O sujeito na pedagogia de Paulo Freire

“[É necessário] Criticar a arrogância, o autoritarismo de intelectuais de esquerda ou de direita – no fundo, da mesma forma reacionários – que se julgam proprietários: os primeiros do saber revolucionário, os segundos do saber conservador; criticar o comportamento de universitários que pretendem conscientizar trabalhadores rurais e urbanos sem com eles se conscientizar também; […] buscam  impor a superioridade de seu saber acadêmico às massas ‘incultas’.” – assim escreve Paulo Freire em Pedagogia da Esperança

O que está em crise (sendo criticado) não são o conhecimento acadêmico e a arrogância de intelectuais, apenas. No fundo, o que se passa é uma crítica a uma escola, a uma tradição pedagógica, a uma tradição de trabalho, produção e compartilhamento de experiências e conhecimento. Tradição esta que tem como base uma figura: o sujeito.

O termo “sujeito” tem sentido e significado encaixado em um sistema (sistema significativo de justificação), como parte da estrutura de determinada filosofia. Quando lemos a palavra “sujeito”, ela tem sentido dentro dessa estrutura filosófica que carregamos. O problema é que quando Freire fala do sujeito na/da educação, no processo de aprendizagem, não é o mesmo sujeito que o tradicional, não tem o mesmo significado que o solidificado e enraizado na filosofia por nós herdada – a moderna. E aqui entra o papel da filosofia e a tentativa desse texto: rascunhar o sentido de sujeito que Freire propõe.

Apesar de ter um diálogo profundo, produtivo, intenso e constante com filosofia, Freire não era filósofo. Assim, não fazia parte de seu trabalho sistematizar determinados conceitos em contraste com outras filosofias. Cabe aos leitores pós-freire caçar, traçar e descobrir esses conceitos (inovadores, transformadores). Daqui uns 200 anos ainda não teremos entendido a radicalidade e profundidade de suas propostas. Revolucionário em sentido muito mais intenso que “revolução copernicana”  na tradição de Kant. Inclusive, a crise que aparece no trecho citado no início deste texto está relacionada à tradição na qual Kant se insere: o sujeito moderno, a filosofia moderna.

Nessa tradição – que é rompida e superada na pedagogia de Freire – o sujeito tem sua fundação no “penso, logo existo”. Sua consciência (o paradigma da consciência) está apartada do mundo: uma coisa é “o que está lá fora”, outra é o que está “aqui dentro”. Solipsista, abstrato e abstrativo, o sujeito conhece para conquistar/dominar: a superioridade da consciência racional tem como característica o poder sobre o que está “abaixo”, o que está “lá fora”. O sujeito para poder ser sujeito por excelência, se conscientizar, precisa abandonar sua comunidade, sua cultura, sua tradição sua família: é o exercício cartesiano de duvidar de tudo, abandonar tudo em busca daquilo que é certo e seguro, daquilo que possibilita dominar, vencer, convencer. Para ser consciente, o sujeito é “acultural”, solipsista, solitário, sem comunidade, individualista, dependente de si mesmo. A educação deve, portanto, trabalhar com processos que produzam sujeitos assim. Daí a educação bancária, formal, de “cima para baixo”, a-histórica (universal) e igual para cada indivíduo isoladamente.

Paulo Freire usa o termo sujeito, mas dentro da arquitetura de sua pedagogia, esse tipo de sujeito moderno tradicional destoa, não se encaixa. Forçá-lo é deturpar a própria pedagogia freiriana e abrir uma fissura sem sentido. Temos é que encontrar quem é esse sujeito diferente na sua pedagogia.

Freire disse em uma entrevista que: “A conscientização é inserção crítica na história. Implica que os homens assumam o papel de sujeitos construtores do mundo, reconstrutores do mundo; pede que os homens criem sua existência com o material que a vida lhes oferece” – e isso nos oferece pistas. O sujeito é histórico: tem casa, comunidade, família, terra, tradição, cultura, trabalho. Seu processo de “conscientização” – diferente da consciência que nasce do abandono e da dúvida de tudo – implica na inserção do sujeito nessa história, tornar-se consciente de quem ele é, onde está e com quem está (sua “situação-limite”). Ele não tem como fim conquistar o mundo, dominar, mas construir e reconstruir a partir do material que a vida lhe oferece. Sujeito não é solitário e solipsista, mas comunitário e imerso em relações.

O paradigma de sujeito na educação freiriana não é o “eu” que precisa aprender a ser eu no mundo, mas o oprimido que precisa passar pelo processo de libertação. A educação tem como finalidade não a constituição do eu para e por si mesmo, mas do oprimido na ruptura com a opressão, o processo de libertação, para a comunidade e por meio de sua cultura, da e na sociedade em que está envolvido. Por isso sair da educação bancária para a educação libertadora é produzir uma pedagogia que nasce do cotidiano, da vida comum, nasce da cultura e do conhecimento já existente no educando – que é o oprimido.

