Tachlis


logotachlis_postsHá cinco anos a Igreja Betesda, comunidade religiosa da qual participo, criou o Tachlis – encontro de líderes jovens das diversas comunidades espalhadas pelo Brasil. No meio das tentativas, trancos, barrancos, crises, acertos, erros, parcerias, discussões, reações intencionais e não-intencionais, chegamos ao quinto  encontro: Tachlis 2015

Uma coisa é saber que ali na frente tem uma porta e que precisaremos atravessá-la. Outra é efetivamente ter que atravessar. Assim é minha relação com expectativas, transformações e maturidade. Sei que leva tempo para crescermos, sei que é necessário muita caminhada para nos entendermos e sei que é só na relação prolongada e próxima que encontraremos certos instantes de paz. Mas uma coisa é saber, outra é ter que viver isso aí!

Em uma das conversas informais no Tachlis, comentamos que uma das características das grandes propostas filosóficas é que elas não propõe uma teoria para ser posta em prática por alguém, mas teorizam aquilo que já é feito cotidianamente pelas pessoas. Teorizar as práticas é mais difícil do que propor “do nada” qualquer coisa para ser realizada. Não creio que eu seja capaz de teorizar aquilo que vivemos e vivenciamos lá, mas tiro algumas reflexões (desdobramentos daquilo que foi experienciado) de nosso encontro:

1. Transformações exigem um tempo diferente do tempo do relógio

Confesso que quase não participei do Tachlis 2015. “Nadar, nadar e nada” cansa. Muitas vezes me senti sozinho, cansado e irritado por não ver as mudanças que desejava experimentar. Queria para ontem certos acontecimentos. Esperei uma revolução, e não uma conversão. Assim, acostumado já com inovações imediatas, tinha a expectativa de que tudo se resolvesse logo, e a impaciência se revertia na falta de tato com o Próximo. Aprendi que valorizei uma coisa e atropelei alguém: achei que o relógio (calendário) transformaria pessoas, e não que somos nós, pessoas, que construímos relógios e decidimos calendários…

Quis que o homem (pessoas) fosse feito para o sábado (relógio), e não o contrário. Não tinha entendido que o tempo de verdade é aquele vivido entre as pessoas, e não no meu pulso. As transformações, a maturidade, depende de um tempo diferente: o tempo relacional. Tempo não é marcar voltas de um ponteiro. Tempo é a experiência profunda da vida; e ela acontece em relação ou na relação com o Próximo. A palavra que vem do Próximo vem à mim, não tenho controle. A ação do Próximo me surpreende, me bagunça, me afeta. Futuro (tempo por excelência) que não vem de mim, mas vem à mim. O futuro vem do Próximo enquanto no presente me relaciono com ele e vejo a vida passar. O tempo é e está entre o Eu e o Próximo. Não adianta exigir e correr com as transformações. O tempo da conversão não é dos ponteiros: é das relações entre pessoas. Tempo relacional…

2. Não veremos as transformações; as escutaremos

Muitas vezes a gente quer ver a mudança, mas não estamos dispostos a ouvir aqueles que estão ativos, são os agentes de mudança. “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus”. Podemos até saber disso, mas não vivemos isso. É preciso ouvir: ouvir a voz do Próximo, ouvir a voz de Deus. O ouvir nos obriga a parar um pouco, a silenciar, a não querer dar um passo maior que a perna. Numa trilha, no escuro, de tempos em tempos é necessário que cada um diga seu nome para sabermos se alguém ficou para trás ou se perdeu. Como comunidade religiosa, como Igreja Betesda, decidimos andar nos escuro, nas trilhas que poucos andaram. Assim, precisamos mais do que nunca treinar o ouvir.

“A Palavra se fez carne”, e só se aprende a ouvir através dela. É palavra viva, que constantemente se transforma e requer nosso silêncio. É exigência para ficarmos atentos, não com os olhos, apenas, mas com os ouvidos. Atentos para ouvir a voz Dele e, como ovelhas, o seguirmos. Precisamos treinar a escuta para ouvirmos o Próximo, e mais ainda para ouvirmos a voz de Deus. A Palavra habita, ainda, entre nós. Para ouvirmos, precisamos treinar nossos ouvidos, escutar as mudanças que estão ocorrendo nas mentes e nos corações. Ouvir a História.

