O Hegel escondido em Rubem Alves

rubem-alvesEm Ecce Homo, Nietzsche diz que só criticamos quem está ao alcance dos nossos olhos ou acima de nós. Rubem  Alves, nietzscheano declarado e convicto, abriria um sorriso por causa dessa malandragem. Citar Nietzsche para criticar um nietzscheano lançando mão de uma certa ironia e falsa modéstia – ainda mais de um moleque que nem eu -, seria para ele, no mínimo, divertido. A ideia desse texto é fazer uma crítica a Rubem Alves – a grande fonte das teologias críticas contemporâneas, inclusive à minha -, não a suas obras de pedagogia, poesia, contos, etc, mas à filosofia que corre por trás de sua tese  Por uma teologia da libertação (batizada posteriormente de Da Esperança)

Na tese, Rubem Alves faz um apanhado filosófico sensacional para apresentar a “pedra fundamental” de uma teologia do futuro (ou para o futuro): a liberdade. O bem ou o motor último das produções humanas seria a liberdade. Por isso pretende uma teologia da libertação. “Libertar”, aqui, tem um sentido bem estrito: desenvolver a liberdade. É importante esse comentário porque o sentido de libertação em Rubem Alves é diferente da proposta pela Teologia da Libertação Latino-americana – que inclusive é filha de sua própria tese. A “libertação” em Alves é um exercício da história da humanidade em busca da liberdade, enquanto que a da Teologia da Libertação é da história de um sujeito único e específico (o pobre) na luta contra estruturas e sistemas opressores (que sempre existirão: nunca mais leves e brandos, apenas diferentes).

Nesse comentário já dá para retirar a crítica que desejo fazer: Rubem Alves traz consigo um “Hegel escondido”. Na obra ele não cita Hegel e nem declara que o utiliza. Porém, o movimento do texto, o método utilizado e o significado dos conceitos apresentam claramente a dialética hegeliana clássica em ação. E daí? Bem, Hegel desenvolve sua filosofia da história como sendo o movimento do “Espírito” que vai negando a “carnalidade” (ele não utiliza esse termo) que – tendo “carne” como contrário de “Espírito” – é sua própria negação, até plenamente consumar a História. A consumação plena do Espírito na História seria o “reino de liberdade”. Esse é o movimento dialético de Hegel (dum jeito bem resumido e tosco). Para ele o sujeito da história é o Espírito, que encontra no homem sua porta de entrada. Espírito sem rosto, sem cara, sem carne… Espírito que enxerga o mundo como uma totalidade, como parte de si mesmo, nunca como Outro, nunca como Próximo.

Aí que está o problema! Não há “Outro”, não há Próximo, não há alteridade. O sujeito-histórico é destinado à liberdade, ou tem vocação à liberdade, mas, para isso, precisa se render ao “Espírito”. Mas, calma, um passo de cada vez. De onde tirei esse “Hegel escondido” em Rubem Alves? Sigamos os títulos de seus capítulos: 1. “Em busca da liberdade”; 2. “A vocação para a liberdade”; 3. “O caráter histórico da liberdade”; 4. “A dialética da liberdade”; 5. “A dádiva da liberdade: a liberdade para a vida” e, por fim, 6. “A teologia como linguagem da liberdade”. A liberdade, a vocação para a liberdade, a história da liberdade e/ou a liberdade como motor da história, dialética, liberdade para a vida e a teologia como sua expressão.

A contribuição maravilhosa de Rubem Alves ao utilizar o movimento hegeliano em sua teologia é trazer a relação religiosa, a experiência de fé, para a história – e isso é fundamental! O homem é sujeito-histórico, sujeito da e na História, agente, não passivo. Isso abre caminhos contra determinismos, predestinações, relações distantes e impessoais com Deus. Isso tira da teologia seu caráter atemporal, sublime e divinamente produzido para uma relação concreta, histórica, dependente e sofredora de seu próprio tempo. A teologia e os humanos não são mais distanciados da história, mas produtores e construtores da mesma. Os sofrimentos, a opressão, as desigualdades e os problemas do mundo, assim, não são problemas de Deus ou suas determinações, mas construções humanas e o fim desses sistemas opressores dependem de nossa ação enquanto vocacionados à liberdade. Traz para nós responsabilidade como co-participantes da História e direcionamento para o futuro (tendo como bem último a própria liberdade).

Rubem Alves procurou trazer a responsabilidade da História para as mãos do sujeito-histórico – do homem -, mas foi insuficiente ao não dar rosto, ou melhor, não dar carne ao sujeito que precisa ser liberto. E aqui entra a crítica ao Hegel escondido. Rubem Alves segue a tradição filosófica alemã: nietzscheano, leitor de Marx e Heidegger . Todos eles trazem consigo algo em comum: Hegel. Todos eles trazem consigo uma característica: o Espírito, o algo em comum e genérico que participa de todos os verdadeiramente humanos. Um método padronizado: um sistema dialético fechado e totalizado em si mesmo, sem alteridade.

