A fraqueza e o deserto da teologia brasileira

descobrimento-do-brasil-18Em nossa terra, temos experiências de fé profundas, nossa religiosidade é fértil. A complexidade de nossa gente, nosso jeito, nossas crenças tem desenvolvido práticas transformadoras, movimentos próprios e originais de espiritualidade – falo especificamente e especialmente da religião cristã. Igrejas que transformaram realidades sociais, materiais e nossa própria cultura. Somos ricos de vida e experimentamos muitos frutos destes acontecimentos. Mas não é dessa teologia viva, ou melhor, da experiência de fé concreta que desejo falar, e sim do processo de significar nossa vida, de tornar em discurso aquilo que temos experienciado em nossas relações

As igrejas católicas e o movimento da Libertação (que construiu uma teologia engajada e formou uma intelectualidade política própria), por exemplo, e as igrejas pentecostais que transformaram periferias com a alfabetização de fiéis, dogmas que alteravam a relação com o dinheiro, escolas musicais e certa cultura (inicialmente) de inclusão, que trazia dignidade para gente socialmente excluída que dentro da comunidade religiosa,era vista como tendo valor, foram terreno de experiências de fé vivas – a base para a construção de uma teologia própria e original. É no momento dessa construção, do segundo passo, na hora dar significado àquilo que vivemos em uma mensagem, que nos deparamos com o deserto.

Somos cheios em vida, mas fracos na hora de significá-la. Não porque somos incapazes ou porque nos falta alguma coisa, mas porque cremos ser incapazes e adotamos os modelos de outros, um caminho que não é nosso, que não nasceu da gente. Sejam teólogos liberais, fundamentalistas, reformados, clássicos, pentecostais ou até neopentecostais, adotamos uma língua estrangeira para falar da nossa vida, um sistema gringo para falar de nossas experiências concretas. Queremos encaixar – de cima para baixo – a forma que dará significado àquilo que temos experimentado, e não à partir do cotidiano, do vivo, do concreto e comum de nossos dias – de baixo para cima – a nossa teologia própria e original. Que alguém se diga “revolucionário” ou “inovador”, não será. Não produziu teologia à partir da gente, limitada a esta situação concreta, historicamente determinada que somos nós, brasileiros. Temos inspirações e certos direcionamentos, mas construção original, não.

Vivemos nossa vida, mas queremos explicá-la por um método que não é nosso e com um vocabulário que foi construído para responder as questões que nunca surgiram aqui. Dá errado, nos tornamos repetidores infelizes e insuficientes – não transformadores, não originais. Não devemos produzir teologia nossa para ser “melhor” que a do outro, mas para solucionar e dar voz ao que acontece aqui e agora: nossa situação histórica e concreta em que vivemos e onde Deus tem nos falado. Na teologia católica ainda é possível encontrar princípios destes processos em José Comblin, Carlos Mesters e Jung Mo Sung, mas na “protestante” (no Brasil faz mais sentido chamar de evangélica), apenas Carlinhos Queiroz propôs uma certo modo de produzir teologia original – ainda sem sistematização.

Temos uma base, uma experiência espiritual, religiosa e de vida fantástica! Mas travamos em dois problemas a seguir: a fraqueza e o deserto da teologia brasileira. Fraqueza de método e deserto de discurso teológico. Unir um método com um discurso é o trabalho de “sistematização”. Este trabalho não tem como intuito instituir aquilo que é a “verdadeira e última teologia”, mas dar significado e possibilitar a ressignificação de nossas próprias experiências de fé, de modo a crescermos como comunidade, como povo, como Igreja, como fiéis. Importar o método de outro e o discurso de mais um outro para explicar nosso próprio jeito de viver, de ser, de nos relacionarmos enquanto crentes brasileiros é empobrecer nossa própria mensagem cristã – o nosso Evangelho, nossa relação com Deus. Não temos como dizer que somos críticos da teologia brasileira ou da tradição teológica brasileira porque ela nem existe efetivamente! Existe vida, experiência de fé, estruturas e instituições religiosas, mas o discurso teológico é conjunto vazio.

O pior é que temos a possibilidade de método próprio: podemos deixar de sermos teólogos “bancários” e passarmos para uma pedagogia-teológica libertadora. Sim, Paulo Freire. Ele já ensinou pra gente que nosso jeito de trabalhar e aprender é de “povo”: de nossas relações concretas e vivas. O ensino, para ele, não poderia ser “de cima para baixo”, do professor que manda ou fala o modelo verdadeiro que precisa ser aderido e encaixado pelo aluno em sua realidade. Não! O ensino e o conteúdo da aprendizagem nasce da vida dos educandos, ou melhor, na igreja, da vida dos fiéis – não do discurso aprendido e repetido pelo líder da igreja ou pastor. José Comblin e Carlos Mesters lançaram mão deste método e produziram um princípio de teologia brasileira, original e própria. A leitura bíblica é comunitária e nasce das experiências da comunidade; a espiritualidade e o modo como são significados os dogmas nascem da vida comunitária e da religiosidade concreta, ali, entre os sujeitos que são atores da igreja, não espectadores – não público cativo!

Um teologia nossa toma como caminho o que vivemos como povo, em relação a gente  e na relação com gente de verdade. É original quando parte de um caminho, um método, nosso e também quando encontra um discurso próprio. Importar os termos, as respostas de outro lugar e tentar encaixá-las aqui, não dá e nem dará certo. É o que muitos liberais tem tentado fazer e o que os tradicionais sempre fizeram: pegar o que se falou lá como resposta e utilizar aqui em outra pergunta. Muitas vezes trazemos a resposta à pergunta que não foi feita e isso causa choque; pois todos se perguntarão “de onde veio isso?” – e não encontraremos a resposta, ou melhor, a pergunta que originou aquele discurso. Não que devamos nos fechar em nós mesmos – jamais! Mas temos que entender que a leitura de teologias estrangeiras é possibilitadora e enriquecedora se entendida, primeiramente, como instrumento ou ferramenta a mais para trabalharmos nossa obra original: o discurso teológico propriamente nosso. O que implica que, primeiro, precisamos encontrar nossa raiz, nossa força, nossa cara, nosso coração. Precisamos assumir nossa vida concreta, cotidiana, verdadeira. Meter os pés no chão, ir para a rua ouvir a voz dos vizinhos e o que cremos enquanto comunidade brasileira.

O primeiro passo não é de forçar os outros àquilo que se deve crer, mas de encontrar nas relações aquilo que temos como vida concreta, como crença primordial. O que nos torna, à princípio, cristãos, é o encontro com Cristo, a experiência de fé viva. E como isso é vivido por nós, crido por nós, essa base material, que pode expressar a fonte de nossa teologia brasileira. Fonte que pode fortalecer nosso caminho e encher de água nosso deserto. Isso não foi vivido no nada ou no além mar, mas aqui, na terra – nossa terra.

Antes de tudo precisamos ficar em silêncio… Ouvir o Espírito que sopra no meio do nosso povo. Precisamos procurar o fundamento: o chão do qual partiremos, a fonte de onde buscaremos água e as sementes que plantaremos para, um dia, colhermos nossos próprios frutos. Para um dia a árvore ser podada e novos frutos nascerem. Para pararmos de depender da importação, de enlatados gringos, de produto de outros. Os caminhos, os meios de produção, e o vocabulário do discurso, a matéria, estão nas nossas mãos. Falta só o trabalho.

Bruno Reikdal Lima

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s