Para ler Emmanuel Lévinas

projet-eee.levinas03Filosofia – graças à Deus – não é uma tarefa solitária: não é sentando na mesa, abrindo 20 livros e lendo todos seguidos de uma vez que faz ela ter sentido. A gente precisa do Outro, de alguém que converse com a gente e muitas vezes nos oriente. Precisamos de “mestre” (professor). Nesse trabalho, não somos mestres de nós mesmos! Ainda mais quando se trata de um autor estrangeiro que importamos de outra cultura, outro estilo, outras crenças, outros modos de estruturar as frases para a nossa terra, nosso jeito, nossa gente. Para ler Lévinas não é diferente: alguns aspectos atrapalham um tanto uma primeira leitura

A escrita dele é propositalmente rebuscada e traz elementos da cultura religiosa judaica. Além disso, ele é “contra-sistema”, vai numa contramão absurda da corrente filosófica moderna (europeia). Outro fator é que, apesar de se opor ao sistema filosófico corrente, não tem como ultrapassar sua própria cultura: a filosofia europeia é caracterizada por uma intelectualidade ensimesmada, que conversa consigo mesma, tem a si mesma como interlocutor. É pensamento elitista: de si para si, sem Outro. E a partir desse ponto podemos começar indicações para a leitura de Lévinas:

Ele é um autor judeu-lituano-francês do começo do século XX. Nasceu numa família judia na Lituânia, se mudou para a França e se naturalizou francês. Por ser judeu, foi preso em campos de concentração durante a segunda fase da Grande Guerra e, talvez por isso, tenha trazido tanto da cultura religiosa judaica para seu texto: confirmar e recolocar a importância das crenças que o formaram na cena europeia. Possui um estilo muito próprio por criticar o sistema filosófico moderno, principalmente o hegeliano – paradigma na filosofia até hoje. Re-lê Descartes de um modo impressionante; e a partir disso desenvolve aquilo que caracteriza sua filosofia.

O que acontece é que Lévinas percebe na filosofia europeia moderna a ausência de transcendência: não há Outro (ele utiliza a expressão Outrem, a qual o professor Benedito Eliseu Cintra explica muito bem em seu Pensar com Emmanuel Lévinas), apenas o Mesmo. Tudo faz parte de uma mesma coisa: o ser, ou o Mesmo ser. Parte-se de uma totalidade, sempre. O todo e suas partes, mas sempre com o todo: que é o que dá sentido às partes. O que são judeus? Partes do todo que, no modo moderno de trabalhar nazista, negam a totalidade (atrapalham o desenvolvimento do todo) e precisam ser negados. Na fórmula dialética hegeliana, o Espírito (totalidade que absorve suas negações para desenvolver a História como liberdade) consuma a História enquanto vão sendo negadas as partes negativas de si mesmo para, no final, estruturar-se plenamente, como totalidade absoluta, como Espírito Absoluto. E o que há para além desse sistema? Nada. Se existe algo, é do Espírito, está no Espírito e se dirige ao Espírito (que curiosamente, em Hegel, tem seu expoente na Europa Central).

Não há transcendência para além do sistema, para além da totalidade: tudo é e já está contido no ser, no Mesmo. Tudo é e já está contido na totalidade. Por isso o título de sua obra-prima: Totalidade e infinito. Há o âmbito da totalidade, do sistema, do Mesmo. Mas, também, e aí a proposta-chave de Lévinas, há o infinito ou o âmbito do infinito: que é o Outro (Outrem). Para além de mim mesmo há o Outro. Para além do Mesmo há Outrem. A fórmula platônica da qual Lévinas se apropria é “o Bem além do Ser”. O que há além do sistema, além da totalidade, além do Mesmo? O Bem, o Outro…

A chave para a leitura é esta: o Outro além do ser, Outrem além do Mesmo, o Próximo além de mim, ou melhor, além do Eu. Uma das imagens propostas por Lévinas é a relação entre os dois firmamentos, os céus e a terra: terra como o horizonte visível, projetável, alcançável, e céus enquanto o além da terra, aquilo do qual de algum modo fazemos parte, mas não cabe em nós ou no primeiro firmamento – está para além, fora do controle! Na relação entre o Eu e o Outro, entre o Mesmo e Outrem, há uma separação radical: o Outro não é parte do Mesmo, mas Outro absolutamente Outro. Não o controlo, não consumo, não sei quem ou o que ele é: ele surpreende, se apresenta, bagunça, transcende, está para além de mim. Pelo Outro, pela relação ou experiência face-a-face com o Outrem, sou responsável, servidor.

