Metafísica como caminho para além do Sistema

babásSe tem uma coisa que estudar filosofia deixou bem claro na minha cabeça é que termos possuem diferentes significados dentro de diferentes sistemas. A pergunta “o que é metafísica?”, por exemplo, não encontra uma resposta; exige, por sua vez, que se saiba o “para quem”, o sentido que foi entregue ao termo dentro de qual objetivo. Para Aristóteles tem determinado significado, enquanto que no sistema cartesiano tem outro. Em Kant encontraremos um sentido diferente, para Kierkegaard ainda outro e para Lévinas, por exemplo, um sentido absurdamente avesso aos anteriores

No fim, este post é fruto de um incômodo: recentemente li textos que rechaçam a “generalização de “metafísica” como sendo um problema, um “mal do mundo” que nos atrapalha a pensar, crer, etc. Para mim, no modo como organizo o sistema significativo de justificação que tenho construído (minha filosofia), metafísica é um termo muito caro e, por isso, pretendo apresentar e trabalhar seu uso e significado dentro de determinada proposta filosófica (com implicações teológicas e políticas). Diga-se de passagem que não são “ideias minhas”, mas leituras e interpretações feitas das propostas de Emmanuel Lévinas, Jung Mo Sung e Enrique Dussel. No fim do texto indico obras úteis destes autores para a construção do termo “metafísica”.

Lévinas diz que a Ética é Metafísica, e que Ética é a filosofia primeira. Assim, em um apontamento bem específico, filosofia é metafísica, tem base metafísica. A questão que se põe é “o que é que ele quer dizer com isso?”. Não é simples, menos ainda “resumível”. Mas podemos indicar e trabalhar certo tipo de estrutura fundamental do pensamento levinasiano: a relação com o Outro, que é sempre absolutamente Outro. Em um texto muito bacana chamado “O eu e a totalidade”, Lévinas lê o “penso, logo existo” de Descartes de modo inovador: ele só pode chegar a este cogito enquanto se relacionava com a exterioridade, aquilo que era separado dele. O “eu” era uma totalidade, fechado em si, separado do havia “lá fora”, que não estava a princípio sob seu controle, mas lhe era estranho, diferente. Para além da totalidade, há o “infinito”: inseguro, incontrolável, absolutamente separado e não-eu. Para além da totalidade do Eu, está o Outro, que não é o Mesmo que Eu, mas diferente, absolutamente Outro.

Lévinas retoma uma fórmula metafísica de Platão: “O Bem além do Ser”. Assim, critica a ontologia de Heidegger, mostrando que esta é um sistema fechado em si mesmo – o ser consigo e que se desdobra e se encontra, sem possibilidade do “além”, do extra, do metafísico -, que a tudo reduz e abarca, inclusive o Outro sujeito. O Outro, outra pessoa, com quem me encontro no face-a-face, não é o Mesmo que eu, o Mesmo que o ser, que uma totalidade fechada, mas diferente: está para além de mim, além do sistema, além de minha apreensão, compreensão… Além do ser, além da ontologia. O Outro é a base metafísica! O Bem além do ser. O Outro não pode ser reduzido ao Mesmo, pois é Outro sujeito, está para além. Reduzi-lo é, na verdade, romper a relação, não tratar o Outro, o Próximo, como Outro e como Próximo, mas como parte de mim, do meu sistema, minha propriedade. É escraviza-lo, deturpá-lo, destruí-lo. É corromper, ser anti-ético. A filosofia é, a e por princípio, a Ética, a relação com o Outro, tem sentido enquanto relação com o Outro. É, por isso, Metafísica: o Outro, o Bem, além do ser, de mim…

Enrique Dussel lê Lévinas e transfere essa estrutura para uma organização sistêmica ético-política: nas relações entre sistema e sujeito excluído. Não apenas na relação eu e o Outro, mas sistema político-econômico e a vítima: a pessoa viva, carne e osso, excluída e não vista pelo e dentro do sistema. Exclusão política, econômica e social. O excluído está e é para além do sistema. Assim, a luta pela vítima, em favor dela, é uma luta que depende de uma estrutura metafísica: na percepção e crença de que há para além de nossa ordem e de nosso sistema, o Outro, o excluído, e ele deve ser o fundamento do movimento e dos processos de libertação. Romper com a escravidão, servidão, morte, destruição, deve começar e partir do Excluído, do metafísico, do além-do-sistema.

