Chega de solo!

CAR37020W00002-/ICP001“Num mundo sem problemas, não haveria pensamento”. Li isso enquanto escrevia meu trabalho de pesquisa em filosofia. Produzimos experiências para superar crises, dificuldades, situações indeterminadas que constituem nosso dia-a-dia. Sempre crises: por vezes mais intensas, por vezes mais brandas. No fim, temos de tomar decisões e resolver alguma coisa. Nesse percurso, podemos jogar o pó para debaixo do tapete ou limpar decentemente a sala de casa

Sem pessimismo, o mais fácil e normalmente mais feito é jogar a poeira pra debaixo do tapete. “Aquilo que é belo/bom é árduo/difícil” – está na República de Platão. Em momentos de crise intensa como o que vivemos – questões políticas, econômicas e religiosas interferindo e intensificando nossos problemas diários -, procuramos por escolher alguém que solucione o que precisa ser feito. Um ícone! Quem será o salvador? A figura única e específica que, sozinha, é capaz de transformar tudo?

Seja tirar o presidente de seu cargo e colocar outro, alterar o líder comunitário, convocar uma nova eleição para o representante de classe, debate entre dois ou três figuras que tem proposta mágicas para resolver problemas, caçamos um ícone que nos salve. Um certo messianismo. Algum solitário “x” que tem o dom e o botão mágico. Assim enxergamos nossos ídolos do esporte, de filmes, Tv, intelectuais, gênios, etc. Sozinhos, isolados, foram capazes de superar todos os seus problemas. Logo, são capazes de solucionar qualquer problema. São os ícones especiais indicados.

Educamos crianças e preparamos pessoas para ou ser esse ícone ou não ser nada. Como se o próprio sujeito que é considerado especial não tivesse dependido de muita sorte, uma série de relações, situações imprevistas, traumas, crises, surpresas, coisas que não fez, não pediu, não causou, mas que aconteceram e propiciaram determinado momento ou habilidade específica para lidar bem com uma série de questões. Não sabemos pensar comunitariamente, só entendemos o mundo em carreiras solo.

Chega de solo! Chega de ir pelo caminho mais fácil e jogar poeira pra debaixo do tapete. Vamos admitir que soluções não são fáceis, que nossos problemas não estão nas mãos de um ícone, mas de uma comunidade. Vamos assumir que para que determinada pessoa produza uma música, um dom, um pensamento, ideias, teve contribuições de onde não esperava, relações acidentais, experiências surpreendentes e depende que uma série de outras pessoas solucionem outros problemas para que ele, naquele momento, consiga resolver uma crise “x”. Não trabalhamos solo! É sempre vida comunitária, relações complexas, ações com efeitos determinados e indeterminados. Vivemos para além do ícone, para além da simples causalidade. É mais profundo.

Seja na política, na economia, educação ou religião, precisamos romper com o solo, com o paradigma do “ícone”. Como ilustração e experiência profunda, precisamos “quebrar os ídolos”. Crer messianicamente em um sujeito mágico,  icônico, solitário  capaz de tudo e salvador de todos, é criar um ídolo. Precisamos quebrá-lo: não o sujeito, mas a imagem e a crenças que temos nele. Seja o presidente, o líder religioso, comunitário, etc. O ídolo precisa ser quebrado, a idolatria deixada de lado. E isso não acontece da noite pro dia, mas depende de um esforço contínuo, diário, de assumir responsabilidades para si em relação a outros: responsabilidades comunitárias. Os êxitos e as falhas de alguém são, também, responsabilidade minha, pois vivemos em sistemas complexos e em relação. Somos comunidade, não ícones isolados.

A própria religião cristã não é “messiânica”: a fé está estruturada no acontecimento da vinda do Messias que já está entre nós: não ele ídolo, mas seu Espírito entre os fiéis, agindo nos fiéis. O corpo de Cristo é o pão e o vinho compartilhado entre pessoas. O corpo de Cristo é Igreja: não é um ou outro, alguém, mas a comunidade. Se há funções diferentes, lideranças e dons, não é em uma relação de ícone, em carreira solo, mas no compartilhamento de vida interna, nas relações estruturadas entre pessoas, entre fiéis. Dom dividido e entregue a todos é, já, a complexificação das relações.

É necessário, então, pararmos de idolatrar e iconizar. É comunitariamente, em colaboração, que construímos ideias, propostas, solucionamos problemas e superamos crises. Não depende de um ou de nós, mas da uma pré-compreensão de que é em relação que as crises são vividas. A filosofia, a religião e a política pensam em “causalidade”: aquilo que um sujeito faz com um objeto determina o resultado final. Não! A relação não é só de um sujeito para com o um objeto, mas entre sujeitos também! Há efeitos indeterminados, há sujeitos em relação, descontrole, dependência. Não somos ícones independentes. Somos comunidade. Se é perceptível em um determinada característica e dom, é porque comunitariamente, em relação, foi possível esta realização. A superação de crises é relacional, é comunitária.

Chega de solo. Enquanto não quebrarmos ídolos (não pessoas, mas a crença idólatra), manteremos o vazio, mergulharemos em processos críticos constantes de dependência plena: todos dependem de um, e não de interdependência: todos estamos em relação com todos. Novos tempos, novos modos de ver o mundo. Novos sujeitos, novas criações. Creio na possibilidade de superarmos os ídolos. Um rosto tem marcas de toda a humanidade…

Bruno Reikdal Lima

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