A República Moderna não dá conta

Map-words-05Recentemente caiu no meu colo um texto que dizia que “somos democráticos, mas nos falta ser republicanos”. Li e achei estranho. Algo não estava no lugar certo. República, na tradução/definição que lemos constantemente, tem origem latina: Res (coisa) Pública (dos comuns, de todos). Mais a frente, apresentarei uma definição mais profunda. Mas o negócio é que ontem durante a aula de Pensamento Político Brasileiro, conversávamos sobre processos políticos, efetivos e teóricos, que se passaram na transformação de Império à República no Brasil e, nas trocas de ideia, foi apresentado um paradoxo: no Brasil Império havia mais representação do que na primeira República e, mais estranho ainda, havia mais representatividade do que nas repúblicas modernas europeias. Como isso é possível? República ser menos “pública” do que o Império?

O professor Rodrigo Estramanho nos explicava que na construção de nosso pensamento político era trabalhada a forma república, o funcionamento do Estado, mas não a representação e, em resposta a perguntas nossas, comentou “não achem estranho; não necessariamente república e democracia, representação, estão unidas…”. A partir desse comentário entendi o problema do texto que tinha caído no meu colo um dia: não trabalhamos os pressupostos e as estruturas da república moderna; apenas recebemos uma proposta e aderimos, sem criticamente termos exercido o trabalho de refutar suas bases; de entendermos seu sentido, significado – em que sistema significativo de justificação ela se encaixa.

Nossa necessidade política, que inclusive tem animado certas manifestações e posicionamentos, exige maior representação e democracia. Muitos textos e críticas falam da “crise da representatividade”. Mas o que está em crise não é a representatividade, pois ela não foi trabalhada e nem base da construção da proposta de república moderna. O que tem aparecido é uma nova demanda, nova necessidade: a representação precisa ser exercida, trabalhada e pensado. A questão é que o sistema em que a república moderna foi forjada não suporta e não dá conta das exigências e necessidades de democracia e representação. Este texto procurará rabiscar esse tema.

O sobrenome “moderna” para a república deveria chamar nossa atenção: ela deve ser entendida como parte de um sistema maior – de um “marco categorial”, como fala Hinkelamert. A república moderna nasce, cresce e se desenvolve no movimento de “ilustração” europeu, “Iluminismo”, que seguirá para a complexificação da própria filosofia moderna (Maquiavel, Descartes, Hobbes, Kant, Hegel…). Que diferença isso faz? Implica em entendermos que valores de liberdade, racionalidade, igualdade, o desenvolvimento científico e o capitalismo emergente são parte do chão republicano. Deste chão, no movimento de “ilustração”, a racionalidade é pedra fundamental. Os demais valores e processos dependem de seu fortalecimento: liberdade depende do desenvolvimento racional e é resultado dele; somos iguais enquanto racionais, pelo fato de possuirmos razão; desenvolvimento científico é exercício prático da faculdade da razão e, por fim, o capitalismo é a economia que privilegia os “capazes de manipular o mundo”, de usufruir da natureza. Iluminar, esclarecer, é tornar fazer com que todos sigamos determinados parâmetros teóricos. República é organização política dentro desse sistema…

Como é possível haver esse aparente paradoxo de ao nos tornarmos republicanos, diminuímos a representatividade? Como é possível serem instauradas várias repúblicas modernas sem se pensar em democracia e representação? Dentro do sistema moderno, da produção iluminista, encontremos respostas:

Kant – curiosamente em um texto chamado “O que é Aufklärung?”, que é traduzido por “esclarecimento” ou “iluminação” – faz uma distinção entre o uso privado e o uso público da razão. O uso público da razão é o uso livre e capaz de trazer o esclarecimento entre os homens: é a ação de um acadêmico (intelectual detentor de luz) frente a seus leitores (que buscam ser esclarecidos). Já o uso privado é restrito, aquele que uma pessoa faz quando está em um cargo ou posto civil específico (?). Hã?! O uso público é “individual e subjetivo”, enquanto que o uso privado se dá no exercício de um cargo determinado. É invertido do modo que nós, como latino-americanos, desejamos a política! Por isso não se encaixa. Mas sigamos com calma…

Ficam claras algumas bases que precisam ser trabalhadas: o sujeito, a coisa pública e o exercício político. O sujeito moderno que aparece aqui, em Kant, tem uma separação clara: sua “razão” está separada de sua atuação, de sua vida prática. O que ele tem em comum com outros homens não é a terra, bens, casa, rua ou bairro; o que há de comum é a razão, o pensar superior. A coisa pública primeira e fundamental é a razão, que, trabalhada no esclarecimento, sendo um mais esclarecido que outros, pode no processo de educação compulsória igualar a todos os demais em determinado momento supremo. O exemplo de Kant como acadêmico ensinando os demais apresenta essa porta: somos racionais, mas uns estão mais esclarecidos que outros. Para participarmos igualmente da coisa pública, é necessário que os “menores” aprendam com os mais instruídos, que já atingiram a “maioridade intelectual” (essa é uma famosa proposta kantiana). Continuar lendo