O sujeito em Freire não precisa aprender a ser “eu”, aprender a ser consciente. Ele já é consciente, já é eu. Conscientizá-lo é auxiliá-o a se perceber em sua situação histórica, engajá-lo no processo de libertação. Todos temos conhecimento, somos conscientes, somos sujeitos. O diálogo e o processo de ensino-aprendizagem parte disso já suposto. A questão é que essa consciência de “eu” é ingênua; e necessário o processo de consciência crítica: a percepção da situação em que estamos envolvidos, de nossa comunidade, nossa cultura, nossas relações:

“O que tenho dito sem cansar, e redito, é que não podemos deixar de lado, desprezado como algo imprestável, o que educandos… trazem consigo de compreensão de mundo […] Sua fala, sua forma de contar, de calcular, seus saberes em torno do chamado outro mundo, sua religiosidade, seus saberes em torno da saúde, do corpo, da sexualidade, da vida, da morte, da força dos santos, dos conjuros […] Os camponeses analfabetos não necessitam de um contexto teórico para chegarem a uma tomada de consciência de sua objetiva situação opressora […] Mas o que a tomada de consciência surgida da imersão nas condições de vida diária não lhes dá é razão de sua condição de explorados. Esta é uma das tarefas que nós [educadores] temos que conseguir o contexto teórico.”

O trabalho pedagógico é comunitário e o sujeito é comunitário. O sujeito da educação não é o educador e o educando um objeto em relação a este. Assim como o sujeito da educação não é o educando e o conhecimento seu objeto. O sujeito histórico, enquanto oprimido, participante da vida e imerso na vida, que se liberta num processo de conscientização a partir de seu cotidiano e sua cultura, é sujeito enquanto se relaciona com outros sujeitos e trabalha na construção do mundo. Educação é diálogo, dialógica, entre sujeitos. Os sujeitos em determinada situação. Por isso é dever do educador mergulhar na vida diária, na cultura e nos conhecimentos do educando. Precisam dialogar, se relacionar e se reconhecer como sujeitos. Dialogar não é depositar ideias nos outros;

“O diálogo… sendo o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado… não pode reduzir-se a um ato de depositar ideias de um sujeito no outro…”

Retomemos a crítica aos intelectuais e acadêmicos que abre este texto. O que estes fazem em relação a seus “educandos”, em relação com sujeitos, é impor determinado conhecimento a partir do paradigma de sujeito que deve abandonar tudo, sua cultura, sua comunidade, sua história (como se esse movimento não fosse um processo de inculturação, também) para se tornar consciente. É desprezar a sujeiticidade de pessoas, acabar com seu processo de construtor de mundo a partir da vida real e concreta, material em que já se vive. Essa tradição intelectual-acadêmica centrada no sujeito moderno não dialoga, não trabalha com relação entre sujeitos, apenas conquista-domina: faz a manutenção do processo de opressor-oprimido, apenas mudando os atores.

Freire procura uma pedagogia profunda, de transformação ativa da realidade. Diálogo é encontro de sujeitos, educação interação e processos de libertação entre sujeitos a partir da vida material, concreta, histórica, situação-limite em que se encontram, tendo como referência não o “libertador-educador”, mas o oprimido – é ele o paradigma! Disse: “não podemos libertar os outros; os seres humanos não podem tampouco libertar-se sozinhos, porque se libertam a si mesmos em comum, mediante a realidade que devem transformar” – em comunidade!

O sujeito, portanto, na pedagogia de Paulo Freire, deve ser entendido em um sistema diferente (completamente diferente!): é sujeito em comunidade, em encontro e diálogo, histórico, com cultura, família, tradição e consciência. Este sujeito, quando oprimido, não precisa se tornar consciente, se tornar sujeito, mas trabalhar criticamente sua consciência, de modo a se perceber em situação-limite, em situação de opressão. Precisa participar ativamente do processo de libertação, ser engajado em sua comunidade, produzir para sua comunidade e com sua comunidade. Perceber-se como parte construtora desse mundo. Seu trabalho tem sentido, seu conhecimento tem sentido: a libertação, sua comunidade em situação-limite. Sujeito que não é só, mas relacional.

Por isso, deve-se ir contra a “narração, de que o educador [dominador] é o sujeito, conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado […] Quanto mais se deixem docilmente encher [como um copo], tanto melhores educandos serão”.

Bruno Reikdal Lima

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