontrar para compartilhar a vida e enriquecer a própria comunidade.

Sendo a função da instituição um serviço ao encontro e compartilhamento de vida entre fiéis, esse é um desafio interno fundamental! Mas não só internamente, externamente também: Continuar lendo

Sodoma e Gomorra

6672_10201234781421707_111400940_nEste texto é fruto de conversas em um encontro de estudo bíblico. Uma das participantes compartilhou com a gente que tinha ficado incomodada ao ler Gênesis 19: a famosa história de Sodoma e Gomorra. Em nossas trocas de ideia, ficou de “lição de casa” lermos e trabalharmos o texto durante a semana e, no encontro seguinte, compartilharmos nossas percepções

Diferente de novela, não é lendo um capítulo que se entende a trama toda do texto bíblico. Tem que ver o enredo, ficar atento às falas, às cenas, aos “easter-eggs” que os autores deixam para o leitor. Se tem uma coisa que aprendi no seminário de teologia e na faculdade de filosofia é que as palavras nos textos importantes são muito bem colocadas. Não é à toa. Tem propósito. E a gente tem liberdade de imaginar porquês…

Assim sendo, não vamos ver um episódio só, mas caminhemos junto com a história, caçando os fragmentos e enigmas, desvendando propósitos:

Em Gênesis 18, aparece uma conversa de Deus consigo mesmo: pensante, Deus comenta consigo que precisa contar à Abraão o que fará com Sodoma e Gomorra, pois o escolheu para obedecer seus ensinamentos e façam o que é justo. Em seguida, fala abertamente com Abraão que as cidades serão destruídas por causa das muitas acusações que precisam ser analisadas. Daí surgem duas dúvidas na cabeça de quem lê: “quem fez as acusações?” e “como é que eles estão pecando/desobedecendo ensinamentos se ainda não foram escritas as Leis de Moisés e nem o povo de Deus está formado?”. Isso faz com que voltemos ao enredo para caçar respostas ou direções.

A primeira vez que a palavra “pecado” aparece na Bíblia é na história de Caim (por incrível que pareça, não é na situação do Paraíso e da saída de Adão e Eva). O primeiro ato que é chamado de pecado é o assassinato do Outro, do irmão. Caim matou Abel. A segunda vez que aparece é na história de Noé, para designar a violência que havia por toda parte. O que o contexto nos indica é que pecado tem uma determinação clara: a violência.

Abraão é a personagem principal da história, e sua vida a referência de sentido. Há, na preparação para seu nascimento, uma série de referências a situações e genealogias (Gênesis 10 e 11). A genealogia dos três filhos de Noé termina com uma expressão muito interessante: “Esses foram seus descendentes; cada povo e cada família na sua própria terra, com a sua própria língua”.

Em seguida se abre um vácuo: a história da Torre de Babel! E qual a trama? Um povo que se reúne todo numa mesma terra sob uma mesma língua. Deus não se agrada disso e bagunça as línguas, fazendo com que cada um vá para um lugar e tenha sua própria cultura. Nesse contexto, vem a história de Abraão! Continuar lendo

Chega de solo!

CAR37020W00002-/ICP001“Num mundo sem problemas, não haveria pensamento”. Li isso enquanto escrevia meu trabalho de pesquisa em filosofia. Produzimos experiências para superar crises, dificuldades, situações indeterminadas que constituem nosso dia-a-dia. Sempre crises: por vezes mais intensas, por vezes mais brandas. No fim, temos de tomar decisões e resolver alguma coisa. Nesse percurso, podemos jogar o pó para debaixo do tapete ou limpar decentemente a sala de casa

Sem pessimismo, o mais fácil e normalmente mais feito é jogar a poeira pra debaixo do tapete. “Aquilo que é belo/bom é árduo/difícil” – está na República de Platão. Em momentos de crise intensa como o que vivemos – questões políticas, econômicas e religiosas interferindo e intensificando nossos problemas diários -, procuramos por escolher alguém que solucione o que precisa ser feito. Um ícone! Quem será o salvador? A figura única e específica que, sozinha, é capaz de transformar tudo?

Seja tirar o presidente de seu cargo e colocar outro, alterar o líder comunitário, convocar uma nova eleição para o representante de classe, debate entre dois ou três figuras que tem proposta mágicas para resolver problemas, caçamos um ícone que nos salve. Um certo messianismo. Algum solitário “x” que tem o dom e o botão mágico. Assim enxergamos nossos ídolos do esporte, de filmes, Tv, intelectuais, gênios, etc. Sozinhos, isolados, foram capazes de superar todos os seus problemas. Logo, são capazes de solucionar qualquer problema. São os ícones especiais indicados.