Anúncios

O Outro não se manifesta: o Outro se revela

levinas1Escrevi Para ler Emmanuel Lévinas com o intuito de apresentar uma chave de leitura de seus textos. Tentei montar, de maneira um tanto limitada, um instrumento de interpretação que facilitasse a leitura e sistematização de sua obra. Percebi, porém, devido a conversas e estudos, a necessidade de também esboçar o “tema” central de sua filosofia: o problema por ele trabalhado. Esse exercício é importante para trabalharmos o conceito de sujeito e as relações entre sujeitos. Como escrevi em posts recentes apresentando uma proposta de Jung Mo Sung: o sujeito está para além de seus papéis sociais

Emmanuel Lévinas, judeu nascido na lituânia e naturalizado francês, foi aluno de Husserl e Heidegger. Foi o primeiro francês a mergulhar na corrente filosófica nascente chamada “fenomenologia”. A abrangência e densidade dessa escolaa é imensa. Porém, tanto para facilitar o andamento do texto quanto para delimitar bem o ponto central da proposta levinasiana, façamos um recorte generalista. Lévinas aprende com Husserl o problema do sentido: uma reflexão profunda sobre o conhecimento e a relação entre o sentir (a sensibilidade) e a constituição do que conhecemos.

Lévinas descobre que constituímos sentido em relação aos objetos do mundo. Aquilo que “aparece”, que se manifesta à mim no mundo, se manifesta enquanto objeto, como sendo objeto. Parede, mesa, pedra, casa, celular, gente… Gente? Da relação pessoal, não com objetos, mas com pessoas, com sujeitos, como constituo o sentido do Outro? Aqui encontramos o tema e o problema levinasiano: conheço o que se manifesta, o objeto com sentido, mas o Outro também é e se manifesta como objeto?

O que vejo do Outro e que se manifesta como objeto – seu cabelo, olhos, pele, roupa, etc – não é subjetivo, não se apresenta como sujeito. Entretanto, há no Outro e em relação com o Outro uma experiência profunda, além da objetivação, além daquilo que é e está sendo manifesto. O Outro excede aquilo que é. O que vejo, o que sinto, o que me possibilita constitui-lo como objeto, ainda assim, não é o Outro. Ele está além “dos meus olhos”, além do horizonte que minha vista alcança. Lévinas introduz, assim, um novo marco categorial: o Outro, enquanto sujeito, não se manifesta, mas se revela enquanto Outro. Continuar lendo

Crítica teológica é uma crítica política

oprimido1Esta proposta não é minha, é de Marx. O caminho para a crítica à religião passa por um processo de crítica teológica (método que não é seguido pelos marxistas de hoje que simplesmente abandonam o discurso religioso, perdendo a possibilidade e oportunidade de diálogo com comunidades inteiras) para, em seguida, Marx produzir a crítica política e econômica do capitalismo. Aliás, é percebendo esse método que Slavoj Zizek se mete em teologia: como instrumento crítico e ferramenta hermenêutica para a produção de sua filosofia, diz não podemos esquecer que “toda política tem um fundamento teológico, e toda teologia tem uma função política”

Esse texto, entretanto, não fará uma crítica teológica ou à uma teologia. Mas fará, sim, uma autocrítica comunitária ao uso da teologia. O modo como utilizamos a teologia é um exercício prático, não individual-pessoal, mas público e em relação a outros. O fazer teológico não é trabalho privado; é obra pública, a ser entregue para outros, nas relações comunitárias. Diferentemente do escudo que utilizamos – religião (e teologia) são do âmbito privado (tendo essa palavra um sentido bem estrito: individual, propriedade minha e exclusiva) -, o fazer teológico é intersubjetivo, comunitário, para alguém, para Outro. Se não tomarmos isso como princípio, significa que escolhemos como fundamento e sentido a construção de um sistema teológico fechado, que exclui todos os Outros que não pertencem a ele. Teologia exclusiva, exclusivista, segregacionista. Essa já é a primeira autocrítica.

Mais especificamente, esse texto tem como proposta incômoda criticar minha própria geração teológica – teólogos ou religiosos que se prestam a contribuir com o pensamento teológico de maneira crítica; sendo tanto da mesma “escola” ou da mesma “geração” que eu. Entendo que o exercício de autocrítica não é individual, mas comunitário, intersubjetivo. Somos em nossas relações e por causa delas. Assim, tenho consciência de que nós que somos de uma mesma geração teológica tenhamos inspirações, estruturas e sistemas compartilhados, que se conectam de algum modo.

