Reconstruindo casas

1234149_10201930137559323_754342730_n“A casa caiu!”. Essa expressão às vezes de desespero, às vezes engraçada, tem  origem trágica. Cair as paredes, perder o teto, viver sem morada. O que faz de um humano ser humano é sua origem, suas relações, seu povo, de onde vem: sua “casa”. Não se é humano por nascer de uma espécie; é-se humano em relações, nas quais a casa nos acolhe como moradores dela. Aristóteles diz que ética pode ser interpretada como o “hábito ou costumes da casa”. Economia são as normas da casa; mas é a Ética a “vida da casa”, o espírito dela que, inclusive, constitui, determina e altera a própria regra formal. Na morada, na habitação, o prédio, a construção, a cidade, o país, a nação… só são o que são enquanto casa, enquanto lugar de humanos que se relacionam. A casa cair é o fim: perder o teto, a segurança, as origens, os costumes, perder o chão…

Enquanto “sem casa”, andarilho, estrangeiro, peregrino, mendigo, não se é gente. Só é do país os considerados de casa. Os demais, são convidados ou penetras a serem expulsos. Viver sem casa tira do humano seu aspecto de gente. Não deixa de ser humano, deixa de ser notado como tal: perde suas relações familiares. Casa é origem, é segurança, é refúgio, é condição e possibilidade de vida. Caindo a casa, cai tudo. A menos, é claro, que hajam casas abertas aos peregrinos, aos estrangeiros, aos desabrigados. Se houvesse um portão aberto para os abandonados, a humanidade destes é resgatada. Havia uma possibilidade dessa casa: seu nome era “Igreja”.

As paredes foram ficando velhas, o chão perigoso, não entrava mais luz do sol e nem saía o pó. Mas, mesmo assim, gente se enfiou dentro da casa e dela não quis sair. Porque? Porque a casa “era dela”, da gente… Era nossa, mas mais de uns do que de outros. Não critico quem tomou posso, quem não sai e nem saiu. Antes de ter encontrado essa casa Igreja, não tinha casa, não era ninguém: estava excluído, reprimido, abandonado, só. É o caso de gente da minha própria casa (tanto da família aqui mesmo, quanto da comunidade que participo). É o caso do homem da quebrada que não conseguia emprego, não tinha escola e nem perspectiva: quando chegou na igreja, encontrou abrigo para ele e para família. Encontrou professores de português, Escola Bíblica Dominical, aprendeu a ler, teve contatos de emprego, era respeitado por e considerado irmão – mesmo pelos ricos que as vezes, lá fora, o desprezavam. A casa Igreja foi refúgio, foi salvação.

A Ética que se vivia lá dentro, a vida que inspirava tudo, partia dessa dor e dessa vida. Os costumes, os hábitos, eram de cuidado, rigor e fortalecimento. Todos trabalhavam por todos, engajados em relações concretas, de verdade. Mas dos hábitos nasceram leis, uma Economia que ficou mais importante do que a vida verdadeira. Fecharam a porta para que não entrassem mais forasteiros, estrangeiros, gente que não sabia as regras dali. As paredes ficaram mais importantes! A casa se fechou em si mesma e foi se destruindo, deteriorando. Os moradores pálidos, sem ar, sem vida, tinham e tem medo de sair: sabem como é duro viver sem casa, lá fora, abandonados. Sair dali é perder as origens.

Alguns decidiram sair: olharam lá de fora e viram a casa podre, correndo o risco de desabar e matar a todos que estavam lá dentro! Tiraram os moradores e derrubaram a casa. Comemoraram a derrubada no fim de tarde. Até que a noite veio e o frio veio junto; medo, ladrões, solidão, falta de luz,  silêncio, cada um por si. A casa estava no chão, as pessoas abandonadas. Desabrigados, novamente…

Desses alguns, um tanto decidiu que aproveitaria a noite para salvar os outros moradores e saíram pelas ruas derrubando outras casas Igreja velhas e deterioradas. Mas não eram todos os moradores que queriam sair da casa – aliás, nem sabiam o que estava acontecendo! Apenas viam tochas, pedras, paus e um força que rachava as paredes. Uns fugiam, outros tentavam manter alguma parede em pé e outros morriam soterrados. Uns se juntavam ao novo grupo de derrubadores de casa, outros pediam socorro em casas velhas, mas a maioria – senão, em certa medida, todos – ficavam desabrigados. Mais solidão, mais abandono, mais sofrimento… Casas caindo.

Hoje é essa nossa vida: ainda é noite, está frio e as ruas cheias de desabrigados, abandonados, que aceitam qualquer prato de comida podre para se manterem vivos. A estrutura daquela primeira casa ainda está no chão. Milhares, milhões de pessoas com fome, sede, estrangeiros, sofredores e nenhuma casa de portas abertas, nenhum abrigo novo, forte, firme.

O problema não era a Igreja, mas as portas fechadas. O problema não era o que acontecia lá entre os múltiplos, os diferentes, os estrangeiros que encontravam um lar, mas a determinação do que deve sempre acontecer: trocar a ética, a vida comunitária, pela economia, as regras societárias excludentes. Talvez por isso a tradição do Velho Testamento e também Jesus e os primeiros passos da Igreja se voltavam tanto para a figura do estrangeiro e do excluído: somos todos estrangeiros e excluídos. Não temos casa, não temos família, não temos lugar na sociedade. Somos todos abandonados, desvalidos, estamos vagando nas ruas sem lugar. Somos todos sem-lugar. A Igreja é e deve ser a casa dos sem lugar!

Em grego existe uma palavra que a tradução literal é “sem-lugar”: u-topia (:, ausente/excedente, topos: lugar, espaço). A Igreja é utópica quando é casa dos sem casa, quando é porta aberta. Mas para ter a porta aberta, ser casa que abriga, protegem alimenta e ensina moradores, que é lar, cultura, comunidade, vida de gente, precisa de parede, teto, janela. Precisa ser casa. Derrubamos paredes de casas velhas e perigosas para a vida das pessoas. Mas isso não nos tornou livres! Isso nos fez miseráveis. Aumentou no mundo o número de miseráveis que precisam ser acolhidos. Isso só se faz reconstruindo a Casa, reconstruindo casas.

Joaquim Nabuco conta que teve uma epifania sobre a abolição quando um escravo fugido do terreno vizinho veio até o pé dele e implorou para que o aceitasse como escravo dele, porque sabia que em sua casa escravos eram tratados bem. Nabuco ficou em crise, porque como um homem se torna livre e ao invés de correr para a liberdade, vem para outra escravidão? Alexandre Solzenitsen escreveu “Apenas liberdade não resolve os problemas da vida humana”. Não mesmo; porque só somos humanos em casa, na casa, nas relações com os de casa, reconhecidos como moradores da mesma casa. Falta reconstruir, falta lar. Falta proteção para os abandonados.

Desejo tanto que minha geração seja construtora de casas!!!! Mas me desespero ao não ver isso ser possível. Desejo, escrevo e prego isso sem esperança. Prego para desafogar um pouco o soluço de olhar as paredes ainda no chão, eu aqui fora junto com tantos outros, com o tijolo na mão, mas sabendo que um tijolo sozinho não faz parede…

Isaías 58: 12 “vocês serão conhecidos como o povo que levantou as paredes que tinham caído, que reconstruiu casas” – quem dera!

Bruno Reikdal Lima 

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