O Povo e o Público

BAM1973007W00990/02ACEventualmente. Assim se dá nossa relação política. Assim se dá nossa relação religiosa. Em um determinado dia, vez por outra, há um evento: dia de eleição ou dia de culto. Propaganda, benefícios, justificativas. Eventualmente o público aparece, no dia-a-dia, o Povo vive

Junção de pessoas não é povo. Uma multidão reunida, mesmo que gritando a mesma coisa, mesmo que cantando os mesmos hinos, mesmo que andando na mesma direção, não é povo – é público. Povo trabalha no silêncio, não se faz na repetição de um discurso. Povo não se junta por ter os mesmos gostos e as mesmas crenças. Povo vive sempre e se reconhece como povo por causa do direcionamento da vida, não na marcha de um dia, em um evento. Povo se constitui sempre. Público se reúne uma vez ou outra.

Voz do povo não é o grito das ruas, é o silêncio do trabalho por mudanças. Claro que muitas vezes o povo se mistura no público, estão juntos. Mas suas características são diferentes: uns vivem aqui, outros estão lá. Não fazer uma boa separação de público e de povo vira malandragem política e deturpação religiosa. O fruto produzido a partir dessa diferenciação não aparece em resultados ou em uma formulação teórica. O fruto é um convite a retornarmos à árvore da qual veio. A árvore que produz povo não faz alarde, não é oportunista e vê eventos como um acidente – completamente secundários.

A motivação de quem se relaciona com um público está na obtenção de algum recurso: seja humano, financeiro, capitalista, material ou de poder. Números são importantes, atividades chamativas e bons registros são fundamentais. Quem serão os alvos, não importa tanto, desde que venham, curtam, ouçam, gritem, voltem e deixem com “o lado de cá” a responsabilidade de mover o mundo. Completamente diferente da relação entre o “eu” e o Povo. Quem se relaciona com o Povo se vê como parte, como à parte do Povo enquanto dentro dele. Quem se relaciona com Povo não cresce em cima de sua voz, mas ouve atentamente o que o Povo fala, trabalha junto, sabe o que acontece. A motivação é a própria relação: que se mantenha! Povo não é objetivo, Povo é interlocutor, sujeito com o qual esse “eu” se relaciona. O alvo não é o Povo. O alvo é a transformação do mundo no qual o Povo e o “eu” estão. Quem se relaciona com o Povo vive sua vida, sofre junto seu silêncio, busca a paz.

Tanto a política quanto a Igreja se perdem na instabilidade de saber com quem se relacionam: com Povo ou com público? Políticos se aproveitam do ajuntamento de gente, de multidões, para alegar que o povo encontra eu sua boa sua voz. Gritar junto, falar “a mesma coisa” não faz Povo, faz público – chamado também de rebanho. Religiosos se aproveitam das multidões e de eventos para juntar gente. Fingem ser a voz de Deus para a gente e fingem ser a voz da gente para falar com Deus. No fim, uma multidão se junta, mas nenhum Povo se forma. O Povo está lá, calado, se reconhecendo, mas trabalhando e vivendo o dia-a-dia, não apenas em um dia.

O Povo se conhece e reconhece. Não tem como dizer sua cara. Tem-se apenas como dizer o direcionamento de sua vida, seu sentido, onde quer chegar: na paz. Povo quer ser Povo e ter espaço para ser Povo, se relacionar como Povo, se relacionar como gente, com a gente. Povo não aceita qualquer voz. Povo escolhe a multidão de conselhos e aguarda em silêncio. Fala, sim, entre si, um-para-o-outro. Povo não lida com público-alvo ou com objetivos. Povo lida com vida e vida em abundância: com relações entre pessoas. Conversas baixas, muitas vezes em grupos pequenos, mas que transformam a vida e o modo de viver do Povo, realinhando o caminho e a caminhada rumo à paz. Povo sabe das coisas, mas prefere se calar e viver a vida do que disputar o microfone e os eventos com os promotores de públicos. Nos eventos as muitas pessoas perdidas entre si, que não se relacionam, se ajuntam e aproveitam umas horas. O Povo, por sua vez, vive junto todo dia, trabalha junto, se conhece, sabe como está duro viver. Não precisam de um dia para se encontrar; vive, já, junto.

O Reino do Povo vive sempre e para sempre. Calado, na dele, vai levando o mundo enquanto o mundo acha que foram os eventos que o transformaram, que foi o público reunido num dia que fez as coisas acontecerem. Mal sabem os promotores de eventos e o publico que para uma revolução acontecer, precisou ser gestada durante décadas no meio do Povo, em seus cochichos, silêncios, trabalhos invisíveis. Para a política e para a Igreja que buscam a paz e a eternidade, plenitude, falta voltar a se relacionar com Povo, parar de produzir público.

A árvore do Povo é árvore que produz vida. É Árvore da Vida. Igreja é Povo de Deus, não público que procura Deus. Igreja só é Povo quando para de se preocupar consigo e com seu próprio culto, com a manutenção do número de membros, e se volta para o serviço, à Mensagem de Cristo, à Mensagem que a originou: cuide dos órfãos, das viúvas, dos presos, oprimidos, dos que tem fome, sede, passam frio e são estrangeiros. O Povo sempre faz isso, vive essa relação. Ele é a alma, o sangue e a vida da Igreja. Enquanto Casa do Povo, a Igreja deve ser como República e a República como Igreja: à serviço. Não na promoção de momentos, mas no trabalho cotidiano de entrega, transformação do mundo e caminho para a Paz.

Bruno Reikdal Lima

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