Educamos crianças e preparamos pessoas para ou ser esse ícone ou não ser nada. Como se o próprio sujeito que é considerado especial não tivesse dependido de muita sorte, uma série de relações, situações imprevistas, traumas, crises, surpresas, coisas que não fez, não pediu, não causou, mas que aconteceram e propiciaram determinado momento ou habilidade específica para lidar bem com uma série de questões. Não sabemos pensar comunitariamente, só entendemos o mundo em carreiras solo.

Chega de solo! Chega de ir pelo caminho mais fácil e jogar poeira pra debaixo do tapete. Vamos admitir que soluções não são fáceis, que nossos problemas não estão nas mãos de um ícone, mas de uma comunidade. Vamos assumir que para que determinada pessoa produza uma música, um dom, um pensamento, ideias, teve contribuições de onde não esperava, relações acidentais, experiências surpreendentes e depende que uma série de outras pessoas solucionem outros problemas para que ele, naquele momento, consiga resolver uma crise “x”. Não trabalhamos solo! É sempre vida comunitária, relações complexas, ações com efeitos determinados e indeterminados. Vivemos para além do ícone, para além da simples causalidade. É mais profundo. Continuar lendo

O Povo e o Público

BAM1973007W00990/02ACEventualmente. Assim se dá nossa relação política. Assim se dá nossa relação religiosa. Em um determinado dia, vez por outra, há um evento: dia de eleição ou dia de culto. Propaganda, benefícios, justificativas. Eventualmente o público aparece, no dia-a-dia, o Povo vive

Junção de pessoas não é povo. Uma multidão reunida, mesmo que gritando a mesma coisa, mesmo que cantando os mesmos hinos, mesmo que andando na mesma direção, não é povo – é público. Povo trabalha no silêncio, não se faz na repetição de um discurso. Povo não se junta por ter os mesmos gostos e as mesmas crenças. Povo vive sempre e se reconhece como povo por causa do direcionamento da vida, não na marcha de um dia, em um evento. Povo se constitui sempre. Público se reúne uma vez ou outra.

Voz do povo não é o grito das ruas, é o silêncio do trabalho por mudanças. Claro que muitas vezes o povo se mistura no público, estão juntos. Mas suas características são diferentes: uns vivem aqui, outros estão lá. Não fazer uma boa separação de público e de povo vira malandragem política e deturpação religiosa. O fruto produzido a partir dessa diferenciação não aparece em resultados ou em uma formulação teórica. O fruto é um convite a retornarmos à árvore da qual veio. A árvore que produz povo não faz alarde, não é oportunista e vê eventos como um acidente – completamente secundários.

A motivação de quem se relaciona com um público está na obtenção de algum recurso: seja humano, financeiro, capitalista, material ou de poder. Números são importantes, atividades chamativas e bons registros são fundamentais. Quem serão os alvos, não importa tanto, desde que venham, curtam, ouçam, gritem, voltem e deixem com “o lado de cá” a responsabilidade de mover o mundo. Completamente diferente da relação entre o “eu” e o Povo. Quem se relaciona com o Povo se vê como parte, como à parte do Povo enquanto dentro dele. Quem se relaciona com Povo não cresce em cima de sua voz, mas ouve atentamente o que o Povo fala, trabalha junto, sabe o que acontece. A motivação é a própria relação: que se mantenha! Povo não é objetivo, Povo é interlocutor, sujeito com o qual esse “eu” se relaciona. O alvo não é o Povo. O alvo é a transformação do mundo no qual o Povo e o “eu” estão. Quem se relaciona com o Povo vive sua vida, sofre junto seu silêncio, busca a paz.

Tanto a política quanto a Igreja se perdem na instabilidade de saber com quem se relacionam: com Povo ou com público? Políticos se aproveitam do ajuntamento de gente, de multidões, para alegar que o povo encontra eu sua boa sua voz. Gritar junto, falar “a mesma coisa” não faz Povo, faz público – chamado também de rebanho. Religiosos se aproveitam das multidões e de eventos para juntar gente. Fingem ser a voz de Deus para a gente e fingem ser a voz da gente para falar com Deus. No fim, uma multidão se junta, mas nenhum Povo se forma. O Povo está lá, calado, se reconhecendo, mas trabalhando e vivendo o dia-a-dia, não apenas em um dia. Continuar lendo