Certo movimento teológico evangélico-pentecostal nasceu na década passada como crítica ao que foi denominado “fundamentalismo” e “tradição protestante”. Esse movimento urge frente aos sofrimentos concretos e cotidianos da vida, que nos puseram em crise e que não encontraram voz no antigo sistema. Por outro lado, a completa falta de fundamento e organização de processos neopentecostais que abriram mão completamente de teologia estruturada também não eram suficientes para dar respostas e caminhos. Tomamos consciência de que não eramos nem isso e nem aquilo. Entretanto, não nos colocamos – ainda – em posição firme e fundamentada. Apenas apontamos para aquilo que não somos. Não temos consciência crítica e construtiva amadurecida para firmar nossos passos. Constatar isso, entretanto, não pode nos paralisar. Ao contrário, deveria nos convocar ao batente, nos chamar ao crescimento, fazer com que saiamos de casa e deixemos de ser birrentos.

O nascimento desse nosso movimento teológico (ainda sem nome) buscava dar voz aos que não tinham voz; tinha como inspiração a libertação de pessoas que estavam excluídas. A teologia, assim, seria via de acesso a uma nova comunidade, uma nova igreja, um novo modo de existir como religiosos. Parece que nos perdemos. Nosso uso da teologia tem se mostrado em outro percurso: de instrumento de libertação, transformou-se em arma de inquisição. Nosso modo de fazer e usar teologia não tem como objetivo resgatar o perdido, mas ferir quem se colocar à nossa frente, olhando no fundo dos nossos olhos. Continuar lendo

Conversa é mais que conquista

conquista-peru--644x362A descrição deste blog é: “falar é dar vida à relação: convidar àquele com quem falamos para entrar, enquanto nos colocamos na disposição do ‘eis-me aqui’. expressão é serviço. Expressar-se tem sentido enquanto trabalho para e pelo outro – pelo Próximo”. Pode parecer um monte de frases soltas ou um exercício poético bonito, com frases de efeito. Mas não; é uma crença prática, um exercício de práxis que precisa ser encarnado, vivido. O intuito desse texto é trabalharmos o sentido da discussão: para além da conquista, da vitória, a vida em comunidade

Na escola, na faculdade, na igreja, em casa… Aprendemos a “discutir”: provar e demonstrar que estamos certos enquanto derrotamos, vencemos e convertemos nossos adversários. O debate é uma arena, na qual dois gladiadores se mutilam para alcançar a “glória”: sair da condição de escravo, libertando-se de vitória em vitória às custas das mortes dos outros. Em Roma, os gladiadores que vencessem os grandes torneios se tornavam homens livres, cidadãos reconhecidos. A luta individual, por si mesmo, sua própria liberdade, era a força do braço que levantava o gladio, uma lança ou um machado. Transferimos as arenas para as conversas.

Mas nos libertamos de quê ao “vencermos uma discussão”? Aliás, discussões são para serem vencidas? A Mensagem verdadeira e boa é somente aquela que vence? Ou vence apenas a mais forte, mais ardilosa, maliciosa, violenta e conquistadora? Quais são os valores que guiam nossas falas? Para quê falamos?

Existe uma máxima que diz que “a história que fica é a dos vencedores”. Isso não significa que seja a verdadeira história. Contar histórias, falar, trabalhar verdades, sempre foi um exercício de ensino e aprendizagem. A língua, a transmissão da cultura pela conversa, dava identidade e estrutura para uma comunidade. Não se conversa para conquistar/vencer, mas para se tornar parte da comunidade, para aprender e ensinar, para incluir o Outro. Os pais ensinam filhos conversando para que estes compreendam o mundo dos pais, a comunidade em que entrarão, os problemas e as soluções que terão de enfrentar. Por isso muitas vezes, como nota o Mário Sérgio Cortella, a figura da “mãe é o último reduto da ética”. Como vou fazer determinada coisa se minha mãe me ensinou (falou) diferente?

Qual o sentido de conversarmos, de falarmos? Nascemos de um país conquistado, de um cultura colonizada, de gente que veio de fora destruindo nossa língua, identidade, cultura, educação para impor outra. Fomos conquistados por uma cultura que valorizava a conquista, a dominação. Lutamos por nossa liberdade, mas usando as mesmas armas de quem nos oprimiu: conquista, força, poder, dominação. Discutir, para nós, tem significado destruir o Outro para alcançar minha posição, minha salvação, minha cidadania, minha liberdade. Perdemos o sentido prático da conversa, tornando ela um exercício bélico, de guerra, disputa. Para romper com isso e transformar nossa prática, a pergunta que deveríamos fazer é “para quem falamos?”.