Diferente do sistema que entende o Espírito como realização de liberdade (liberdade do próprio Espírito, não de Outro), a filosofia levinasiana entende o sistema como meu limite, como relação do Mesmo com o Mesmo, que surpreendido por Outrem na experiência do face-a-face se torna responsável (ilimitadamente responsável) por ele. Para Lévinas ética não é um ramo da filosofia, mas Ética é a Filosofia primeira (ou a própria Filosofia!). A subjetividade moderna, que nasce na tradição com Descartes, o penso, logo existo, é entendido por Lévinas como a relação com o Outro, com aquilo que “não sou Eu”. Descartes apenas descobre o Mesmo quando decide duvidar de tudo: quando abre mão do controle absoluto do que está fora e procura descobrir qual seu único espaço de controle/liberdade. Encontra o Eu. Mas o Eu é limite de mim Mesmo, do Mesmo, do ser. O que existe é o Eu, mas apenas em relação àquilo que é incerto, que não controlo, que está para além de mim: Outrem.

A interpretação de Lévinas é inusitada, criativa e inovadora. Propõe uma filosofia que saia de si Mesma, não para controlar, mas para descobrir-se isolada e num sistema fechado. Não deve ser conquistadora, mas responsável. O modus operandi da filosofia é de tornar tudo parte do sistema: fazer daquilo que é transcendente, explicável – ou seja, como parte de meu sistema! Nas relações com outra pessoa, outra cultura, outro povo, outra religião, outra gente… Tudo se torna parte do sistema e é entendido como parte do funcionamento do sistema. Só tem sentido enquanto sistema, não enquanto Outro que não o Mesmo. A totalidade dá sentido a tudo. Por isso é possível justificar e “entender” campos de concentração, invasão da América, exploração da África e da Ásia: são partes do sistema com funções determinadas para o desenvolvimento livre do próprio sistema. Mas este já é um desdobramento da filosofia de Lévinas, que encontra voz aqui na filosofia latino-americana.

Lévinas propõe uma relação verdadeira com Outrem, com aquele que está para além do Mesmo, para além do sistema, da totalidade. Seu próprio sistema convida e convoca à relação com um interlocutor que está para além de mim. A voz do Outro  não está sob meu comando. Quando, por exemplo, na relação entre namorados se ouve pela primeira vez a expressão “Eu te amo” sem que se esperasse, percebe-se o face-a-face: uma vida além da minha, tempo além do meu, sujeito além de mim e de minha totalidade, pelo qual me torno responsável e me entrego à serviço totalmente. Descubro que o Outro tem olhos, que me vê assim como sou capaz de vê-lo, que não tenho controle sobre o como ele me vê e que não devo pretender compreendê-lo, mas viver junto, ser responsável, preservar a relação. Esta é a vida… Mas aí já são certas conclusões, leituras e desdobramentos. A proposta de introdução ou direcionamento para a leitura de Lévinas já foi apresentada.

Caso tenha se interessado pelo autor e sua proposta, duas dicas de livro (um comentário-introdução e um do próprio autor): Emmanuel Lévinas: Humanidade e Razão, de José Luiz Pérez, é uma introdução muito bacana que vale a leitura mesmo para quem não quiser ler o próprio Lévinas; e Entre nós, da Editora Vozes, que é uma série de textos, artigos e entrevistas do próprio Emmanuel Lévinas – um livro fantástico!

Para quem quiser ver um pouco sobre dialética hegeliana os textos Dialética: uma introduçãoO Hegel escondido em Rubem Alves e Filosofia marxista, deste blog podem ser úteis. Sobre filosofia moderna e filosofia latino-americana tem Crise da Democracia? Não, do Sujeito!, Filosofia, diferença e paz e Além do tempo. Sobre Lévinas ou desdobramentos da leitura de Lévinas, escrevi O Próximo: categoria absoluta de uma ética comunitária, Do método pragmático à proposta relacional, Hermenêutica da responsabilidade, Intuições sobre relacionalidade e A diferença do tempo entre nós: o tempo a partir de Emmanuel Lévinas.

Espero que seja útil!   😉

Bruno Reikdal Lima

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3 comentários sobre “Para ler Emmanuel Lévinas

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