O Outro não se manifesta: o Outro se revela

levinas1Escrevi Para ler Emmanuel Lévinas com o intuito de apresentar uma chave de leitura de seus textos. Tentei montar, de maneira um tanto limitada, um instrumento de interpretação que facilitasse a leitura e sistematização de sua obra. Percebi, porém, devido a conversas e estudos, a necessidade de também esboçar o “tema” central de sua filosofia: o problema por ele trabalhado. Esse exercício é importante para trabalharmos o conceito de sujeito e as relações entre sujeitos. Como escrevi em posts recentes apresentando uma proposta de Jung Mo Sung: o sujeito está para além de seus papéis sociais

Emmanuel Lévinas, judeu nascido na lituânia e naturalizado francês, foi aluno de Husserl e Heidegger. Foi o primeiro francês a mergulhar na corrente filosófica nascente chamada “fenomenologia”. A abrangência e densidade dessa escolaa é imensa. Porém, tanto para facilitar o andamento do texto quanto para delimitar bem o ponto central da proposta levinasiana, façamos um recorte generalista. Lévinas aprende com Husserl o problema do sentido: uma reflexão profunda sobre o conhecimento e a relação entre o sentir (a sensibilidade) e a constituição do que conhecemos.

Lévinas descobre que constituímos sentido em relação aos objetos do mundo. Aquilo que “aparece”, que se manifesta à mim no mundo, se manifesta enquanto objeto, como sendo objeto. Parede, mesa, pedra, casa, celular, gente… Gente? Da relação pessoal, não com objetos, mas com pessoas, com sujeitos, como constituo o sentido do Outro? Aqui encontramos o tema e o problema levinasiano: conheço o que se manifesta, o objeto com sentido, mas o Outro também é e se manifesta como objeto?

O que vejo do Outro e que se manifesta como objeto – seu cabelo, olhos, pele, roupa, etc – não é subjetivo, não se apresenta como sujeito. Entretanto, há no Outro e em relação com o Outro uma experiência profunda, além da objetivação, além daquilo que é e está sendo manifesto. O Outro excede aquilo que é. O que vejo, o que sinto, o que me possibilita constitui-lo como objeto, ainda assim, não é o Outro. Ele está além “dos meus olhos”, além do horizonte que minha vista alcança. Lévinas introduz, assim, um novo marco categorial: o Outro, enquanto sujeito, não se manifesta, mas se revela enquanto Outro.

Não sou em que constituo o Outro, mas em relação ele se revela para além daquilo que “capto”. O Outro não se manifesta no mundo; o Outro se revela no mundo. Heidegger, de quem Lévinas é aluno-crítico, produziu em sua filosofia um significado especial de mundo: aquilo que tenho pensado na totalidade de minhas experiências enquanto vivo e imerso nelas. O ser é uma totalidade, pensada pelo homem dentro, inclusive, da própria totalidade. É um desdobrar-se complexo e profundo do mundo que é conhecido enquanto se está vivendo constantemente no mundo. O Outro é Outro parte da totalidade, do ser, do mundo e, quando é percebido, só pode sê-lo se tiver se enquadrado no sistema. Lévinas o critica á partir do tema que vimos: o Outro não pode estar em minha totalidade, ser captado por mim, mas está para além. O Outro não se manifesta, se revela no mundo.

Com uma linguagem rebuscada e abstrata, Lévinas procura resgatar o Outro enquanto sujeito, além do Eu que conhece e domina/conquista o mundo. O sujeito transcende o que se manifesta. O sujeito se revela, por detrás e para além do que fora observado, captado no horizonte. É a partir disso que Lévinas metaforicamente substitui o “ver” e a “luz” da razão pelo “ouvir” e pela “noite”. A revelação do Outro vem do ouvir sua voz. Um encontro profundo, relacional, entre sujeitos. Por isso, para Lévinas, a “ética é a filosofia primeira”, pois não se parte, à princípio como primeira experiência, a relação “sujeito-objeto”, na qual o sujeito conquista e capta o objeto, mas do sujeito-sujeito, na qual o Outro se revela para além de meus domínios.

A Filosofia da Libertação encontrará em Lévinas a possibilidade de ir para além do sistema. Mais que isso, de desenvolver um método próprio, que não apenas vai para além, mas parte do excluído, tem como referência aquele que é fora da totalidade. O tema da filosofia de Lévinas é o Outro que se revela no mundo. O tema da filosofia da libertação é o pobre que é excluído do mundo. Existe uma chave comum: o “além” do sistema: a relação entre sujeitos, que não são e não devem ser suportados objetivamente, em sua manifestação. Sujeitos que são constituídos por tempos, história, vida e experiências diferentes. Sujeitos que não são “conhecíveis”; são eles que se revelam.

Quem quiser algumas indicações a mais sobre Lévinas, nesse blog você pode ler: Para ler de Emmanuel Lévinas, Metafísica como caminho para além do sistemaA diferença do tempo entre nós: o tempo a partir de Emmanuel Lévinas e O Próximo: categoria absoluta de uma ética comunitária.

Bruno Reikdal Lima

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