O próximo: categoria absoluta de uma ética comunitária

homem-invisivel-chines-liu-bolin1“Ah, isso é muito subjetivo!”; dizemos isso quando queremos qualificar determinada crença, posição ou preferência é relativa, depende de como “cada um vê”. Subjetivo aparece como alguma coisa relativa ou relativizada porque cremos, mesmo sem perceber, que o “sujeito” pode pensar o que quiser, como quiser e quando quiser. “Dentro da minha cabeça eu sou livre”, diferente do que acontece “lá fora”…

Isso não acontece por acaso. Temos uma história da nossa língua e da filosofia que a sustenta. A separação entre “corpo e alma”, por exemplo, é fundamento desse nosso jeito de entender o sujeito e o que é subjetivo. Uma coisa é a “alma livre” e o “corpo prisão”. É aquela coisa de quando estamos sem prática em determinada atividade ou envelhecemos e dizemos que a cabeça pensa, mas o corpo não responde mais. Esse jeito de explicar apresenta essa diferença dentro de nossas crenças: corpo e alma são diferentes, sendo que a alma é livre e cada um tem a sua, fazendo o que quiser com ela.

Kant, filósofo clássico da tradição alemã, auxiliou na manutenção dessa crença de alma-corpo constituindo o sujeito. Colocando o mundo objetivo (da sensibilidade) em contato com o mundo subjetivo (da mentalidade), mas em âmbitos separados (uma coisa é a razão pura, outra a razão prática), viu que a afirmação da subjetividade daria problemas de relativização. Para resolver a questão, a gente pode pensar o que quiser como sujeito, mas respeitando o “imperativo categórico”: pensar aquilo que é igual para todos, válido para todo e qualquer sujeito: pensamento que seja universal. É uma complexificação arrojada do “não faça para o outro aquilo que não quer que façam para você” – só que privilegiando o “não pense para o outro” e não o “não faça”.

Ele acreditava que um imperativo “universal” resolveria o problema: nenhum sujeito faria mal para outro sujeito que, por ser sujeito, seria igual a ele. Ele acreditava na universalidade. O problema é que não tinha como perceber que a universalidade que ele propunha partia da particularidade concreta de suas relações: de sua cultura, sua história, seu povo, sua cidade, sua carne, seu corpo, sua etnia, seu fenótipo… Sujeito sem rosto pode ser qualquer sujeito que se enquadre dentro dos padrões do “o que é sujeito”. Mas isso a gente não vê, porque é coisa da alma, de cada um. O próprio sujeito se torna (naquele sentido comum do começo do texto) “subjetivo.

Estruturar uma ética na crença de que um imperativo categórico subjetivo resolveria os problemas não deu certo: não impediu exploração por parte de Impérios Modernos, nem o colonialismo e neocolonialismo europeus, e muito menos o próprio nazismo alemão. Porquê? Porque o “o que é sujeito” estava estruturado na própria cultura, história e crenças de um povo, e os demais que não tinham essa cultura, essa história e essa crença não se encaixavam no conceito de sujeito. Então poderiam ser explorados e escravizados: fosse porque nunca seriam sujeitos, então não mereciam participar da regra do “não faça com o outro aquilo que não quer que façam com você”, fosse porque tornar os outros sujeitos “como nós” legitimava e justificava a exploração. De uma catequese forçada pela cristandade na época da conquista da América, se passa para uma “educação” filosófica forçada pela Modernidade.

Assim, nos trancos, barrancos e não-intencionalmente, a universalidade que Kant acreditava se tornou uma relatividade sem medidas: “isso é subjetivo” não significa que é mediado por um imperativo categórico universal, mas que cada um crê do seu próprio jeito. Talvez por isso nossas éticas e códigos morais, hoje, tem tanta dificuldade de se fortalecer e organizar. Não conseguem, sem perceber, superar esse modo de entender o sujeito e propor novas regras. Se pretendem universais e tropeçam  em casos particulares.

Nas comunidades religiosas a falha também se apresenta. Existem imperativos válidos para todos os sujeitos e que mediam sua própria sujeiticidade: só é sujeito quem tem determinadas características ou práticas. E assim se montam estatutos, instituições, regras de usos e costumes. Ao mesmo tempo, num paradoxo, a leitura de textos sagrados é “relativa”: depende de cada sujeito. Esse buraco entre sujeito ser determinado e ser relativizado é difícil de pular, porque precisamos tomar outro caminho para ressignificar o sujeito e o “imperativo”. Manter os mesmos mecanismos não altera o movimento.

