Conversa é mais que conquista

conquista-peru--644x362A descrição deste blog é: “falar é dar vida à relação: convidar àquele com quem falamos para entrar, enquanto nos colocamos na disposição do ‘eis-me aqui’. expressão é serviço. Expressar-se tem sentido enquanto trabalho para e pelo outro – pelo Próximo”. Pode parecer um monte de frases soltas ou um exercício poético bonito, com frases de efeito. Mas não; é uma crença prática, um exercício de práxis que precisa ser encarnado, vivido. O intuito desse texto é trabalharmos o sentido da discussão: para além da conquista, da vitória, a vida em comunidade

Na escola, na faculdade, na igreja, em casa… Aprendemos a “discutir”: provar e demonstrar que estamos certos enquanto derrotamos, vencemos e convertemos nossos adversários. O debate é uma arena, na qual dois gladiadores se mutilam para alcançar a “glória”: sair da condição de escravo, libertando-se de vitória em vitória às custas das mortes dos outros. Em Roma, os gladiadores que vencessem os grandes torneios se tornavam homens livres, cidadãos reconhecidos. A luta individual, por si mesmo, sua própria liberdade, era a força do braço que levantava o gladio, uma lança ou um machado. Transferimos as arenas para as conversas.

Mas nos libertamos de quê ao “vencermos uma discussão”? Aliás, discussões são para serem vencidas? A Mensagem verdadeira e boa é somente aquela que vence? Ou vence apenas a mais forte, mais ardilosa, maliciosa, violenta e conquistadora? Quais são os valores que guiam nossas falas? Para quê falamos?

Existe uma máxima que diz que “a história que fica é a dos vencedores”. Isso não significa que seja a verdadeira história. Contar histórias, falar, trabalhar verdades, sempre foi um exercício de ensino e aprendizagem. A língua, a transmissão da cultura pela conversa, dava identidade e estrutura para uma comunidade. Não se conversa para conquistar/vencer, mas para se tornar parte da comunidade, para aprender e ensinar, para incluir o Outro. Os pais ensinam filhos conversando para que estes compreendam o mundo dos pais, a comunidade em que entrarão, os problemas e as soluções que terão de enfrentar. Por isso muitas vezes, como nota o Mário Sérgio Cortella, a figura da “mãe é o último reduto da ética”. Como vou fazer determinada coisa se minha mãe me ensinou (falou) diferente?

Qual o sentido de conversarmos, de falarmos? Nascemos de um país conquistado, de um cultura colonizada, de gente que veio de fora destruindo nossa língua, identidade, cultura, educação para impor outra. Fomos conquistados por uma cultura que valorizava a conquista, a dominação. Lutamos por nossa liberdade, mas usando as mesmas armas de quem nos oprimiu: conquista, força, poder, dominação. Discutir, para nós, tem significado destruir o Outro para alcançar minha posição, minha salvação, minha cidadania, minha liberdade. Perdemos o sentido prático da conversa, tornando ela um exercício bélico, de guerra, disputa. Para romper com isso e transformar nossa prática, a pergunta que deveríamos fazer é “para quem falamos?”.

Mesmo na linguagem romântica, de amor, da relação entre duas pessoas que se amam, dizemos que ele ou ela “conquistou” o Outro. Nosso amor já é condicionado à conquista, à dominação: a fincar a bandeira, a cerca e tomar propriedade. Para quê falamos? Para conquistar; para pôr para fora o que temos “aqui dentro” e expandir nossos territórios. Tomamos as mentes e os corações em nossas mãos fazendo dos outros nossos escravos enquanto nós nos tornamos homens livres, cidadãos. Não! Falar não tem sentido enquanto exercício de conquista e dominação. Falar só tem sentido, direcionamento, se for à serviço do Outro, do Próximo, e não para acorrentá-lo.

Falar só se torna um exercício com sentido se tiver como destino, como destinatário, o Outro enquanto Outro, enquanto para além de mim, completamente diferente e não minha propriedade. Emmanuel Lévinas nos ensina isso. A voz do Outro não é a minha e me perturba; quando percebo isso com os ouvidos atentos, descubro não ser proprietário do Outro, mas estou em relação à ele e com ele. Não sou só no mundo e nem este mundo me pertence. Sou estrangeiro em relação com outros. Falar, assim, é convidar o Outro, o Próximo, para entrar em casa. Não para ser parte dela, escravo nela, jogado na senzala, mas como hóspede que deve ser respeitado, amado e cuidado.

Em conversas dividimos mensagens, compartilhamos o pão que nos alimenta. Falar é entregar ao Outro o prato que cozinhamos em casa. Isso não obriga o Outro a gostar do alimento. Mas sabermos dessa relação, nos coloca em posição de responsabilidade e serviço: sabendo que a fala do Próximo é a partilha do alimento de sua casa, de seu pão, deve nos colocar em posição de não rejeitá-la, pois somos estrangeiros, somos nós os hóspedes agora. Ao falarmos, uma mensagem é espalhada, sempre.  O pão é recebido por quem ouve e será digerido. Não é necessário impor e obrigar ao alimento. Falar é possibilitar que o Outro nos conheça e continue sendo Outro, diferente, não nós.

O modo de discussão à base da conquista nos aliena e tira nosso sentido comunitário, nossa fala com significado real e verdadeiro. Nos tornamos alienados e fetichizados, pois lutamos contra o inimigo errado. Ao desejarmos conquistar o Outro, o indivíduo à nossa frente como se ele fosse adversário, não vemos as estruturas profundas que estão para além dele, que envolvem nós, todos nós, está Entre Nós e que devem ser combatidas. O “sistema” é o inimigo, não o Outro.  Se o sistema é opressor, tanto o Eu quanto o Outro são oprimidos por ele. Em certo sentido, indivíduos são vítimas. Nossa liberdade, como comunidade e construção comunitária, não é conseguida através da conquista do Outro, da expansão de nossos territórios, mas no rompimento com o sistema e com as estruturas que nos acorrentam.

Conversa é serviço de nos aproximarmos, de construirmos uma comunidade, círculo de conversa. Discutir, debater, deve ter sentido enquanto serviço ao Outro, cuidado com ele. Mensagens demoram a encontrar frutos. Conquistar, vencer, dominar e oprimir é mais fácil: invadir outra terra e tomar seus bens. Plantar, cultivar, construir juntos, caminhar é muito mais complicado: tem que esperar um bom tempo para colher os frutos. Expressar-se tem sentido enquanto trabalho para e pelo outro – pelo Próximo. Como Dussel ensina: práxis é aquilo que é realizado tendo como destino o Outro. Nossas conversas precisam ser mais práticas: tendo como sentido e destinatário o Próximo que é e deve ser sempre diferente de mim para a construção de uma comunidade, reprodução da vida comunitária.

Fica a indicação de alguns textos deste blog que tem, como pano de fundo, sempre, esse princípio de conversa: Expressar-se pra quê?, Pecado Original, Hermenêutica da Responsabilidade, Comunidade Religiosa, Filosofia, Diferença e Paz, O Próximo: categoria absoluta de uma ética comunitária, Práxis: que significa? e O Sujeito na pedagogia de Paulo Freire.

Bruno Reikdal Lima

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