Já a partir dessa estrutura sistêmica em sociedade, político-social, Jung Mo Sung faz um exercício metafísico muito profundo no trabalho de fundamentação de “quem é o sujeito de libertação”: diferencia ator social de sujeito. O ator social é o papel exercido cotidianamente por um indivíduo. Entretanto, este indivíduo é mais e está para além de seus papéis sociais. Ele não é “gari”, “pobre”, “mestiço”, “evangélico”, “pai”, “voluntário”, “jogador do time do bairro”, etc. Ele exerce todos os papéis, mas é mais que isso: é sujeito que está para além de suas funções sistêmicas e que deve ser percebido como tal. Tem nome, história, crenças, vidas, estruturas de opressão e lutas de libertação que o constituem enquanto vivente, reprodutor de vida e transformador da história. Este “mais”, para além do ator social, é o sujeito. É metafísico – o que não impede que seja concreto, encarnado e real.

Dussel também faz um movimento semelhante ao de Jung Mo Sung, ao traçar as “frentes de libertação”: um mesmo sujeito (metafísico) tem diversas lutas dentro do sistema, diversas frentes de libertação. Dona Maria pode ser negra, mulher, mãe, professora, pobre, religiosa, lésbica… Pode atuar e exercer diversas lutas e papéis sociais. Entretanto, está, sempre, para além deles: é sujeito, tem uma complexidade gigantesca e profunda. Encarna uma vida que não cabe dentro de um sistema.

Assim, hoje, metafísica é um termo caro que precisa ser ressignificado e trabalhado. Metafísica enquanto excedente do sistema, como o para além de determinações e totalidades, como a encarnação verdadeira que excede, implode, desestabiliza qualquer pensamento, projeto, organização filosófica, política, teológica, poética, qualquer exercício de racionalização. Coloca-se muitas vezes o termo de modo a significar o “abstrato”, “irreal”, “vazio”. Mas tal significado depende do sistema em que ele se encaixa. Aqui, ser metafísico significa exatamente o oposto: o peso tão profundo e absurdo do real que excede e implode qualquer sistema. O excluído, o Outro, o Próximo como categoria concreta, efetiva, verdadeira, última e encarnada a que tudo deve se direcionar, que como peso real excessivo se torna centro gravitacional das produções teóricas, tornando-as verdadeiros exercícios de práxis.

Apenas rechaçar metafísica e abandonar o termo não torna uma filosofia, uma teologia, uma política ou uma economia “mais real”, menos abstrata. Na verdade, pode promover exatamente o contrário, pois o exercício de construção de sistemas que não abre a possibilidade de excedente, de exclusão, da vítima, do além que não foi contado, corre o risco de se desligar da vida verdadeira, da cotidianidade concreta em que vivemos. Adotar e fechar um sistema em si mesmo, sem a metafísica que aqui é apresentada, é afastar-se das experiências comuns, diárias, encarnadas. É assumir uma “anti-metafísica” que repete o erro que tanto critica: se torna vazia, etérea.

A foto desse post foi escolhida exatamente por retratar a limitação dos papéis sociais e rejeição da sujeiticidade metafísica, que está para além do sistema: dois sujeitos reconhecidos como sujeitos (com história, vida, nome, família, etc), dois indivíduos com nome e função social reconhecidos, porém com sujeiticidade negada e, por fim, dois indivíduos resumidos única e exclusivamente à sua função social, com sujeiticidade completa e absolutamente negada: as “duas babás”.

Para quem se interessar pelo tema, fica a indicação das obras Entre nósTotalidade e Infinito Da existência ao existente, de Emmanuel Lévinas; Para além do espírito de ImpérioSujeito e Sociedades Complexas, de Jung Mo Sung; Ética da LibertaçãoMétodo para uma filosofia da libertação A produção teórica de Marx de Enrique Dussel. Aqui do blog, vale a leitura dos textos Práxis: que significa?Para ler Emmanuel Lévinas e O próximo: categoria absoluta de uma ética comunitária.

Bruno Reikdal Lima

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