5 desafios para refazer a Igreja

 casa na rua dos bobosInstituições estão em descrédito. Seja política, jurídica, religiosa, esportiva, midiática… A confiança depositada é vazia. Sei que eu não confio mais em instituições – pelo menos não de modo ingênuo. Não sei bem a causa, mas o que sinto é que não dá para nos relacionarmos com elas à partir das definições que elas mesmas se impõe. Uma coisa é “o que é essa instituição”, outra é “para quê que ela serve?”

O descrédito e a canseira nos empurram para o lugar fácil de “então joga essa joça fora!”. Chega de instituições é uma resposta fácil e prática. Também um tanto preguiçosa. “Aquilo que é belo e bom é difícil, árduo”, diz Platão na República. Abandonar é até mais cômodo, mas não necessariamente bom. Não é nem justo jogar fora porque não é bom para mim. Assim, a ideia desse texto é trabalhar a instituição, especificamente religiosa, a Igreja, olhando para os desafios a serem vividos à partir do “para quê que ela serve”, e não à partir do “o que ela é”. Pode parecer uma diferença retórica e boba, mas não, é fundamental. A definição que uma instituição se coloca é passível de dúvida; aliás, é descrendo de que ela seja capaz de “ser sempre assim” que faz com que nos cansemos dela. Agora, entender sua função abre horizontes concretos: como trabalharemos com aquilo que temos e para suprir as necessidades do mundo, resolver seus problemas.

Igreja não é Reino de Deus, Igreja não é Jesus. Igreja é uma instituição religiosa que se põe como espaço para fiéis à Jesus e ao Reino de Deus se encontrarem, partilharem da vida, exercer sua religiosidade. Nela existem ritos religiosos que representam a missão, o trabalho e a vida espiritual dos fiéis. Que são significativos para a religiosidade e espiritualidade daqueles que nela se encontram. Os fiéis propõe o Reino de Deus e o vivem, a Igreja é espaço de compartilhamento dessas vidas, de ceia, de fortalecer uns aos outros e auxiliar na missão. Ela serve como encontro dos fiéis. Instituição necessária para este encontro, necessária para a prática religiosa que, querendo ou não, faz eco à espiritualidade e à relação com Deus. Sabendo disso, bora propor alguns desafios para que as instituições, que a Igreja, cumpra seu papel e não caia no vazio:

1. Reconhecer que a riqueza são as pessoas

A instituição não é gente, mas só pulsa e existe por causa de gente. Isso não só Igreja, mas em qualquer instituição. Mesmo que chamemos o Governo de “máquina pública”, são pessoas que tomam decisões. A riqueza de uma instituição é gente. Na Igreja, especificamente, não apenas as decisões são tomadas por pessoas, mas sua função é de espaço de encontro e mediação entre pessoas. Igreja existe em função e à serviço de gente, dos fiéis. São eles que a constroem e trazem vida. Paredes não pulsam nem respiram, não são sinal do Reino nem Corpo de Cristo. É gente e vida entre gente que apresenta o Reino, que constitui o Corpo. Isso não significa que a Igreja seja refém dos desejos de fiéis, mas que a vida da Igreja é a vida da comunidade toda – e isso nos leva ao próximo ponto.

2. Entender que as funções são diferentes, mas a vida comunitária é Dele

A Igreja tem o desafio de tirar o povo do vale e os reis dos tronos. A Igreja, como local de encontro entre fiéis, como vida de gente com a gente, deve superar a distância entre os líderes institucionalizados e os liderados institucionalizados. O problema não são cargos, diferentes funções ou trabalhos, mas as relações humanas que podem e devem ressignificar a operacionalidade da instituição. A administração eclesiástica, o direcionamento pastoral, a liderança, é necessária para o funcionamento da instituição, para o zelo pelo espaço de encontro e mediação entre os fiéis. Para assistência dos necessitados, é necessário que haja quem esteja a eles disponível. Nesse sentido, prestar serviço  uns aos outros, a instituição sempre em função dos fiéis. Não atendendo seus desejos e fantasias, mas suas necessidades e auxiliando na solução de problemas. Para tal é preciso trabalhar os pastores e líderes para que sejam gente como a gente, e suscitar em todos a missão pastoral, executar verdadeiramente o “sacerdócio universal de todos os santos”. Cumprir com a religiosidade, pregar e viver valores de Cristo, servir e amar ao Próximo como a si mesmo é a vida de todo cristão, deve ser o coração de todo fiel.

A questão institucional é divisão de trabalhos e operações dentro da comunidade. Os pastores precisam descer as escadas e os fiéis subirem, para se encontrarem no mesmo plano, apenas com funções e serviços diferentes. Cumprir o conselho de Paulo, em que todos os dos e serviços são importantes e fundamentais para a comunidade. Em que não faz diferença quem você é ou faz,  pois todos somos o mesmo corpo. O mesmo Espírito há em todos, mas os trabalhos são e devem ser diferentes para a manutenção da instituição, para a existência do espaço de encontro entre muitos.

