Práxis: que significa?

dusselO movimento de Libertação, nascido nos anos 60 na América Latina, foi início de uma escola de pensamento transformado e transformador – próprio, original e característico do modo de viver latino-americano. Nasceu de propostas teológicas, inspirou uma corrente filosófica e produziu um método pedagógico; com essas vertentes, a Libertação se tornou efetivamente um movimento: teologia, economia, filosofia, sociologia, pedagogia, psicologia e, recentemente, política da libertação

Mesmo criticada e talvez não tão reconhecida – ainda – em estudos aqui no Brasil, o movimento de Libertação influenciou muito o vocabulário acadêmico e as produções literárias. Não-intencionalmente, cutucou e promoveu alterações em campos que o próprio movimento não sabe. Um exemplo dessa influência é o termo práxis, muito utilizado em textos, propostas e sistemas de teologia, filosofia e ciências sociais. Repetido em diferentes contextos, muitas vezes vazio de significado, é bastante falado, mas pouco trabalhado. Não se desdobra sobre o termo e sobre o significado que especial que ele ganhou no movimento de Libertação, provavelmente porque se pressupõe que “todo mundo sabe que práxis é…”.

Para não perdermos a beleza do termo e as gigantescas possibilidades que ele nos apresenta, é bom resgatarmos traços de sua construção e importância na fundamentação do pensamento de Libertação. Não apenas falar, mas trabalhar práxis. O termo tem seu filho “prática” em português que, sozinho, não mostra a história e a profundidade do pai. Utiliza-se práxis como sinônimo de “fazer”, “ir para a prática”, “menos blá-blá-blá”; mas esse uso simplificado é limitador e contraproducente. Alarguemos nossas possibilidades:

Práxis é fazer, trabalhar, assim como poiesis – de onde vem “poesia” no português -, que também é produzir, fabricar. Mas há diferenças entre os dois. Porque não dizemos que é preciso ser mais “poético” quando queremos menos blá-blá-blá ao invés de dizermos que é preciso ser mais prático? Enrique Dussel, figura central na fundação da Filosofia da Libertação, explica que práxis é fazer alguma coisa, mas não apenas produzir: é fazer alguma coisa para alguém. É trabalho com sentido: Outro. É a produção, a feitura, em relação, relacional: faço com sentido, para entregar para alguém, para Outro. Diferente de poiesis, que é produzir por produzir: fazer uma obra, digamos assim, sem finalidade, sem sentido, sem destinatário.

Criticando o pensamento moderno (europeu-conquistador) que parte de abstrações e da negação da vida comum, ordinária, carnal em comunidade, o movimento de Libertação pretendeu partir de outro princípio: o concreto material cotidiano das pessoas reais, vivas, que aqui estão. Assim, era necessário partir da experiência material. Mas isso não significava abandono da teoria e do trabalho intelectual – pois este, inclusive, era considerado como obra também material, feito por gente e para gente -, que deveria se tornar “prático”, partir da práxis (como os textos teológicos enfatizavam constantemente): era feito com sentido, direcionamento. Não se produziria teoria e trabalhos intelectuais poéticos, eles por eles mesmos, mas para o Outro, para a Libertação, engajados na vida cotidiana das pessoas de carne e osso.

Pensamento prático, de práxis, não é menos blá-blá-blá como abandono do pensar e do trabalho intelectual, mas como produção nossa, própria, com sentido próprio e direcionamento real. Aliás, com um princípio próprio: a vida das pessoas aqui, das culturas, comunidades e gentes que se relacionam concreta e materialmente. Por isso práxis, por isso prático.

Além disso, o modus operandi da construção de pensamento latino até então era (e é) diferente do tradicional moderno europeu: pensa-se enquanto se faz e se vive na realidade concreta e se direcionando para ela. O método moderno, diferentemente, pensa “a partir de fora e para fora”: em abstrações, de um intelecto não envolvido com o comum, e de modo a atingir um projeto (pensamento do que devemos realizar, mesmo que não seja possível-factível e relacionado com a vida das pessoas) que deve ser realizado, um “mundo ideal”. Modelo. Assim, reconhece-se também uma tradição de jeito de pensar e trabalhar o pensamento na América Latina: fazer a partir dos problemas e de modo a atender a concretude da vida das pessoas que sofrem, que vivem, que estão aqui em nossa frente, em nossa casa.

Práxis tem um sentido e significado especial: não é contrário à teoria, como a dicotomia prática x teoria, mas é um modo de trabalho que subverte a tradição e os significados modernos. A questão é que o sujeito de libertação é um sujeito que parte de uma práxis libertadora, ou seja, em tudo o que faz tem como sentido e direcionamento o Outro Sujeito, também vivo e real que necessita de uma comunidade e de processos de libertação. É prático porque é trabalho direcionado, com sentido real: Outra pessoa, o rosto do Outro. Se fôssemos opor algo ao “prático”, não seria o “teórico”, mas o “poético”: que é trabalho também intelectual e teórico, porém sem sentido real, sem direcionamento. Obra por obra, trabalho por trabalho, fabricação por fabricação.

Para finalizar, deixo um trecho do livro Ética Comunitária, de Enrique Dussel, que abre mais possibilidades de trabalho com o significado do termo práxis:

“Na vida cotidiana atual ‘páxis’ ou ‘prático’ significa muitas coisas […] em sentido estrito, práxis  e prático querem significar o ato humano que se dirige a outra pessoa humana; ato em direção a outra pessoa e a própria relação pessoa a pessoa […] Em primeiro lugar, práxis é um ‘ato’ que uma pessoa, um sujeito humano realiza, mas que se dirige diretamente a outra pessoa (um aperto de mão, um beijo, um diálogo, um gole) ou indiretamente (por intermédio de algo: por exemplo, repartir um pedaço de pão; o pão não é pessoa, mas se reparte para outra pessoa). Se estou dormindo, não estou presente no mundo porque descanso, porque não estou consciente; não há práxis então. A práxis é a maneira atual de estar em nosso mundo frente a outro; é a presença real de uma pessoa ante outra.

[…] Práxis significa operar, obrar com e no outro, ou outros; poiesis significa fabricar, fazer, produzir com ou em algo, trabalhar a natureza, relação pessoa-natureza […] Os extremos da relação prática são pessoas. O que é ser pessoa? Alguém é pessoa, estritamente, só e quando está na relação da práxis […] Quando estou com meu rosto frente ao rosto do outro na relação prática, na presença de práxis, ele é alguém para mim e eu sou alguém para ele. O ‘face-a-face’ de duas ou mais pessoas é ser pessoa […] A práxis, então, na atualização da proximidade, da experiência de ser próximo para o próximo, de construir o outro como pessoa, como fim de minha ação e não como meio: respeito infinito.”

Bruno Reikdal Lima

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2 comentários sobre “Práxis: que significa?

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