Marcos categoriais: é tempo de descolonizar a cabeça

pensador“É tempo de descolonizar a cabeça”. Essa frase foi dita por Enrique Dussel em uma aula no início desse ano. 2015: ainda somos colonizados. Colonizados num sentido especial: intelectualmente – temos um “marco categorial” colocado e utilizado cotidianamente, comumente, construído comunitariamente em relação com outros, com nossa história, nossa herança cultural e genética, familiar, etc. Este marco categorial, a grosso modo, é o instrumento que utilizamos comumente na compreensão e na interpretação do mundo. É nossa falsa consciência: estamos pensando, estamos vivos, nos sabemos como nós. Mas não percebemos onde esse “nós”, ou o Eu, está e como ele se coloca no mundo. O exercício de nos posicionarmos – nos percebermos – e agirmos intencionalmente utilizando um marco categorial, é o que chamamos de “consciência crítica”

Agimos, já, vivemos sempre. Mas não necessariamente criticamente conscientes do que estamos fazendo, qual é nossa ação. Podemos agir intencionalmente (consciência crítica que se percebe e se auto-referencia) ou não-intencionalmente (com consciência falsa, habitual). Quem chegou a ter uma aula de filosofia, história, geografia ou sociologia com algum professor mais “modernoso” no colégio ou na faculdade, ouviu muito sobre a necessidade de se ter um “senso crítico”. O problema é que não se trabalha na análise e delimitação de qual é o nosso marco categorial. Menos ainda há o trabalho de construção de um “novo marco categorial”. Apenas propomos uma resposta alternativa ou opositiva àquelas que utilizamos habitualmente. Como resultado, podemos ou não trocar uma resposta velha por uma nova, mas isso não produz uma consciência crítica; senão apenas substitui “resultados prontos”.

O desafio que se apresenta, hoje, para nós que temos que responder a situações críticas (indeterminadas), atender a necessidades urgentes e emergentes completamente diferentes das questões de tempos anteriores, é criticamente reconhecermos nosso marco categorial e, na medida do possível e necessário, precisamos trabalhá-lo: alterá-lo com a criação do “novo”, de outro marco. Enquanto estava na faculdade, animado por estudos de pragmatismo e movimentos teológicos (irrefletidos) de minha comunidade, me empolguei com a ideia de pensar menos e fazer mais. Ingenuamente, opunha o “pensar” ao “agir”. Como leitor de Zizek, me irritava quando lia nele que “é preciso parar, pensar e refletir. Hoje querem fazer e fazer. Não! É tempo de teorizar”. Era ingenuidade minha. Não tinha estruturado ainda muito bem meu próprio marco categorial; não havia minimamente sistematizado meu instrumento de compreensão e interpretação do mundo. É necessário trabalharmos nosso marco categorial praticamente , desenvolver consciência crítica, e aí sim descobrirmos o que é possível criar e produzir a partir dessa nova ferramenta intelectual.

Sim, enquanto não transformarmos os meios de produção e o processo intelectual de trabalho, continuaremos colonizados. Enquanto não nos posicionarmos, continuaremos reproduzindo e repetindo, sem efetivamente (ou criticamente) pensar. Posicionar-se não é tomar partido, levantar cartaz, dar uma resposta x ou y, à princípio. Posicionar-se é saber onde se está e se firmar – seja reconstruindo nossa casa ou alterando o relevo do chão que a sustenta. É preciso de auto-consciência crítica: não apenas de criticar aquilo que se me apresenta, mas também, e primeiro, criticar o próprio modo como enfrento aquilo que está no mundo.

Marx nos ensinou que a transformação dos processos produtivos alteram as demais estruturas. Revoluções nos meios de produção impulsionam outras revoluções. Enquanto não se alteram os processos de produção, não se alteram as relações com os produtos e impede novas produções. Mudar o produto sem ter mudado primeiro o processo produtivo não romperia com a escravidão. Marx faz isso numa análise histórica; mas podemos trazer o modelo para uma abstração e utilizá-lo como analogia para nossos marcos categorias: enquanto mantivermos os mesmos marcos, não se alterarão os sentidos e os significados. Mudar o “produto final” não transforma o processo. Claro, isso já seria tradicionalmente um suicídio marxista: abstrair é quase um pecado capital. Mas, malandramente, justifiquemos esse movimento dialeticamente: retomar esse momento de abstração para, em seguida, empurrá-lo novamente ao concreto – como Marx diria, ascender do abstrato ao concreto – permitindo uma subsunção: a abstração será engolida por esse novo sistema na concretude complexa. O que se pretende com tudo isso é afirmar: precisamos nos posicionar, nos reconhecer delimitados por certo marco categorial de “colonizados” que precisa se libertar. Assim, construir um novo, um outro marco categorial para que nossas necessidades sejam atendidas e os nossos cartazes, reivindicações, discursos e clamores tenham sentido, além de significado.

