Crítica teológica é uma crítica política

oprimido1Esta proposta não é minha, é de Marx. O caminho para a crítica à religião passa por um processo de crítica teológica (método que não é seguido pelos marxistas de hoje que simplesmente abandonam o discurso religioso, perdendo a possibilidade e oportunidade de diálogo com comunidades inteiras) para, em seguida, Marx produzir a crítica política e econômica do capitalismo. Aliás, é percebendo esse método que Slavoj Zizek se mete em teologia: como instrumento crítico e ferramenta hermenêutica para a produção de sua filosofia, diz não podemos esquecer que “toda política tem um fundamento teológico, e toda teologia tem uma função política”

Esse texto, entretanto, não fará uma crítica teológica ou à uma teologia. Mas fará, sim, uma autocrítica comunitária ao uso da teologia. O modo como utilizamos a teologia é um exercício prático, não individual-pessoal, mas público e em relação a outros. O fazer teológico não é trabalho privado; é obra pública, a ser entregue para outros, nas relações comunitárias. Diferentemente do escudo que utilizamos – religião (e teologia) são do âmbito privado (tendo essa palavra um sentido bem estrito: individual, propriedade minha e exclusiva) -, o fazer teológico é intersubjetivo, comunitário, para alguém, para Outro. Se não tomarmos isso como princípio, significa que escolhemos como fundamento e sentido a construção de um sistema teológico fechado, que exclui todos os Outros que não pertencem a ele. Teologia exclusiva, exclusivista, segregacionista. Essa já é a primeira autocrítica.

Mais especificamente, esse texto tem como proposta incômoda criticar minha própria geração teológica – teólogos ou religiosos que se prestam a contribuir com o pensamento teológico de maneira crítica; sendo tanto da mesma “escola” ou da mesma “geração” que eu. Entendo que o exercício de autocrítica não é individual, mas comunitário, intersubjetivo. Somos em nossas relações e por causa delas. Assim, tenho consciência de que nós que somos de uma mesma geração teológica tenhamos inspirações, estruturas e sistemas compartilhados, que se conectam de algum modo.

Certo movimento teológico evangélico-pentecostal nasceu na década passada como crítica ao que foi denominado “fundamentalismo” e “tradição protestante”. Esse movimento urge frente aos sofrimentos concretos e cotidianos da vida, que nos puseram em crise e que não encontraram voz no antigo sistema. Por outro lado, a completa falta de fundamento e organização de processos neopentecostais que abriram mão completamente de teologia estruturada também não eram suficientes para dar respostas e caminhos. Tomamos consciência de que não eramos nem isso e nem aquilo. Entretanto, não nos colocamos – ainda – em posição firme e fundamentada. Apenas apontamos para aquilo que não somos. Não temos consciência crítica e construtiva amadurecida para firmar nossos passos. Constatar isso, entretanto, não pode nos paralisar. Ao contrário, deveria nos convocar ao batente, nos chamar ao crescimento, fazer com que saiamos de casa e deixemos de ser birrentos.

O nascimento desse nosso movimento teológico (ainda sem nome) buscava dar voz aos que não tinham voz; tinha como inspiração a libertação de pessoas que estavam excluídas. A teologia, assim, seria via de acesso a uma nova comunidade, uma nova igreja, um novo modo de existir como religiosos. Parece que nos perdemos. Nosso uso da teologia tem se mostrado em outro percurso: de instrumento de libertação, transformou-se em arma de inquisição. Nosso modo de fazer e usar teologia não tem como objetivo resgatar o perdido, mas ferir quem se colocar à nossa frente, olhando no fundo dos nossos olhos.

Estamos errados! Esse modo de produzir e usar teologia revela nossa política: conquistar, dominar ou morrer. De uma teologia fundamentalista que enquadrava pessoas e de um processo neopentecostal que enlouquecia pessoas, criamos um tanque de guerra que esmaga pessoas. Passamos por cima dos corpos, rachamos os ossos. Cremos que das cinzas dos outros nascerá uma nova vida… Não! Essa política é velha e bem conhecida pelo nosso sistema: não só o religioso, mas a própria política moderna, opressora e assassina em que vivemos, o próprio modo de ser capitalista. O que temos feito com nossa teologia não rompe com isso: apenas retroalimenta e ainda coloca uma paz de espírito, pois pregamos “o social”.

O processo de uso e do fazer teológico é anterior à afirmação de um dogma ou frase a respeito da divindade ou do culto. Teologia nasce da vida cotidiana e das experiências de fé das pessoas e das comunidades com que nos relacionamos. O caminho inverso, de cima para baixo, impositivo, que coloca o Outro na guilhotina com a condição “aceite ou morra” é o que nos sufocava. Nos tornamos de oprimidos, opressores. A inspiração inicial era a libertação  e salvação de gente de verdade, não de papel ou de termos bonitos. Por isso, inclusive, que nos aproximamos muito da Teologia da Libertação católica.

Do mesmo modo como nos aproximamos, logo nos afastamos – pois queríamos ações rápidas e transformações imediatas; e o caminho de trabalhar libertação é longo, árduo, duro e demorado. Que política tem nos guiado? Falar da liberdade e da salvação nos torna libertadores? Não repetimos o mesmo processo de imposição de democracia estadunidense? Invadimos outra terra sem que o povo de lá tenha necessitado ou pedido, decapitamos os líderes, treinamos rebeldes e depois vamos embora deixando uma terra arrasada, gente devastada e pequenas milícias fundamentalistas (agora armadas com outros instrumentos) que se virarão – com certeza! – contra tudo, todos e nós. De libertadores a causadores de genocídio.

Em últimos textos tenho dito que precisamos sistematizar nossa teologia. Talvez eu estivesse errado. Antes, precisamos resgatar o espírito que guia e inspira a teologia: a vida diária da gente na rua, o que está acontecendo, quem precisa ser liberto aqui do nosso lado. Antes precisamos é nos encher do Espírito. Antes, precisamos rever nossos projetos, nosso modo de viver, produzir e reproduzir teologia. Para quem faremos isso? Enquanto não soubermos responder, não adiante sistematizar. Nossa teologia precisa legitimar, primeiro, outra política.

Bruno Reikdal Lima

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