3. Trabalhar, trabalhar, trabalhar…

Nas primeiras reuniões dos primeiros dias tivemos Praxías: momentos em que nos debruçamos sobre problemas concretos e buscamos soluções. Em diferentes circunstâncias, com uma dinâmica própria, descobrimos o valor-trabalho de liderança: para além da voz de comando, o braço de ajuda. É necessário trabalho: trabalho comunitário e engajado. A liderança prática, que se percebe como liderança pelo trabalho e não pelo cargo ou pelo discurso, precisa ser prioridade.

Não giramos em torno de uma mensagem falada, mas uma Mensagem encarnada, vivida. É o serviço, entrega próxima, de proximidade, efetiva e material que precisa ter espaço central em nossos processos comunitários. Corações unidos por ter que trabalhar num mesmo sentido, sob o mesmo Nome, não pela sincronia e repetição de discursos. É o comer juntos, preparar a comida juntos, lavar louça juntos, ajeitar a casa juntos. Trabalho e vida compartilhada que nos guiam, fortalecem e direcionam.

4. Trabalho com sentido

Mas não é trabalhar por trabalhar, produzir por produzir. Temos sentido, temos significado. Práxis não é “produzir”, mas produzir para troca, intercâmbio, para outrem. Poiesis (de onde sai a palavra “poesia”) é produzir por produzir. Produzir uma obra por ela mesma não é mal, nem ruim. É o orgulho do trabalhador que fabrica algo belo e bom, que fica satisfeito com e por seu trabalho. Entretanto, este não é o sentido de nosso trabalho comunitário: enquanto comunidade, trabalhamos para outrem, não para nós mesmos.

O problema de certa estética teológica ou pragmatismo filosófico é a poiesis: produto pelo produto. Falta práxis: trabalho com sentido! O “para quem” fazemos é a direção do trabalho, o que significa e resignifica nosso “obrar”. O Próximo, como categoria absoluta e última da Mensagem encarnada, da ética comunitária, é o sentido de nosso trabalho. Não fazemos para nada, mas para alguém: para o rosto que estiver em nossa frente, para a voz que nos bagunçar, que nos chamar para uma conversa, para o diálogo.

5. Diálogo: conversa entre dois

Por fim, conversamos. Não para convencer ou conquistar, mas para ouvir e servir. Uma das dinâmicas nos obrigava a ouvir atentamente o Próximo e nos direcionarmos a ele em nossas respostas: ou a um ou a Outro, nunca a ninguém ou a todos. Isso nos obrigava a conversar não para convencer, mas para enviar mensagens, sem nos escondermos na multidão e, menos ainda, sem pensar muito bem o que falaríamos. Somos responsáveis por nossa voz, não pelo ouvido do Outro.

Fomos obrigados a inverter: normalmente queremos ouvir nossa voz e ver as ações dos Outros. Desta vez, tivemos que ouvir a voz do Próximo e ver o que nós fazíamos. Tivemos que respirar, abaixar os olhos, escutar. Nos apaixonamos pelas diferentes histórias, sofremos dores uns dos outros como se fôssemos um corpo só. Fomos comunidade, fomos Igreja, fomos Corpo de Cristo. Abrimos janelas e deixamos o Espírito soprar. Aliás, Espírito é o pneuma (vento, ar) e o ruah (ar que entra e sai dos pulmões). Espírito é o que soprou no nosso meio, que encheu nossos pulmões, que saiu de nossos pulmões. A voz compartilhada, o ar movimentado, que silenciosamente preencheu a vida de todos: o mesmo ar que os diferentes respiraram. Ar que nos fez unidade, não uniformidade…

Carta escrita a 100 mãos no Tachlis 2015: http://betesda.com.br/ministerios/tachlis/tachlis-2015/?redirect=no

Bruno Reikdal Lima

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