Mesmo na linguagem romântica, de amor, da relação entre duas pessoas que se amam, dizemos que ele ou ela “conquistou” o Outro. Nosso amor já é condicionado à conquista, à dominação: a fincar a bandeira, a cerca e tomar propriedade. Para quê falamos? Para conquistar; para pôr para fora o que temos “aqui dentro” e expandir nossos territórios. Tomamos as mentes e os corações em nossas mãos fazendo dos outros nossos escravos enquanto nós nos tornamos homens livres, cidadãos. Não! Falar não tem sentido enquanto exercício de conquista e dominação. Falar só tem sentido, direcionamento, se for à serviço do Outro, do Próximo, e não para acorrentá-lo. Continuar lendo

Metafísica como caminho para além do Sistema

babásSe tem uma coisa que estudar filosofia deixou bem claro na minha cabeça é que termos possuem diferentes significados dentro de diferentes sistemas. A pergunta “o que é metafísica?”, por exemplo, não encontra uma resposta; exige, por sua vez, que se saiba o “para quem”, o sentido que foi entregue ao termo dentro de qual objetivo. Para Aristóteles tem determinado significado, enquanto que no sistema cartesiano tem outro. Em Kant encontraremos um sentido diferente, para Kierkegaard ainda outro e para Lévinas, por exemplo, um sentido absurdamente avesso aos anteriores

No fim, este post é fruto de um incômodo: recentemente li textos que rechaçam a “generalização de “metafísica” como sendo um problema, um “mal do mundo” que nos atrapalha a pensar, crer, etc. Para mim, no modo como organizo o sistema significativo de justificação que tenho construído (minha filosofia), metafísica é um termo muito caro e, por isso, pretendo apresentar e trabalhar seu uso e significado dentro de determinada proposta filosófica (com implicações teológicas e políticas). Diga-se de passagem que não são “ideias minhas”, mas leituras e interpretações feitas das propostas de Emmanuel Lévinas, Jung Mo Sung e Enrique Dussel. No fim do texto indico obras úteis destes autores para a construção do termo “metafísica”.

Lévinas diz que a Ética é Metafísica, e que Ética é a filosofia primeira. Assim, em um apontamento bem específico, filosofia é metafísica, tem base metafísica. A questão que se põe é “o que é que ele quer dizer com isso?”. Não é simples, menos ainda “resumível”. Mas podemos indicar e trabalhar certo tipo de estrutura fundamental do pensamento levinasiano: a relação com o Outro, que é sempre absolutamente Outro. Em um texto muito bacana chamado “O eu e a totalidade”, Lévinas lê o “penso, logo existo” de Descartes de modo inovador: ele só pode chegar a este cogito enquanto se relacionava com a exterioridade, aquilo que era separado dele. O “eu” era uma totalidade, fechado em si, separado do havia “lá fora”, que não estava a princípio sob seu controle, mas lhe era estranho, diferente. Para além da totalidade, há o “infinito”: inseguro, incontrolável, absolutamente separado e não-eu. Para além da totalidade do Eu, está o Outro, que não é o Mesmo que Eu, mas diferente, absolutamente Outro.

Lévinas retoma uma fórmula metafísica de Platão: “O Bem além do Ser”. Assim, critica a ontologia de Heidegger, mostrando que esta é um sistema fechado em si mesmo – o ser consigo e que se desdobra e se encontra, sem possibilidade do “além”, do extra, do metafísico -, que a tudo reduz e abarca, inclusive o Outro sujeito. O Outro, outra pessoa, com quem me encontro no face-a-face, não é o Mesmo que eu, o Mesmo que o ser, que uma totalidade fechada, mas diferente: está para além de mim, além do sistema, além de minha apreensão, compreensão… Além do ser, além da ontologia. O Outro é a base metafísica! O Bem além do ser. O Outro não pode ser reduzido ao Mesmo, pois é Outro sujeito, está para além. Reduzi-lo é, na verdade, romper a relação, não tratar o Outro, o Próximo, como Outro e como Próximo, mas como parte de mim, do meu sistema, minha propriedade. É escraviza-lo, deturpá-lo, destruí-lo. É corromper, ser anti-ético. A filosofia é, a e por princípio, a Ética, a relação com o Outro, tem sentido enquanto relação com o Outro. É, por isso, Metafísica: o Outro, o Bem, além do ser, de mim…

Enrique Dussel lê Lévinas e transfere essa estrutura para uma organização sistêmica ético-política: nas relações entre sistema e sujeito excluído. Não apenas na relação eu e o Outro, mas sistema político-econômico e a vítima: a pessoa viva, carne e osso, excluída e não vista pelo e dentro do sistema. Exclusão política, econômica e social. O excluído está e é para além do sistema. Assim, a luta pela vítima, em favor dela, é uma luta que depende de uma estrutura metafísica: na percepção e crença de que há para além de nossa ordem e de nosso sistema, o Outro, o excluído, e ele deve ser o fundamento do movimento e dos processos de libertação. Romper com a escravidão, servidão, morte, destruição, deve começar e partir do Excluído, do metafísico, do além-do-sistema.