Nossos discursos ideológicos, crenças e lutas se tornaram um movimento de consumo: compramos um ou outro, de acordo com nossos desejos imediatos, e assumimos como natural e necessário. Se nos cansa, consumimos outro. Há um mercado de ideologias e lutas. A falta de consistência, apelo ou capacidade de unir comunitariamente as vozes de oprimidos se dá porque não alteramos o modo como vivenciamos o mundo. Estamos consumindo produtos intelectuais, alterando a resposta, mas não a própria produção, o trabalho criativo. Não constituímos um discurso descolonizado, autocrítico. No fundo, mantemos as dominações contra as quais lutamos. Paulo Freire já entendia isso em sua pedagogia: o oprimido tem dentro de si o opressor; e seu processo de libertação não pode fazer com que ele se torne um opressor, mas sim libertador (inclusive de quem o oprimiu). Não somos todos efetivamente oprimidos, mas temos sido opressores, exatamente por não termos mudado o modo de agir no mundo. Nossa mentalidade ainda é de colonização. Quem deixou de ser oprimido, se tornou opressor, mantendo viva a opressão.

Isso não significa que nossas ações devam parar e/ou que não tenham nenhum significado. Não! Pelo contrário: devemos agir, mas criticamente e em uma frente mais profunda e consistente. É preciso calma, estratégia e paciência. Os movimentos tem significado, mas não encontram sentido, pois o sentido depende do lugar em que a “coisa” ou o movimento ocupa dentro de uma totalidade – de nosso mundo visto à partir do marco categorial. O instrumento de auxílio para organizar os significados no mundo para que eles tenham sentido é o marco categorial. Assim, muitas vezes as vozes não encontram eco, pois não há sentido dentro de outra totalidade, outro sistema-mundo. O único sentido que encontra é da estrutura de colonização. Nosso marco categorial que coloniza nossa cabeça ou faz de nossa cabeça uma cabeça colonizada opera na linguagem e na manutenção da opressão. Ao lançarmos mão dele sem criticá-lo e reconstruí-lo, nos dirigimos em favor da opressão e da manutenção do sistema opressor.

Deve-se romper com o sistema de opressão. E isso só se desconstrói “descolonizando a cabeça”. Certa vez, em uma aula, era apresentado o período em que as teorias racistas eram tidas como científicas e que seus “defensores” alegavam serem as culturas e civilizações de negros ou índios ou asiáticos “atrasadas”, de um tempo antiquado. Em revolta, a primeira reação dos alunos foi chamar estes “intelectuais” de atrasados e seu tempo de antiquado. Percebem? Mantiveram a estrutura! Repetiram o mesmo modelo daqueles que criticavam. O professor, tentando dar uma acalmada e trazer o ar de “estudos neutros” argumento: “Calma, temos que entender que era a ciência daquela época” – ou seja: atrasada, antiquada. Não conseguimos romper com um traço desse marco categorial: o tempo com o binômio atraso-avanço, sendo que quanto mais “para cá”, mais avançado e necessariamente melhor, e mais para lá atrasado e necessariamente ruim. É a mesma repetição de quem hoje lê certas notícias e diz: “estamos voltando à idade média?”. Não conseguimos superar o marco categorial. No fundo, o que se diz é que nós, que já superamos essa idade ruim, somos “modernos” e avançados, melhores do que aqueles – que eram ruins por serem opressores! Mantemos a opressão, apenas alteramos os produtos.

O marco categorial que estrutura nossas posturas é a estrutura “moderna”. Filosofia carregada de pressupostos que precisam ser percebidos, avaliados, criticados e, talvez, alterados. Boa parte de nossos embates em temas polêmicos tem sido esforço deslocado. Tratamos da casca, imediatamente, lutamos por coisa pouca, nos destruímos e odiamos por nada, porque estamos dentro de mesmas estruturas consumindo produtos diferentes. O problema está nas estruturas! Não adianta reformar as paredes da casa se a fundação está comprometida.

Escreverei, em breve, um texto mais direto, especializado, destrinchando o “lugar” em que estamos – de maneira generalista -, as necessidades que se apresentam e caminhos para construirmos um novo marco categorial. Por ora, fica a proposta de que percebamos que a posição e disposição crítica e transformadora depende – primeiro e muito além do que levantar um cartaz – de pensar de “outra maneira”. Espero que nosso desejo e ansiedade por realizações tendo em vista uma vida melhor, um novo projeto de vida (seja político, econômico, social, científico, etc) suporte um tanto e tenha paciência nesse primeiro passo: construir um novo jeito de olhar para o mundo. O cartaz tem significado, mas só terá sentido quando estiver em seu lugar “adequado”. Mensagens serão compartilhadas, lutas e crenças se tornarão comunitárias, quando estiverem firmadas e constituídas em um novo “marco categorial” (o chão em que nos posicionamos para experienciar o mundo). Mudar o produto sem ter mudado o processo produtivo não romperia com a escravidão. Nosso trabalho é transformar autocriticamente nossas próprias bases.

Bruno Reikdal Lima

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3 comentários sobre “Marcos categoriais: é tempo de descolonizar a cabeça

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