Dialética: uma introdução

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Em nossas escolas e universidades, o preciosismo e certa tradição excludente dificultam o estudo ou o estudar em qualquer matéria. Filosofia, por exemplo, apesar de ser uma ciência humana, parece exigir uma série de aparelhos, pré-conhecimentos e técnicas para seu estudo. Parece que ela se isola em seu mundo e considera todo o resto medíocre, inferior. Seria o conhecimento supremo, distante de qualquer um, apenas sendo possível aos eleitos. Contra isso, sou daqueles que crê que a filosofia é filha do dia-a-dia, de experiências comuns. É um método, um modo de trabalhar, que surge dos problemas cotidianos de diferentes modos. O desdobrar-se sobre esse método é o trabalho daqueles que se fazem filósofos

Então não é todo mundo que trabalha como filósofo, mas a experiência com filosofia é nossa, comum. Assim, a proposta do texto é a mesma que a desse aqui: Filosofia Marxista – introdução ao trabalho filosófico. Com os preciosismos acadêmicos de uma tradição com “complexo de vira-lata”, que exige que nos transformemos primeiro em gregos, depois em franceses, em alemães para daí nos tornarmos estudantes de filosofia, o nome dialética fica tão distante e complexo que não se torna útil nem acessível. É a aceitação de entalados importados da gringa sem muita crítica nem critério. Manuel Garcia Morente, em seu Fundamentos de Filosofia – que é um bom manual de introdução mas passível de críticas -, toma um caminho que se apoia em uma ideia de Platão para dizer que devemos nos afastar da sabedoria comum, do dia-a-dia, e caminhar para a excelência. Em seguida propõe que dialética é o movimento que nega o conhecimento raso à partir de uma hipótese excelente, por negação, atinge aquilo que é o conhecimento de verdade: “filosofia pura”. NÃO SERÁ ESTE NOSSO CAMINHO!!!

Morente coloca esta ideia de Platão, mas desconsidera que seu movimento não abandona a sabedoria comum. Bem pelo contrário, utiliza dela para construir seu pensamento: mitos gregos, chavões, pensamentos populares, crenças religiosas, leis formais e informais, situações cotidianas… A partir daquilo que todo mundo sabe para resolver problemas que todo mundo tem. Cotidiano encarnado. Dialética será, para nós, o movimento que parte do dia-a-dia, do conhecimento do “homem da rua”. Aristóteles, por exemplo, já assume um caminho diferente de Platão (de quem foi discípulo; podemos inferir que talvez vendo a contradição entre aquilo que o mestre dizia e aquilo que fazia, dialeticamente encontrou seu modo de filosofia). Para ele dialética era a arte da refutação: aprender a contrapor ideias ou experiências. Se um defendia o quente, a função dialética seria defender o frio. Se um afirmava o escuro, a função dialética seria aprender a afirmar o claro. Para Aristóteles era o exercício que os políticos aprendiam para participar das reuniões.

Os sofistas, criticados por Platão e por Aristóteles, eram mestres na arte da dialética: contrapunham tudo: sabiam discursas sobre opostos e em oposições. Sabiam negar e afirmar “qualquer coisa”. O que diferenciaria, então, um filósofo de um sofista? Se qualquer um faz isso, qual o critério que diferencia filosofia de qualquer outro conhecimento? Tanto para Platão como para Aristóteles, a verdade e a busca pela verdade! Dialética praticada para se descobrir a verdade é o que fazem os filósofos. Aprender a argumentar, contrapor, negar ou afirmar, colocar-se em oposição afim de se descobrir a verdade oculta é a dialética filosófica. A diferença entre Platão e Aristóteles é que um dizia – apesar de não praticar em seu próprio método – que deveria se partir daquilo que é excelente (evidente), e outro que “É dialética a argumentação que conclui algo a partir da compreensão cotidiana” (Tópicos I, de Aristóteles).

Compreensão cotidiana? Sim, a “cidade”, a rua, o bairro, a escola, a família, a igreja… Opiniões diversas que se põem no mundo. Pessoas, homens vivos e de verdade, que afirmam e negam coisas, que descobrem e encobrem verdades. A dialética deve negar negações afirmar aquilo que é a verdade, que está oculta no mundo. Por exemplo, Platão negava o conhecimento comum para afirmar sua filosofia. Aristóteles nega que se deva negar o conhecimento comum para afirmar a filosofia, e descobre que seu próprio mestre não o negava, mas o utilizava para encontrar verdades comuns que interferiam e se encontravam na vida diária dos homens. Dialeticamente encontramos oposições, contraposições e afirmações de opiniões em busca da verdade. A dialética é um movimento comum, mas que se torna filosófico quando é posto à serviço da verdade cotidiana, viva, histórica: do fato.