Já a partir dessa estrutura sistêmica em sociedade, político-social, Jung Mo Sung faz um exercício metafísico muito profundo no trabalho de fundamentação de “quem é o sujeito de libertação”: diferencia ator social de sujeito. O ator social é o papel exercido cotidianamente por um indivíduo. Entretanto, este indivíduo é mais e está para além de seus papéis sociais. Ele não é “gari”, “pobre”, “mestiço”, “evangélico”, “pai”, “voluntário”, “jogador do time do bairro”, etc. Ele exerce todos os papéis, mas é mais que isso: é sujeito que está para além de suas funções sistêmicas e que deve ser percebido como tal. Tem nome, história, crenças, vidas, estruturas de opressão e lutas de libertação que o constituem enquanto vivente, reprodutor de vida e transformador da história. Este “mais”, para além do ator social, é o sujeito. É metafísico – o que não impede que seja concreto, encarnado e real. Continuar lendo

Epístola aos Brasileiros

criança_muitasbocasnotrombone2Sou religioso. Cristão, batizado e engajado em minha comunidade. Tenho consciência de que no que diz respeito às leis de um Estado, elas devem ser laicas e me posiciono politicamente dessa forma no espaço público extra-comunitário. Esse texto, entretanto, não se dirige a este espaço, mas à comunidade restrita: é um texto de fé  direcionado para meus irmãos de fé. Não argumento com o mundo todo, mas clamo e interpelo os irmãos em Cristo para que fiquem atentos a esta mensagem, para que ouçam a voz de Deus e, por fim, apelo para que se lembrem de seu encontro pessoal com Jesus Cristo, nosso Senhor

Irmãos e irmãs, será que nos esquecemos de quem éramos antes de nos encontrarmos com Cristo? Será que cremos que foi por nosso mérito, força própria, sozinhos e solitários, que nos achegamos a Ele? Será que não nos lembramos mais que dependemos de uma comunidade, de gente que nos ensinou a Mensagem e nos guiou enquanto estávamos perdidos? Nos esquecemos de vez que não vem de nossos próprios méritos o encontro de fé com Jesus, mas é de Graça e pela Graça?Houve quem quisesse nos atrapalhar? Porque é, então, que hoje desejamos destruir a vida do perdido? Porque desejamos desviar o pequeno? Porque nos colocamos com indiferença, como pedras de tropeço, na vida dos pequeninos?

Parece que nos esquecemos de nosso encontro com Jesus Cristo. Somos diferentes quanto a doutrinas, teologias e tradições, mas uma coisa nos une: a experiência profunda, fundamental, salvífica e transformadora com Jesus. Essa nos torna irmãos, de uma mesma comunidade. Parece que nos esquecemos que éramos como ovelhas perdidas, que estávamos desgarrados e sozinhos. Parece nos esquecemos que não andávamos nos melhores dos caminhos, aliás, que só mudamos de direção quando encontramos o Caminho.

Em Mateus 15: 18-19, depois de contestar a acusação dos fariseus, Jesus diz “o que sai da boca vem do coração, e é isso que faz com que a pessoa fique impura. Porque é do coração que vem os pensamentos maus, os crimes de morte, os adultérios, as imoralidades, os roubos, as mentiras  e as calúnias”. Hoje, peço que olhemos o que tem saído de nossa boca para que examinemos, como Paulo nos adverte antes de tomarmos a ceia, o nosso coração. Não pode sair da mesma boca o amor a Jesus e uma ordem de morte. Não pode sair do mesmo coração o desejo por salvação e o desejo por vingança. Será que fomos influenciados pelo fermento dos fariseus? Será que ainda cremos que fomos nós que enchemos as cestas com pães e peixes para alimentar multidões? Estejamos alertas para os ensinamentos que não são de Cristo (Mateus 16).

Temos responsabilidade pela vida uns dos outros. Temos responsabilidade pela vida dos perdidos. Não é por nossas vidas que seremos cobrados, mas pelas vidas que destruímos, pelos que condenamos: se guiamos as ovelhas para o bom caminho ou se impedimos que elas se achegassem ao Pastor.

Certa vez, os discípulos foram chamados para expulsar o demônio de um menino, um moleque, e não conseguiram (Mateus 17). O pai do menino foi até Jesus desesperado e contou que os discípulos eram incapazes de expulsar  o demônio. Jesus advertiu os discípulos respondendo: “gente má sem fé! Até quando ficarei com vocês? Até quando terei que aguentá-los? Tragam o menino!” – hoje, talvez ele esteja gritando o mesmo! O demônio foi expulso por Jesus, e os discípulos queriam saber o porque não  eram capazes de fazer o mesmo. Jesus disse: “Foi porque vocês não têm bastante fé. Eu afirmo a vocês que isto é verdade: se vocês tivessem fé, mesmo que fosse do tamanho de um grão de mostarda, poderiam mover montanhas […] Esse tipo de demônio só pode ser expulso com oração e jejum”. Hoje conseguimos dar gritos em nossas comunidades, expulsamos com palavras “espíritos” de objetos e destruímos coisas crendo estar salvando vida de pessoas. Para isso tem sido necessário fé? Muita fé? Fé de verdade? Existe um demônio muito maior que não temos sido capazes de expulsar. Invisível, gigante e assustador: a situação político-social de nosso país! Ela exige fé para mover montanhas, ela exige oração e jejum. Ela tem produzido meninos, moleques, pequenos que precisam ser salvos, libertos, e estão morrendo nas nossas mãos. Pior! Ao invés de expulsar esse demônio gigante, desejamos matar os meninos! Assassinar gente porque nossa fé é medíocre, anti-Jesus, anti-Cristo!

