Estado e Igreja: institucionalização precisa nascer da gente

ABA1996006W00085/35ANesse fim de semana tive a honra de ser entrevistado pela Rebeca Menezes, graduanda em jornalismo, e dessa conversa surgiu este texto. Conversamos sobre cidadania e o envolvimento político especificamente em nosso país. O eixo central das trocas de ideia foi o fato de que o Estado brasileiro nasceu faz pouco tempo (1822), que sua formação foi realizada por poucos (que detinham poder e envolvimento no espaço político, na “máquina” propriamente dita) e sua inspiração foi o Estado Moderno Europeu (que rumava para sua crise; a qual vivemos hoje). Depois da conversa, fiquei pensando em como a nossa relação povo-Estado é parecida com a nossa relação povo-Igreja. A comparação entre essas relações é o tema do texto:

O Estado brasileiro nasceu com o trabalho de poucos, que montaram a estrutura e puseram a coisa para andar. Enquanto faziam isso, criava-se uma experiência política muito própria, com princípios de teoria política característicos do brasil, nascidos de experiências concretas do modo de vida da realidade brasileira. Um pensamento político que tendia a ser próprio, original brasileiro, mas que carecia de uma coisa só: nascer e ganhar vida à partir do povo, do coração da gente. No fundamento era tupiniquim, mas a forma e a cabeça eram de além-mar. A Igreja, também: tinha no povo, no coração, uma vida intensa e própria, mas a forma e a cabeça eram europeias.

Entre 1930 e 1970, no Brasil houve uma vida política e religiosa muito intensa: tensionamento de ideologias, avivamento de espiritualidades. Tanto o pensamento político de “direita” quanto de “esquerda” ganham força, estudos, escola e experiências políticas. Tanto as igrejas evangélicas quanto as católicas (com ideologias e trabalhos diferentes) provocam mudanças e transformações importantes nas relações religiosas do povo. Esse período foi dos mais movimentados, tensos, animadores e produtivos tanto da política brasileira (propriamente nossa) quanto da teologia brasileira (propriamente nossa); mas encontraram limites – e creio que esses limites tenham raiz comum: nossa relação com as instituições “Estado” e “Igreja”.

Não encontro uma única causa ou possibilidade de causa, mas nossa relação com o Estado e com a Igreja é de passividade: esperamos deles seus serviços e concessões. Igreja e Estado não são parte da gente, nascidos de nós, mas instituições-máquina feita por alguém e com as quais nos relacionamos esperando suas benevolências e reprimendas. Não os percebemos como da gente; alguém fez. Não faz parte da gente; está acima de nós, nos servem em certos pontos, e nós a eles servimos em outros.

A partir de 1930 aumenta a participação popular na política brasileira – seja por voto, formação de partido, envolvimento em discussões por causa de jornais ou conversas de praça. A partir da mesma década, as igrejas evangélicas pentecostais chegam ao Brasil e ganham força nas periferias (a maioria frequentada e organizada por mulheres e constituídas por adultos alfabetizandos) e o movimento social das católicas cresce e encontra nas Comunidades Eclesiais de Base (e futuramente na teologia da libertação) espaço para transformações na religiosidade do povo.

Mas nem o Estado e nem a Igreja institucionalizados – os formais e que efetivamente “decidem” – tem essa cor de povo, esse sangue do povo, esse nosso coração. Os movimentos acabam morrendo – inclusive por serem ou se sentirem incapazes de institucionalizar essa experiência própria. Há apenas princípios, experiências iniciais, sem continuidade formal, sem estruturação, sem institucionalização. A instituição se sobrepõe com força sobre essas experiências vivas, e os envolvidos nas experiências se relacionam com as instituições não como parte de si, podendo ser alteradas ou reinstitucionalizadas, mas como outra-coisa-que-não-nós e que nos ordena. Assim, os direitos políticos nascentes nesse período não são nossos, não nasceram na gente, pela gente e para a gente, mas foram concedidos pelo Estado. As experiências religiosas, as “bênçãos”, não são nossas, nascidas na gente, pela gente e para a gente, mas foram ações da Igreja que nos concedeu essa sorte. Nós não somos Estado, nós não somos Igreja; essas instituições não são parte de nós.

