Filosofia marxista

Karl-MarxQuem tem que passar por aulas de sociologia/filosofia no ensino médio ou no primeiro semestre da faculdade, acaba dando uma olhada naquele sujeito barbudo e, bem por cima, fica sabendo de uma ou outra interpretação de suas propostas. Normalmente os temas que circulam são políticos e econômicos (capital, burguesia, meio-de-produção, proletariado…), mas pouco se vê ou se lê de sua filosofia

A ideia desse texto, então, é trabalhar por cima um ou outro exemplo da filosofia desenvolvida por Marx. Entenderemos filosofia, aqui, como o processo de produção de “sistemas significativos de justificação”; ou melhor, as estruturas que dão sentido e significado às palavras, aos termos, àquilo que é criado, crido e dito. Teremos um tema central e comentaremos um ou outro desdobramento: o “ser” do homem. O que significa “ser humano” para Marx? O que que diferencia o ser homem de ser qualquer outra coisa?

Na tradição – que até hoje a gente aprende desde pequeno -, o que diferencia o homem do resto do mundo é aquela faculdade especial chamada “razão”. É a fórmula: “o homem é um animal racional”. Aquele que tem razão é homem e o homem só é homem porque tem razão. O caráter diferenciado é o “pensar”. O ser do homem seria “pensar”. A citação famosa de um francês “penso, logo existo” é a consagração dessa crença. Há a fusão entre ser e pensar: pensar significa “ser” e o ser só é enquanto pensado. Um círculo viciado e vicioso que Marx tratará de tentar mudar.

O que caracteriza o ser humano marxistamente tem outro sentido: não é o “pensar”, a “razão”, mas o trabalho: a realização de uma obra. Para viver (e sobreviver) o homem precisa gastar energia, precisa trabalhar. Mas seu trabalho não é qualquer trabalho: é um trabalho que tem valor, é criativo, compartilhável e variável. Diferente de repetições pouco adaptativas de outros seres, o humano é capaz de desenvolver valores especiais, melhoramentos criativos e compartilhar esse trabalho com outros.

Pegar uma pedra é trabalho que qualquer primata faz, mas torná-la uma arma de caça ou de proteção, compartilhar com os outros essa obra, criando assim um valor especial para a pedra. Depois, num novo trabalho, afiando a pedra para melhorá-la, transformando em novo valor e compartilhando o exercício, é só a gente mesmo que faz. O ser humano é ser humano porque é “trabalhador”: criativo, produtivo e relacional.

Esse trabalho é interferência corporal, material, não de abstrações e pensamentos de um além separado do resto do mundo. É bem a interferência no mundo. Afirmar que o trabalho é o ser do homem, aquilo que o mantém como ser ou o mantém sendo, é, também,  afirmar que não-trabalhar é não-ser homem ou impedir que o homem continue sendo.

Viver é gastar energia. Trabalhamos para produzir alguma coisa que reponha essa energia. Ficar sem energia totalmente é morrer. Assim, viver é a gente se matar (perder energia) para não morrer (perder todas as energias). Se significarmos a “vida” como algo positivo e a morte como algo negativo, a gente se mata (nega) para não morrer (a negação) e, assim, vivemos e mantemos a vida: assim somos (esse é o embrião da dialética marxista). Quando um humano deixa de trabalhar, deixa de ser, ou melhor, se deixa à deriva da morte. Ao invés de negar a negação, ele assume a negação, e cria com isso um sistema auto-destrutivo (um tipo de suicídio).

O que acontece é que alguns seres humanos deixam de trabalhar e, para se manterem, outros trabalham por eles. Nesse sistema auto-destrutivo, humanos deixam de ser humanos obrigando outros humanos a serem “demasiado humanos”. Desumanidade e inumanidade. A diferença que surge, depois, entre “donos de meio de produção” e “proletariado” na teoria marxista tem essa primeira experimentação filosófica: é um sistema injusto e insustentável porque impede a humanidade, ou seja, a plena experiência de ser humano: ser trabalhador. A ideia de igualdade não é, em princípio, numa relação de posses, mas numa relação de trabalho: todos devem ser trabalhadores, supridores de necessidade e criativos.

A característica de ser é trabalhar, não “pensar”. Por isso a frase de Marx em que critica a filosofia por analisar muito e fazer pouco ficará famosa: em princípio trabalhamos. Claro, cabe a crítica ao próprio marxismo por se limitar em si mesmo e na dogmatização desse princípio ao separa de forma descontínua pensar de agir. Pensar também é uma ação e um trabalho. A questão posta, entretanto, é que pensar não é um trabalho supremo, mas mais um trabalho no meio de tantos outros – e isso deve ser levado e muito em conta!

“Produzir pão” é dever de todo homem, não de uns e não de outros. A manutenção da humanidade depende do trabalho. A crítica aos “donos de meio de produção” não é, primeiramente, o acúmulo de riqueza, mas o desperdício de trabalho, a anulação da própria humanidade e, com e por efeito, a sobrehumanidade imposta a outros. Em um segundo momento, já na obra d’O Capital, começando pelo significado de dinheiro e, em seguida, rumando para os desdobramentos das relações produtivas, valorativas e do capital, a riqueza e o acúmulo de posses serão discutidos, criticados e desafiados. Mas, talvez, sem essa primeira exposição filosófica, fiquem vazios de significado e percam seu caráter humanitário, tornando-se uma relação mecânica e sistêmica.

Um dos grandes desafios de Marx era, pós Hegel, desenvolver um sistema que superasse as “totalidades”. Infelizmente, sem  uma análise mais acurada de sua filosofia, esse exercício passa desapercebido e o próprio marxismo se torna um sistema totalitário e totalizante.

Em breve pretendo escrever um outro texto de comentário ao caráter filosófico de outros autores. Se este foi interessante para você, ser útil para a preparação de aulas ou exposição de ideias, fique a vontade de copiar, compartilhar ou trabalhar. Podemos compartilhar bibliografias, discutir e promover filosofias próprias. Contato pelo facebook.

Espero que seja útil…    😉

Bruno Reikdal Lima

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2 comentários sobre “Filosofia marxista

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