“Foi porque vocês não tem bastante fé”. Temos que nos envolver com política, sempre com cautela e cuidado para que não percamos nosso coração e para que o fermento dos fariseus não nos encha. Mas temos que nos envolver.  Entretanto, não podemos perder de vista que não nos envolvemos mais como qualquer outro cidadão: somos hoje cidadãos, em primeiro lugar, do Reino! E isso requer de nós que nos posicionemos de acordo com nosso encontro com Cristo. Não as doutrinas, nem as tradições e teologias, pois estas divergem, mas de acordo com aquilo que nos é comum e nos faz irmãos: Jesus, a experiência de fé com Cristo. Olhando para nosso coração, para o que sai da nossa boca, lembrando de quem eramos e quem somos hoje, com temor pela Palavra de Deus e por Jesus, qual a nossa resposta à diminuição da maioridade penal? Em nome de Jesus e de nossa fé, porque desejamos isso?

Quando os discípulos discutiam quem era o mais importante no Reino dos Céus, Jesus chamou um moleque, ma criança, colocou na frente deles e disse que deveríamos nós mudarmos de vida para nos parecermos com eles, nos fazermos como criança, como moleque para podermos entrar no Reino. Aquele que, por ser seguidor de Jesus, em suas palavras, receber os pequenos, estará recebendo o próprio Cristo! O capítulo de Mateus 18! Nos esquecemos dele? Nos esquecemos da Mensagem? De Jesus? A partir do versículo 6, Jesus diz:

“Quanto a estes pequenos que vivem em mim, se alguém for culpado de um deles me abandonar, seria melhor que tivesse amarrado uma pedra no pescoço e se jogado no fundo do mar! Ai do mundo por causa das coisas que fazem com que os pequenos me abandonem! […] Cuidado, não desprezem nenhum destes pequenos! Eu afirmo a vocês que os anjos deles estão sempre na presença do meu Pai, que está no céu. Porque o Filho do Homem veio para salvar o que está perdido! O que é que vocês acham que um homem que tem cem ovelhas e uma delas se perde? Será que não deixa as noventa e nove pastando no monte e vai procurar a ovelha perdida? Eu afirmo que é verdade: quando ele a encontrar ficará muito mais contente por causa dessa ovelha do que pelas noventa e nove que não se perderam. Assim também o Pai que está nos céus não quer que nenhum dos pequenos se perca.”

Em nome de Jesus! Na Palavra de Deus, porque é que desejamos condenar pequenos? Porque é que desejamos vingança contra moleques que estão perdidos?Porque é que desejamos apagar o pavio que ainda fumega? Falta de fé? Nos contentamos com o mundo? Deixamos de ser do Reino? Nos enchemos do fermento maldito? É melhor nos amarrarmos e nos jogarmos no fundo do mar? Nos eximimos de nossa responsabilidade para com eles, responsabilidade não apenas legal, mas espiritual, de fé, como cristãos?

Irmãos e irmãs, apenas 0,01% da população jovem comete crimes violentos – de acordo com dados da Unicef. São a uma ovelha. Ao invés de irmos atrás dela para salva-la, estamos condenando as 100 para o abismo. Porque? Para não termos que ir à obra, para não termos que nos comprometer com nossa fé, com Cristo. Estamos abandonando a fé! Dos crimes no país, apenas 6% são cometidos por menores de idade. Apenas 6%! Porque é que desejamos jogá-los na cadeia? Porque é que desejamos sofrimento, mais violência, mais morte? Vingança? Mesquinhez? Desejamos lavar nossas mãos? Tirar a mão do arado e olhar para trás?

Cremos que ao serem jogados dentro de Fundações Casa eles não estão sendo punidos? É mesmo? Quantos de nós conhecemos uma casa dessas? Quantos de nós sabemos e temos certeza de que elas não tem cumprido com sua função educacional, abandonando o ECA e os direitos humanos? Lá jovens apanham, sofrem, são condenados, sim, e punidos violentamente. Ainda assim – mesmo com essa desgraça infeliz – 70% dos jovens é reabilitado e não ha reincidência criminal. O mesmo índice na cadeia cai, hoje, para 20%. Quem vai para o sistema penitenciário está condenado, tem pouquíssimas chances de abandonar o crime, de ser cuidado, tratado, respeitado, transformado.