Contra a relativização (ah! isso é subjetivo) e contra o imperativo universal (todo sujeito é mediado por…), é importante resgatarmos o valor da expressão “Próximo”, trabalhada no Velho Testamento pelas leis mosaicas e resgatada por Jesus. Diferente de um conceito relativo e universal (um paradoxo esquizofrênico muito doido!), Próximo é relacional e absoluto. A categoria de Próximo não está fundada numa separação entre alma-corpo, sujeito-objeto; mas numa relação geográfica: não distante. O Próximo não está lá ou é “aquele que”, mas está aqui e é “esse aqui”. Próximo está perto, face-a-face. Próximo tem rosto!

Diferente de sujeito, que é uma alma invisível e encarcerada no corpo, Próximo é quem está na nossa cara e, se tem um cárcere, ele aparece em relação à mim. Ou eu o prendo ou estou negligenciando sua libertação (vejo as correntes, mas não o solto). Essa característica do Próximo em minha frente quem ensinou foi Enrique Dussel lendo a Mensagem do Evangelho. Mas em Sören Kierkegaard a gente aprende uma outra coisa: que Próximo é qualquer um e todo mundo ao mesmo tempo, porque Próximo é uma categoria absoluta, anterior a qualquer pensamento ou proposição. Para ele, o sujeito antes de ser sujeito, o pai antes de ser pai, a mãe antes de ser mãe, o primo, o cobrador, o professor, a irmazinha, a tia… São, antes de suas atuações sociais, “o Próximo”! É absoluto: antes de tudo, quem está em relação à mim, é Próximo.

Assim, na história do Samaritano, contada por Jesus, amar o Próximo como a mim mesmo tem referência o Próximo e qualquer Próximo: todos são, antes de tudo, Próximos, e devem ser amados primeiro como tal. Antes de amar namorada como namorada, amigo como amigo, é amá-los como Próximo. Categoria absoluta e relacional! Relacional porque depende, sempre, do “entre dois”, da relação entre duas pessoas; e absoluta porque exige qualquer outra pessoa para-além-de-mim.

Próximo é uma relação geográfica, não etérea. Não há a desculpa por não o perceber, pois está “bem à sua frente”. Mais do que “visto”, o Próximo deve ser “ouvido”. Enquanto visto, determino aquilo que vejo nele;  mas quando o ouço, sou surpreendido por uma pessoa que age para além dos meus limites. A palavra do Próximo, seu clamor ou sua alegria, nunca está sob meu controle e nem determinada. Sua categoria de Próximo não é determinada por mim, mas imposta à mim!

Para uma ética comunitária não são suficientes os estatutos morais, as leis, normas ou imperativos. São importantes para funcionamentos institucionais, mas incapazes de lidar com a pessoalidade, a vida e a relação comunitária. Esta é regida por uma Ética, princípio, muito profundo: a categoria absoluta do Próximo. Todo o processo de leis e normas deve ser constantemente revisto, quebrado e remontado à partir desse fundamento. Em comunidade, todo aquele que se aproxima, é meu Próximo. Mais que isso, todo aquele a quem me aproximo, é meu Próximo:

Depois de contar a história do Samaritano, Jesus termina perguntando para quem o questionou: “Quem foi o Próximo daquele que estava caído?”, e a resposta foi óbvia: “Aquele que agiu em misericórdia”. Como última palavra, Jesus impõe o norte absoluto: “Vá e faça o mesmo!”. Fazer o quê? Torne-se “o Próximo” de outra pessoa. Tornar-se Próximo, Aproximar-se, faz do outro meu Próximo! Ele se torna Próximo enquanto eu me Aproximo. “Ame o Próximo como a si mesmo” é, então, “Torne-se Próximo e, assim, ame o Próximo como a si mesmo”. Ou seja, ame o Próximo como Próximo! Um absoluto relacional ou uma relacionalidade absoluta.

A exigência de amar ao Próximo como lei primeira – fio condutor de todo o Novo Testamento – é exigência de Aproximar-se. Faz do Próximo a categoria absoluta para uma ética comunitária, para o direcionamento de nossas relações: para além da relativização e/ou da universalidade.

Bruno Reikdal Lima

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