Sodoma e Gomorra

6672_10201234781421707_111400940_nEste texto é fruto de conversas em um encontro de estudo bíblico. Uma das participantes compartilhou com a gente que tinha ficado incomodada ao ler Gênesis 19: a famosa história de Sodoma e Gomorra. Em nossas trocas de ideia, ficou de “lição de casa” lermos e trabalharmos o texto durante a semana e, no encontro seguinte, compartilharmos nossas percepções

Diferente de novela, não é lendo um capítulo que se entende a trama toda do texto bíblico. Tem que ver o enredo, ficar atento às falas, às cenas, aos “easter-eggs” que os autores deixam para o leitor. Se tem uma coisa que aprendi no seminário de teologia e na faculdade de filosofia é que as palavras nos textos importantes são muito bem colocadas. Não é à toa. Tem propósito. E a gente tem liberdade de imaginar porquês…

Assim sendo, não vamos ver um episódio só, mas caminhemos junto com a história, caçando os fragmentos e enigmas, desvendando propósitos:

Em Gênesis 18, aparece uma conversa de Deus consigo mesmo: pensante, Deus comenta consigo que precisa contar à Abraão o que fará com Sodoma e Gomorra, pois o escolheu para obedecer seus ensinamentos e façam o que é justo. Em seguida, fala abertamente com Abraão que as cidades serão destruídas por causa das muitas acusações que precisam ser analisadas. Daí surgem duas dúvidas na cabeça de quem lê: “quem fez as acusações?” e “como é que eles estão pecando/desobedecendo ensinamentos se ainda não foram escritas as Leis de Moisés e nem o povo de Deus está formado?”. Isso faz com que voltemos ao enredo para caçar respostas ou direções.

A primeira vez que a palavra “pecado” aparece na Bíblia é na história de Caim (por incrível que pareça, não é na situação do Paraíso e da saída de Adão e Eva). O primeiro ato que é chamado de pecado é o assassinato do Outro, do irmão. Caim matou Abel. A segunda vez que aparece é na história de Noé, para designar a violência que havia por toda parte. O que o contexto nos indica é que pecado tem uma determinação clara: a violência.

Abraão é a personagem principal da história, e sua vida a referência de sentido. Há, na preparação para seu nascimento, uma série de referências a situações e genealogias (Gênesis 10 e 11). A genealogia dos três filhos de Noé termina com uma expressão muito interessante: “Esses foram seus descendentes; cada povo e cada família na sua própria terra, com a sua própria língua”.

Em seguida se abre um vácuo: a história da Torre de Babel! E qual a trama? Um povo que se reúne todo numa mesma terra sob uma mesma língua. Deus não se agrada disso e bagunça as línguas, fazendo com que cada um vá para um lugar e tenha sua própria cultura. Nesse contexto, vem a história de Abraão!

Terá, pai de Abraão, muda de uma terra para outra. Abraão fará o mesmo, só que com uma diferença: Deus o chama para ser estrangeiro. Não é nômade por ser nômade. Agora se faz estrangeiro em outras terras na confiança de uma promessa, como uma missão de vida. Abraão será estrangeiro.

Não que ele ficasse confortável com isso. Ser estrangeiro é um perigo! Abraão morria de medo de como seria recebido nos lugares por onde passava. Tinha medo de sofrer violência por causa da beleza de sua mulher. Isso causa uma série de problemas e transtornos.

No Egito, por exemplo, Abraão fala para Sara, sua mulher, que finja ser sua irmã, pois tinha medo de que o matassem para ficar com ela. Tinha medo de ser mal recebido. E como paga dessa desconfiança, o rei acaba inocentemente casando-se com Sara! E com tudo o que tem direito! E isso gera uma certa confusão.

Abraão segue para um canto, seu sobrinho Ló, que viera com ele em sua missão, para outro, mas ambos são estrangeiros…

Nessa relação entre terras, povos e estrangeiros, chegamos a Gênesis 18. Abraão está sentado em sua barraca e vê três viajantes em sua frente. Ele se ajoelha e convida os homens para entrarem e descansarem. Acolhe-os muito bem, tratando essa visita como uma honra. Dois dos visitantes seguiram viagem, o outro ficou mais um tanto com Abraão. Este que ficou aparece como sendo Deus!

Chegamos à história de Sodoma e Gomorra, exatamente ao trecho que iniciou este texto. Abraão, então, intercede pelas cidades, perguntando se Deus destruiria os bons junto com os maus – e a resposta é negativa: em favor dos bons, pouparia a vida de todos!