Mas que coração de pedra temos para olhar para um pequeno, um moleque, uma menina de 16 anos e ficarmos em paz sabendo que serão trancafiadas numa cela com criminosos mais velhos, doentes, violentos, já desumanizados por tanta desgraça, dor, podridão, infelicidade e opressão demoníaca de nosso sistema político-social, nossas relações econômicas e desigualdades infernais, para dormirem juntos dentro de quatro paredes fechadas, superlotadas, em condições sub-humanas e degradantes? Vamos deitar na cama e dormir bem com o sentimento de missão cumprida? Que Deus nos encha de pesadelos com salas escuras! Que Deus nos perturbe o sono colocando desespero no nosso coração, claustrofobia, que nos vejamos no meio de sombras com olhos desejantes e maliciosos, trancados entre paredes de concreto, grades de ferro, sem saída. Já é uma maldição essa nossa postura.

Que inferno! É esse nosso desejo como cristãos? Como seguidores de Cristo? Como responsáveis por crianças? Falta de fé! E se nossos olhos ainda estão cheios de cinismo, condenados para eternidade nós estamos. Falta de temor a Deus. Nossos corações estão imundos! Neles está a violência, os crimes de morte, a imoralidade! Estamos envolvidos e participantes desse mundo não mais como sal e luz, mas como engrenagens do sistema demoníacos do qual fazemos parte. Que Deus nos perdoe… Me desespero, porque não posso lavar as mãos. Somos irmãos! É responsabilidade nossa, minha e tua, tanto pela vida uns dos outros como comunidade de fé, quanto pela vida de crianças – pelo amor de Deus!

Nossa luta não é contra carne ou sangue, mas contra os poderosos e governadores do mal. Eles são maus, são demoníacos e estão produzindo mais inferno nesse mundo. Como cidadãos do Reino não podemos permitir. Nossa luta é contra eles. É contra esse sistema invisível. É contra essa ordem diabólica que oprime crianças, que as lança no fogo, na morte, na violência, no crime. É essa nossa luta, não contra as ovelhas, contra as crianças. E esse demônio para ser expulso do menino, do pequeno, do moleque, requer muita fé. Requer, nas palavras de Jesus, muito jejum e oração. E que jejum e oração é este? Isaías 58: 3 – 10:

“As pessoas perguntam a Deus: De que adianta jejuar se você nem nota? Para que passar fome se não se importa com isso? O Senhor responde: A verdade é que nos dias de jejum vocês cuidam dos seus negócios e exploram seus empregados. Vocês passam os dias de jejum discutindo e brigando e chegam a bater uns nos outros. Será que vocês pensam que quando jejuarem assim eu vou ouvir suas orações? O que é que eu quero que vocês façam? Será que meu desejo é que passem fome, que se curvem como um bambu, que vistam roupas velhas e se deitem em cinzas? É isso que vocês chamam de jejum? Acham que isso me agrada? Não! Não é esse o jejum que quero! Eu quero que libertem os que são presos injustamente, que tirem de cima deles o peso que os faz sofrer, que ponham em liberdade ps que estão sendo oprimidos, que acabem com todo tipo de escravidão. O jejum que me agrada é que vocês repartam a sua comida com os famintos, que recebam em casa os pobres que estão desabrigados, que dêem roupas aos que não têm e que nunca deixem de socorrer seus familiares. Então a luz da minha salvação brilhará como o sol e logo vocês ficarão curados. O Senhor os guiará, e a presença de Deus os protegerá por todos os lados. Quando gritarem pedindo socorro, eu os atenderei; pedirão a minha ajuda e eu direi: ‘Eu estou aqui’. Se acabarem com todo tipo de exploração, com todas as ameaças e xingamentos; se derem de comer aos famintos e socorrerem os necessitados, a luz da minha salvação brilhará e a escuridão em que vocês vivem ficará igual à luz do meio-dia”.

Que Deus nos abençoe, que Deus nos perdoe. Examine teu coração. Qual teu desejo? Porque desejamos isso? Que Jesus Cristo guie teus pensamentos e tuas ações. Que não percamos nosso coração, nem nossa fé. Que lutemos o bom combate. Sejamos fortes e fiéis. Peçamos perdão por nossos pecados. É tempo de nos arrependermos e mudarmos nossos caminhos!

Que a graça e o amor do nosso Senhor Jesus Cristo, que as bênçãos do Pai e as consolações do Espírito Santo de Deus estejam conosco, hoje e sempre.

Amém.

Bruno Reikdal Lima

O sujeito na pedagogia de Paulo Freire

“[É necessário] Criticar a arrogância, o autoritarismo de intelectuais de esquerda ou de direita – no fundo, da mesma forma reacionários – que se julgam proprietários: os primeiros do saber revolucionário, os segundos do saber conservador; criticar o comportamento de universitários que pretendem conscientizar trabalhadores rurais e urbanos sem com eles se conscientizar também; […] buscam  impor a superioridade de seu saber acadêmico às massas ‘incultas’.” – assim escreve Paulo Freire em Pedagogia da Esperança

O que está em crise (sendo criticado) não são o conhecimento acadêmico e a arrogância de intelectuais, apenas. No fundo, o que se passa é uma crítica a uma escola, a uma tradição pedagógica, a uma tradição de trabalho, produção e compartilhamento de experiências e conhecimento. Tradição esta que tem como base uma figura: o sujeito.