Na conversa com a Rebeca, comentei que muitos problemas de nosso exercício político, nossa cidadania, vem porque não vemos a gente no Estado. Vemos o Estado lá e a gente aqui. A instituição não é nossa. A dificuldade é que nossas experiências populares não são tomadas por nós como povo, mas as entendemos como concessões desse Estado distante. Também não consideramos ações cotidianas como ações políticas. E isso acontece porque a gente não formou nosso Estado brasileiro, com política brasileira e conceito brasileiro, mas adotamos uma forma de Estado, com outra ideia de política e um conteúdo completamente diferente.  Nunca vamos assimilar nem interferir desse jeito. O Estado não será nossa parte, assim esperamos dele concessão e não vida política, comunitária, nossa.

Com Igreja o problema é bem parecido: não consideramos ela como parte da gente, mas como Instituição à parte. O que é oração? Não é experiência nossa na relação uns com os outros e com Deus; é bênção dada pelo pastor, padre ou autoridade. O que é culto? Não é nossa expressão de vida em relação com Deus, uns com os outros, superando e vivenciando alegrias e dificuldades; é um momento propiciado pelo pastor, padre e estrutura. O que é louvor? Não é envolvimento comunitário de graças; é um planejamento musical específico, de gente qualificada. O que é Igreja? Não é vida comunitária de fé; é uma instituição apartada.

Os movimentos sociais e a espiritualidade do povo nascem nele e com ele, propriamente nossos, brasileiros, mas são princípios, apenas. Eles não crescem e se fortalecem a ponto ou de modo a se institucionalizar. Nascem e morrem porque seus princípios são entregues para o “além”, para uma máquina que cuidará deles. Não somos, mas parece que somos incapazes de teorizar, organizar e institucionalizar valores de nossa vida, nossos modos de vida. Temos até uma esquizofrenia de não saber se amamos ou odiamos aquilo que nasce da gente, do nosso jeito de viver e ser brasileiro, em relações próximas – sejam políticas ou de fé.

Para finalizar, é bom deixar claro: precisamos resgatar, trabalhar e sistematizar nossa produção teórica brasileira, nascida da gente, viva na gente e com a gente. Precisamos transformar em obra aquilo que nasce e cresce em nossa comunidade, em comum, entre a gente. Seja na teoria política, seja na teologia, nossa experiência fundamental precisa se fortalecer, encontrar campo seguro para florescer. Nosso Estado brasileiro precisa ser efetivamente brasileiro. Nossa Igreja precisa ser efetivamente nossa Igreja. Nossa política e nossa teologia precisam ser nascidas de nossa vida, com os pés no chão, de nosso povo. Enrique Dussel chama de “teologia fundamental” o que chamo de experiência de fé concreta: o princípio transformador que vivenciamos e nos empurra para uma vida nova, novos ares, novo Espírito. Ele chama atenção para o fato de que essa teologia fundamental é início,  não fim, e precisa ser sistematizada, organizada, trabalhada para ser comunicada, compartilhada e assim dê frutos, até ser podada, reorganizada e dê novos frutos. Este é meu desejo, que sigamos essa trilha e façamos o mesmo.

Seja Estado ou Igreja, instituições nascem e devem nascer do meio do povo: sua origem é a vida comunitária. A alteração ou a formação (formalização) da vida comunitária alteram e reinstitucionalizam o próprio Estado e a própria Igreja. A Teologia da Libertação, por exemplo, conseguiu instituir escolas na América Latina, com teologia organizada, formalizada, de religiosidade popular e que tem como fruto o Papa Francisco – que tem promovido alterações institucionais importantes e profundas. É possível que tanto a política quanto a religião brasileira produzam gente e escola de pensamento próprio, popular, da gente, e vejamos seus frutos. Mas isso exige um trabalho de organização, sistematização e institucionalização duros, longos e cansativos. Trabalhos que não percam sua origem e sejam animados e defendidos pela própria comunidade viva: gente que cuida de gente e produz gente.

Bruno Reikdal Lima

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s