3. Trabalhar pela diversidade

A Mensagem se espalha, as comunidades se alargam, a instituição se fortalece e maquiniza. Isso acontece. As vozes se multiplicam, os interesses também. Há variações de discursos, de condição social, jeitos, crenças, religiosidade. Classicamente, crê-se que o certo é, então, criar réguas que eliminem as diferenças e unifiquem a comunidade. Institucionalização. A Igreja para de ser local de encontro para se tornar escola montadora de pessoas e que atende a determinados grupos, desejos e interesses. Não tem o traquejo da diversidade, não  mantém a missão de lugar de encontro para se compartilhar a vida. Nesse campo que dogmatismos se instalam.

Não adianta crer que a solução é manter a comunidade pequena. Mensagem verdadeira se multiplica e não se contenta com a sala de casa. Aliás, esse processo já é uma institucionalização. E a manutenção de pequenos grupos se dá numa relação aristocrática: os mesmos, que falam a mesma coisa, que gostam das mesmas coisas, que frequentam os mesmos lugares, se reúnem no mesmo canto “separados do resto”. Não é lugar de encontro, é lugar-comum. A maravilhosa missão de ser encontro entre os diferentes, os diversos, é possibilitada por uma instituição larga, grande. O aumento do número de participantes é uma dificuldade e a manutenção da diversidade um desafio. Diferentes idades, diferentes histórias, diferentes culturas, condições sociais, línguas, casas, famílias… E todas deve se encontrar para compartilhar a vida e enriquecer a própria comunidade.

Sendo a função da instituição um serviço ao encontro e compartilhamento de vida entre fiéis, esse é um desafio interno fundamental! Mas não só internamente, externamente também:

4. Aprender o diálogo inter-religioso

Uma instituição religiosa tem o desafio de se manter lugar de encontro, diverso, sem muros que separem as funções com “especialidades”, mas com especificidades e, aqui, na promoção e abertura ao diálogo. Não adianta olhar e crer que num mundo complexo, de sociedade global e inter-conectada e constantes choques culturais, haja uniformidade na “Igreja”. Somos muitos e diferentes. São inúmeras instituições cristãs. Diálogo inter-religioso não é apenas entre cristãos e muçulmanos, judeus e muçulmanos. Dentro das próprias generalizações as conversas entre os ramos são conversas de diferentes religiões, religiosidades. Na promoção da paz e no respeito aos fiéis, as instituições tem que propor encontros, promover conversas e inspirar as trocas de experiências com as diferentes vertentes religiosas. É um desafio assumir que não somos “todos iguais” e nem temos o “mesmo discurso”.

É desafio sair da arrogância dos melhores, de nossos guetos – tanto interna quanto externamente -, por isso é um desafio. O respeito e a tensão entre os diferentes discursos religiosos deve ser vivido intensamente. Faz parte do crescimento da própria comunidade de fiéis e para o arejamento institucional. Só surgem mudanças e se percebe a necessidade em relação e em contato com o Outro, o qual me denuncia naquilo que erro e anuncia naquilo que acerto. A manutenção da própria instituição depende de sua relação com os diferentes, com outras instituições, com o exterior.

5. Desenvolver projetos geracionais

Não adianta a instituição se fechar ou se acostumar com determinada operacionalidade. Para que determinadas essências sejam mantidas, para que missões sejam cumpridas, para que a função da instituição não se perca, é necessário que os projetos visem a formação de pessoas e gerações. Não a formação de robôs que cumprirão tarefas e farão a manutenção de um único e mesmo projeto; mas pessoas capazes de mudar projetos, autônomas, sensíveis às necessidades do mundo e à vida do próximo. Geração que é capaz de escolher seu projeto, de desenvolver sua missão conscientemente.

De geração em geração problemas surgem, situações variam. De geração em geração a essência da Igreja precisa ser resgatada, a Mensagem revivida. Assim, gerações precisam ser preparadas para si mesmas. Não para o futuro, mas para enfrentarem seus próprios desafios. Não aprendem sozinhas: dependem de auxílio da anterior. Porém a decisão está em suas mãos. Não é uma educação para o futuro no sentido de controlar o futuro e perpetuar o próprio projeto, mas a educação que percebe que o futuro vem à nós e ele terá de ser enfrentado. Consciente de que o tempo se impõe e os problemas surgem. E é responsabilidade de cada geração aprender a solucionar seus problemas, desenvolver seus projetos e caminhar. É nos relacionarmos aprendendo uns com os outros, de modo que a educação institucional ensina a “aprender a aprender” (como propõe Jung Mo Sung), e não a “aprender a ensinar”.

A relação é entre pessoas, a maior riqueza é gente. As funções são diferentes, mas a instituição pulsa por causa das relações comunitárias. O diálogo inter-religioso e a diversidade interna são vivenciados enquanto “aprendemos a aprender”, ao invés de sermos os “donos do poder”.

O que esperamos de uma instituição religiosa não é sua secularização. Repetir outros modelos institucionais não nos fará “entrar no nosso tempo”. Estamos sofrendo com ele exatamente como todas as demais instituições. O exercício deve ser de reestruturação, de revisão, de sopro do Espírito para arejar a casa, não de repetição ou, no caminho mais fácil, abandono. O convite é para trabalharmos. Os desafios são mais profundos do que ações isoladas. São transformações de cultura.  Uma cultura religiosa que precisa nascer, mas que apenas acontecerá se assumirmos as dores e o trabalho de parto. E não fazemos isso sozinhos – pois nossa vida de Igreja são pessoas.

Bruno Reikdal Lima

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