O termo “sujeito” tem sentido e significado encaixado em um sistema (sistema significativo de justificação), como parte da estrutura de determinada filosofia. Quando lemos a palavra “sujeito”, ela tem sentido dentro dessa estrutura filosófica que carregamos. O problema é que quando Freire fala do sujeito na/da educação, no processo de aprendizagem, não é o mesmo sujeito que o tradicional, não tem o mesmo significado que o solidificado e enraizado na filosofia por nós herdada – a moderna. E aqui entra o papel da filosofia e a tentativa desse texto: rascunhar o sentido de sujeito que Freire propõe.

Apesar de ter um diálogo profundo, produtivo, intenso e constante com filosofia, Freire não era filósofo. Assim, não fazia parte de seu trabalho sistematizar determinados conceitos em contraste com outras filosofias. Cabe aos leitores pós-freire caçar, traçar e descobrir esses conceitos (inovadores, transformadores). Daqui uns 200 anos ainda não teremos entendido a radicalidade e profundidade de suas propostas. Revolucionário em sentido muito mais intenso que “revolução copernicana”  na tradição de Kant. Inclusive, a crise que aparece no trecho citado no início deste texto está relacionada à tradição na qual Kant se insere: o sujeito moderno, a filosofia moderna.

Nessa tradição – que é rompida e superada na pedagogia de Freire – o sujeito tem sua fundação no “penso, logo existo”. Sua consciência (o paradigma da consciência) está apartada do mundo: uma coisa é “o que está lá fora”, outra é o que está “aqui dentro”. Solipsista, abstrato e abstrativo, o sujeito conhece para conquistar/dominar: a superioridade da consciência racional tem como característica o poder sobre o que está “abaixo”, o que está “lá fora”. O sujeito para poder ser sujeito por excelência, se conscientizar, precisa abandonar sua comunidade, sua cultura, sua tradição sua família: é o exercício cartesiano de duvidar de tudo, abandonar tudo em busca daquilo que é certo e seguro, daquilo que possibilita dominar, vencer, convencer. Para ser consciente, o sujeito é “acultural”, solipsista, solitário, sem comunidade, individualista, dependente de si mesmo. A educação deve, portanto, trabalhar com processos que produzam sujeitos assim. Daí a educação bancária, formal, de “cima para baixo”, a-histórica (universal) e igual para cada indivíduo isoladamente.

Paulo Freire usa o termo sujeito, mas dentro da arquitetura de sua pedagogia, esse tipo de sujeito moderno tradicional destoa, não se encaixa. Forçá-lo é deturpar a própria pedagogia freiriana e abrir uma fissura sem sentido. Temos é que encontrar quem é esse sujeito diferente na sua pedagogia.

Freire disse em uma entrevista que: “A conscientização é inserção crítica na história. Implica que os homens assumam o papel de sujeitos construtores do mundo, reconstrutores do mundo; pede que os homens criem sua existência com o material que a vida lhes oferece” – e isso nos oferece pistas. O sujeito é histórico: tem casa, comunidade, família, terra, tradição, cultura, trabalho. Seu processo de “conscientização” – diferente da consciência que nasce do abandono e da dúvida de tudo – implica na inserção do sujeito nessa história, tornar-se consciente de quem ele é, onde está e com quem está (sua “situação-limite”). Ele não tem como fim conquistar o mundo, dominar, mas construir e reconstruir a partir do material que a vida lhe oferece. Sujeito não é solitário e solipsista, mas comunitário e imerso em relações.

O paradigma de sujeito na educação freiriana não é o “eu” que precisa aprender a ser eu no mundo, mas o oprimido que precisa passar pelo processo de libertação. A educação tem como finalidade não a constituição do eu para e por si mesmo, mas do oprimido na ruptura com a opressão, o processo de libertação, para a comunidade e por meio de sua cultura, da e na sociedade em que está envolvido. Por isso sair da educação bancária para a educação libertadora é produzir uma pedagogia que nasce do cotidiano, da vida comum, nasce da cultura e do conhecimento já existente no educando – que é o oprimido.

O sujeito em Freire não precisa aprender a ser “eu”, aprender a ser consciente. Ele já é consciente, já é eu. Conscientizá-lo é auxiliá-o a se perceber em sua situação histórica, engajá-lo no processo de libertação. Todos temos conhecimento, somos conscientes, somos sujeitos. O diálogo e o processo de ensino-aprendizagem parte disso já suposto. A questão é que essa consciência de “eu” é ingênua; e necessário o processo de consciência crítica: a percepção da situação em que estamos envolvidos, de nossa comunidade, nossa cultura, nossas relações: Continuar lendo