Podemos demonstrar ideias, fórmulas científicas, teorias, mas não nossas crenças e nosso dia-a-dia. Ele é vivido. A dialética trabalha esse “indemonstrável”, esse vivido, à partir dele e tentando solucionar seus problemas. Enquanto busca por soluções, ela é crítica: convive com dois extremos, com contraposições, com problemas, crises, opostos, afim de superar ambiguidades, atravessar a crise. Dialética é um método: caminho pelo qual atravessamos. Método que caminha pelo indemonstrável, pelas opiniões diversas, pelos opostos, sem nenhuma evidência. Por isso mesmo incultos podem ser sábios: mesmo sem instruções acadêmicas e formulações tradicionais, podem ser dialetas, são capazes de solucionar problemas e superar crises, ambiguidades.

A sabedoria comum, o conhecimento popular, o “homem de rua” não precisa ser abandonado ou sacrificado em nome da “filosofia pura”. É à partir do comum, do nosso conhecimento popular, de nossos problemas cotidianos, de nossas situações-históricas vivas e de verdade que praticamos dialética, que podemos encontrar verdade, solucionar problemas, produzir filosofia.

Dizemos que somos todos iguais, por exemplo, mas ao mesmo tempo dizemos que “cada um tem sua opinião”. No choque entre sermos iguais e cada um ter sua opinião, seu jeito, etc, tratamos todos como iguais ou nos relacionamos com as diferenças? Dizemos que cada um é livre para fazer o que quiser e suportar as consequências de seus atos, mas ao mesmo tempo, se uma pessoa tem uma opção sexual diferente da nossa ou comete algum ato não tão aceitável por nós, queremos interferir na vida dessa pessoa. Mas, ela não era livre e sujeita às consequências de suas próprias ações? Porque queremos, então, interferir? Dizemos que todos tem os mesmos direitos, mas sabemos que quando uma pessoa com dinheiro ou cargo político comete um crime, tem mais direito do que outros na mesma situação. São estas situações que nos convidam ao movimento dialético, a trabalhar com contradições, oposições e ambiguidades para a solução de problemas.

A partir de outras culturas e problemas – como a grega, francesa e alemã – se desenvolveram diferentes dialéticas. Temos fórmulas, tradições e filosofias diferentes que surgiram de histórias diferentes. O estudo com “complexo de vira-lata” confunde essas diferentes dialéticas com o que é dialética. O movimento dialético é a critica em contrários, opostos, à partir do conhecimento comum, do cotidiano, descobrindo a verdade, solucionando filosoficamente problemas. Desse movimento, surgiram fórmulas dialéticas importantes para a história da filosofia e para a estruturação de paradigmas. Ficaria satisfeito em terminar o texto aqui, porém, respeitando o fato de que muitas vezes se estuda dialética como se fosse o aprendizado de uma fórmula, daremos como exemplo um resumo da fórmula hegeliana de dialética, que é paradigma ainda hoje para a filosofia europeia moderna:

Diferente de Aristóteles e Platão, que buscavam a verdade imposta pelo que está “lá fora”, além de nós mesmos, Hegel crê no movimento interno – ou “para dentro”. Dialética seria um movimento subjetivo: da consciência em direção dela mesma (ou do Espírito para ele mesmo, como consumação da História em liberdade). Assim, o Espírito sendo positivo (afirmação) e seu contrário corporal (temporário) negativo (negação), o movimento de se negar a negação afirmaria o Espírito, faria a manutenção daquilo que é verdadeiro e eterno, não temporal-temporário. Esse movimento é entendido e realizado de forma idealizada e abstrata, porém como modo de entender o movimento da História da humanidade. Gosto do modo como Marx aplica isso – que se torna um ótimo exemplo para professores de filosofia: materialmente e concretamente, saindo desse ideal hegeliano, mas mantendo a fórmula, Marx diz que o que há de comum em todos os homens é o trabalho. Todo mundo tem que trabalhar. E o que é trabalhar? É gastar energia, gastar vida. E para que que todos os homens trabalham? Para não morrer, para produzir vida. Vida é a afirmação, morte uma negação da vida. Trabalhar é negar a negação da vida, é produzir vida. Enquanto trabalhamos, nos “matamos”, pois gastamos vida, para não morrer. Todo dia negamos a negação para poder afirmar a vida, para manter-mo-nos vivos.

Como tradição latino-americana, brasileira, Paulo Freire já nos ensinou: é a partir do nosso dia-a-dia, da nossa cultura, da nossa realidade, da nossa gente, que a gente encontra a verdade, o ensino. É de onde deve nascer nosso conteúdo e nossa pedagogia. Uma música que pode ser utilizada como começo de conversa e trabalho dialético é “O mérito e o monstro”, do O Teatro Mágico, que fala sobre contradições cotidianas. Segue o clipe.

Em breve pretendo escrever um outro texto de comentário ao caráter filosófico de outros autores. Se este foi interessante para você, ser útil para a preparação de aulas ou exposição de ideias, fique a vontade de copiar, compartilhar ou trabalhar. Podemos compartilhar bibliografias, discutir e promover filosofias próprias. Contato pelo facebook.

Espero que seja útil…    😉

Bruno Reikdal Lima

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