Nisso chegam os viajantes à Sodoma. Encontram na porta, Ló. Este os convida para ficarem em sua casa, mas os dois negam, pois desejam passar a noite na praça. Porquê? Qual o motivo de preferir a praça? Eles tinham que verificar se as acusações feitas às cidades eram verdadeiras! Quais acusações? Vejamos o que segue:

Ló insiste e leva os visitantes para sua casa. Entretanto, antes de dormirem, todos os homens da cidade batem à porta de Ló pedindo pelos viajantes que ali se encontravam. Qual o desejo? Violentá-los! Ló implora para que não cometam este crime. Qual? Violência. Qualquer violência? Não, pois Ló oferece em troca suas filhas. O crime é a violência contra os visitantes, contra os…

Estrangeiros, diferentes! Este é o “fio de ouro” das histórias: a violência contra o “Outro”, o estrangeiro, o diferente. Não se deve eliminar o estrangeiro, a diferença. O povo “único de única língua” é conquistador e violento. Não é desejo de Deus. Desejo é a pluralidade, espalhar pela terra, se multiplicar: “cada povo e cada família em sua própria terra e com sua própria língua”. A resposta do povo de Sodoma para Ló é: “Este homem é estrangeiro e quer mandar em nós!”. Não há respeito pelo visitante, pelo peregrino, pelo Outro. Esse era o crime das cidades.

No raiar do dia Ló foge com sua família e as cidades são destruídas. Tudo é queimado e se torna improdutivo. Alguns textos antes o autor coloca que o vale de Sodoma era todo arborizado e produtivo, chamando atenção para a terra que, agora, é deserto e inútil. O mal acolhimento ao estrangeira, a violência contra o Outro, o diferente, são pecaminosos e tornam a terra má. Por isso, em Noé, Deus queria destruir tudo: os homens eram violentos e tudo deveria ser abandonado. Exceto Noé, que acolhia e protegia, que era responsável e capaz de preservar a criação, viver com e de modo diferente.

A mulher de Ló olha para trás e se torna estátua de sal. Se apegou à terra, não se fez estrangeira, se tornou improdutiva. Sal jogado na terra destrói. Indício da missão de Abraão: fazer-se de estrangeiro. Apegar-se à terra torna ela improdutiva. Deve-se ser “hebreu”: nômade , que segue o rio.

No capítulo 15, Abraão se encontra com o rei de Sodoma, Melquisedeque, que de acordo com a Bíblia era um homem temente à Deus. Porém, depois da batalha, Melquisedeque oferece à Abraão todas as coisas, os espólios, da guerra desde que Abraão deixasse com ele as pessoas. Trocava coisas por pessoas. Abraão recusa. Sinal de que gente vale mais, não me apegarei às coisas, terras e espólios.

Na história de Caim, quando Abel vai para o campo – terra de trabalho de Caim, onde ele ganha a vida -, ele acaba morrendo. Caim não sabe receber seu irmão, acolher, conviver com ele. Os homens se tornam violentos, não sabem viver com diferenças. Os descendentes de Noé tem cada um sua terra e sua língua. Mas em Babel os homens aceitam só uma terra e só uma língua, creem que isso os fortifica. Mas não é o desejo de Deus. Seu desejo é a missão de Abraão: sai da tua terra e da tua parentela. Seja estrangeiro em qualquer terra, receba bem o estrangeiro. Proteja a vida do diferente…

Frei Carlos Mesters disse que hoje é fundamental lermos a vida de Abraão, pois ele é raiz das três religiões mundiais: muçulmanos, cristãos e judeus. Ele é símbolo e sinal de convivência, pluralidade, ecumenismo. É Abraão a figura que nos une: não a mesma língua e a mesma terra, mas como estrangeiros. Somos todos filhos de estrangeiros e estrangeiros. Gosto muito do texto de Hermann Hesse que diz que os andarilhos são os guias do futuro, pois não se apegam às fronteiras. Não tem terra, porque em toda terra são visitantes. Evita a guerra, as brigas e nos convida à solidariedade e acolhimento.

Das leituras, conversas e percepções, descobrimos que Sodoma e Gomorra são sinal do pecado: violência, ódio ao estrangeiro. Ainda não havia religião instituída e as leis de Moisés. Qual era o ensinamento e sinal de justiça? A missão de Abraão, pai da fé. Confiar em Deus, não em terra firme, segurança e poder. Se fazer de estrangeiro sob a promessa de que nossa casa é preparada pelo Pai, não na guerra.

Bruno Reikdal Lima

Se tem

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