Descartes brasileiro: trabalhando com filosofia

René-DescartesTodo professor e todo curso de filosofia que se preze, dá uma aula de Descartes. É obrigatório. Mas é meio que clichê e sempre a mesma coisa: fala-se da passagem da metafísica antiga para o pensamento moderno, do racionalismo, renascimento, da dúvida como método (Descartes duvida de tudo, afim de encontrar a verdade que não tivesse a menor possibilidade de ser passível de dúvida, e seria esta sua base, seu fundamento primeiro) e, por fim, do “penso, logo existo” (conhecido como cogito cartesiano). Além disso é mais uma aula de história do que de filosofia. E pior, uma história evolutiva bem mal contada, na qual o filósofo mais recente é sempre o protagonista e o mais antigo, superado…

E se a gente propusesse diferente? Uma aula de filosofia, mesmo: o exercício de acompanhar e produzir um movimento filosófico?! E se ao invés de falarmos o que Descartes falou, o trabalhássemos enquanto co-autores de sua filosofia, enquanto intérpretes que precisam solucionar problemas concretos, que se sintam capazes de aplicar o método filosófico cartesiano. Esta é a proposta desse texto: trabalhar filosoficamente seu movimento.

Com uma escrita cativante, no Discurso do Método Descartes pega o leitor pela mão e dá uma passeada pelos corredores de seu museu. Cada peça e cada obra estão propositalmente colocadas em determinada ordem para justificar bem sua proposta de modo a nos convencer de que é o melhor museu do mundo. Descartes segue seu método em sua escrita. Ordenar bem os passos para se atingir a verdade: do mais simples ao mais complexo, partindo sempre e somente daquilo que é absolutamente certo para encontrar outra coisa que seja absolutamente certa, indubitável. Como faz isso? Decide duvidar de tudo: tudo o que fosse minimamente inseguro ou suscitasse nele algum medo de incerteza, que fosse falseável, seria descartado. Aquilo que restasse, seria o fundamento de sua filosofia.

Se duvidássemos de tudo aquilo que tivesse um mínimo de sombra de dúvida, o que é que restaria? Para Descartes, daria para duvidar dos sentidos, pois eles nos enganam, das próprias imagens e ideias, pois elas também surgem na gente enquanto a gente dorme (então são ilusões, não certezas)… O que sobra? Espera: se duvidamos, é porque algo em nós duvida; e por mais que duvidemos, não dá para duvidar de que estamos duvidando, ou melhor, de que alguma coisa está duvidando enquanto se duvida. E o que é que duvida? O pensamento! E quem é que pensa? Eu que duvido, eu que penso! Eu penso… isso é muito certo! Sem dúvida penso, sempre. Sem dúvida que, por isso, existo, pois sou eu que penso. Penso, logo, existo.

Essa é a verdade indubitável, para Descartes, o fundamento de sua filosofia. O bacana é que existir é consequência de pensar, e não o contrário: no desenvolvimento da filosofia cartesiana, primeiro se pensa, de pois se existe. É esse jeito de enxergar o mundo que vai caracterizar a filosofia moderna, a filosofia europeia: primeiro pensamos, depois existimos.

No mesmo processo, refazendo o método cartesiano, parando para duvidar de tudo, em busca de encontrar o fundamental, o primordial, o que garante a existência, o que encontraria? Não consigo duvidar de que enquanto duvido de tudo, continuo pensando. Mas, dá para duvidar se eu ainda estaria pensando se não tivesse comido bem ontem e antes de ontem. Provavelmente, não. Precisaria ter comido e não ter que me preocupar com isso para ter essa “certeza”. Assim, quando estava na faculdade, escrevi um trabalho intitulado: “Sinto fome, logo existo”. Era uma crítica latino-americana ao fundamento moderno do cogito cartesiano. Se tornou também uma proposta pedagógica para as aulas de filosofia: incentivar os alunos a retomarem o método do autor e encontrarem o que era “fundamental” em sua filosofia, de onde partiriam para entender o mundo.

Depois percebi que não era só o estômago que reclamava da cabeça e do duvidar. Para fazer o exercício e propor para alunos, eu precisava ler e escrever. Para conseguirem terminar a lição, eles precisavam ter tempo: arranjar espaço entre trabalhar num emprego remunerado e pegar o busão para poder fazer o trabalho de filosofia. Percebi que além de faltar comida, faltava tempo. No tempo, faltava uma remuneração melhor para ele e também, porque não, condições sociais mais propícias. Para solucionar o problema fui procurar as propostas políticas e teorias que sustentavam e justificavam melhorias em condições sociais. Mas nunca abandonei o método: duvidar. Duvidei delas e encontrei mais um ponto da filosofia cartesiana aplicada aqui.

Encontrei nas propostas e teorias modelos políticos de outros lugares, outras realidades, situações diferentes e adversas. Duvidei deles e procurei aquilo que fosse plenamente seguro, para ser fundamento de uma política de melhoria de condições. Duvidei porque estavam todos “lá fora” e não aqui dentro, envolvidos nas condições materiais, concretas e realidades brasileiras. Mesmo os brasileiros que “pensavam” alguma coisa, pensavam com a cabeça lá de fora, não a daqui de dentro. Duvidei e percebi que enquanto duvidava, a vida passava e eu ia resolvendo uma série de outras questões e situações-problemas mais primordiais (como comer, trabalhar, estudar, namorar, conviver…). Percebi que o quanto procurasse lá fora alguma certeza, a vida continuava e passava aqui dentro, e mesmo que tentasse ao máximo suprir as faltas, elas continuariam existindo e eu tendo que conviver e viver com elas. Falta comida, falta tempo, faltam melhorias em condições sociais. Sempre sinto falta em relação à. Sinto falta, com certeza. Sinto falta, logo existo.

Esse modo de trabalhar o movimento cartesiano é uma possibilidade de filosofia e de aprendizagem de filosofia! Creio ser o nosso modo de trabalhar a filosofia: o movimento filosófico, não a história de “descobertas” (e encobertas). Deu para perceber que, por exemplo, sinto falta porque estou sempre em relação, em comparação, em medida. Historicamente, podemos ver que como brasileiros sempre nos comparamos com o resto do mundo, e sentimos falta de alguma coisa. Inclusive falta de nós mesmos: não sabemos quem somos – se somos índios com cabeça de europeu e corpo negro, se somos negros com cabeça de índio e corpo europeu, se somos europeus com cabeça de negro e corpo de índio… Falta!

Para quem se interessar, o Discurso do Método está em pdf na internet. O Cinfil (Centro Independente de Filosofia) tem aula de Descartes nesse link. No livro Entre Nós, da editora Vozes, o autor Emmanuel Lévinas faz uma leitura inovadora de Descartes no primeiro capítulo: “O eu e a totalidade” (em que percebe que Descartes só encontra o eu porque não o considera uma totalidade, e sim parte, sempre parte).

Espero que seja útil!

Bruno Reikdal Lima

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