Proporemos libertação, mas quem precisa ser liberto? Ou melhor: liberdade para quem? E aqui tropeçam Hegel e Alves. Só tem “Espírito” movendo o mundo através de homens; não tem carne. Sua resposta é que a liberdade é movimento do Espírito, pelo Espírito e para o Espírito: a liberdade por ela mesma, não para alguém. No fundo, há uma crença de que é possível a liberdade “plena”, sem nenhum impedimento a ninguém, sem sistemas, com a consumação da História pelo Espírito. Para quem é a liberdade? Aí está a insuficiência. Não tem Outro além do homem, não tem Próximo além da humanidade, não tem alteridade além do Espírito e além da História.

Hegel e a filosofia clássica tratam a humanidade como um corpo único que tem algo em comum: é a porta do Espírito. Mas, se a porta está fechada ou se não consideramos que haja uma porta em determinado indivíduo, será ele humano? Para Hegel, são descompassos, negações do Espírito que precisam ser negadas. Ou seja: para fazer plenamente parte da humanidade livre, precisa primeiro se tornar humano igual a nós. Nós quem? Aqueles que aderiram a cultura do Espírito (a filosofia alemã, a política europeia, a etiqueta, os ideais, valores, etc). Por isso era necessário esclarecer os outros povos bárbaros: precisam aprender os conceitos elevados do Espírito para assim se libertar. Engels, o brodinho do Marx, seguindo este ideal hegeliano, escreve que os países do “terceiro mundo” precisavam esperar a revolução burguesa igual à europeia, pois ainda não estavam preparados para o próximo passo da liberdade. Não poderiam fazer revolução e se tornarem independentes (não mais colônias europeias), pois não tinham “maturidade espiritual”. Que os sujeitos, os indivíduos, as carnes desse “outro mundo” morram à espera de gente mais preparada.

Está aí! Este é o ponto: o “terceiro mundo”, o “Outro mundo”. Para a filosofia de Hegel, para a liberdade e a libertação que Rubem Alves tomará em sua teologia, primeiro precisa tudo ficar “igual”, planificado, para depois o passo da libertação ocorrer. Primeiro precisa virar alemão para depois se tornar humano. Humanidade nessa filosofia não tem rosto, ou melhor, tem o rosto daquele que fala: ele é o crivo de humanidade. Rubem Alves não percebe ou não tinha intenção de promover essa estrutura, mas a mantém. Na busca por liberdade, apenas alguns são vocacionados e, no movimento dialético e histórico da liberdade, os que ainda não são vocacionados serão descartados. Tudo porque, no fim, acredita-se ser possível um mundo pleno (a expressão de Kant, inspirador de Hegel, “a paz perpétua”). O sujeito-histórico não tem Outro rosto além do rosto daquele que fala, daquele que propõe essa tal liberdade.

Sem alteridade, o sistema se fecha, se totaliza, e as “perdas” são contabilizadas como necessárias ao movimento de libertação – que no fundo é um movimento de conquista. Primeiro se converte o Outro em um igual à nós e, depois, o libertamos – ou melhor, ele, com isso, se libertará, estará livre. Tornar-se como nós seria o movimento de liberdade e libertação. Tudo sem Outro rosto, sem carne.

Para finalizar, proponho, então uma tentativa de alternativa a que rompa com esse sistema: o rosto do Outro. A filosofia de Emmanuel Levinás e de Enrique Dussel, a teologia de Jung Mo Sung, José Comblin, Carlos Mesters e do próprio Dussel, também, estabelecem a transcendência do Próximo como paradigma, como princípio absoluto: o Outro não é parte de mim mesmo, e ele deve ser liberto das garras de um sistema, de uma estrutura… Das minhas próprias mãos. A libertação não é da humanidade sem rosto, mas do Próximo à minha frente. Libertação de sua situação concreta e material, dentro de nossa comunidade, de nossa rua, nossa casa, nossos problemas comuns. Libertação da situação em que eu mesmo o coloco. Sou eu o responsável material e carnal pela materialidade do Outro, do Próximo,que é absolutamente Outro. Não posso dominá-lo, determiná-lo, sistematizá-lo. Ele é Outro, além de mim Mesmo…

Nisso, inclusive, não procuramos atingir um mundo de liberdade, a liberdade “plena”. O horizonte utópico é factível: se encontra no rosto do Outro, na relação entre Eu e o Próximo. Alteridade também na relação com Deus, que é refúgio além de nós dois, mediador de nossa relação e fundamento do “não matarás” e do “sou responsável-guardador do meu irmão”. Alteridade que atravessa o sistema com o “ame o Próximo como a si mesmo”: o Próximo! Liberdade que é limitada àquela situação, àquela relação. Não é para sempre, definitivo: mas para a eternidade, trabalho constante. O alerta de Deus para não sermos iguais à Ele é seu desejo por relação com o Outro (nós enquanto diferentes Dele e diferentes entre nós mesmos – Paraíso e Babel). Seu desejo é que “sejamos Santos (separados e à serviço) como Ele é Santo (separado e à serviço)”.

Criticar a teologia na tese de Rubem Alves não é tirar a validade de sua proposta. Bem em outro sentido, é tentar atravessá-la: no meio dela encontrar Outro rosto, transcendência. A crítica é pontual à tese, no desejo de trilharmos novos rumos e nossos rumos. Sou seu leitor e admirador. Gostaria de ter podido fazer essa critica pessoalmente, render uma conversa, ver onde eu mesmo errei na minha análise. Quem sabe um dia?…

Bruno Reikdal Lima

as

as

Anúncios

Um comentário sobre “O Hegel escondido em Rubem Alves

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s