Mudança sistêmica: posição além de Rorty

rorty_supAo fim de toda experiência, deve-se retornar ao objeto experienciado (motivo e fundamento da investigação) descrevendo o caminho que foi tomado: o método. Em seguida, deve-se convidar outro para que trilhe o percurso, tornando possível a verificação da experiência, enriquecendo o método e seus resultados. Pelo menos é assim que John Dewey propõe o processo de “verificação” em Experiência e Natureza. É assim que ele desenvolve seu método pragmático de pesquisa em filosofia

Richard Rorty, filósofo que admiro e que se tornou minha “porta de entrada” ao pragmatismo estadunidense, não toma o caminho verificacionista de Dewey; opta pelas propostas políticas e por suas “reconstrução” em filosofia. Porque é importante essa explanação toda? Porque ela é exemplo de construção de um sistema significativo de justificação: determinados caminhos que enredam significados e produzem sentidos. Rorty traça suas críticas a certa tradição filosófica e desenvolve sua “ironia” escolhendo interpretar o mundo à partir de um marco teórico fundado não no método pragmático de Dewey, mas em suas proposições pragmáticas. Assim, o sentido de sua produção teórica precisa ser entendido dentro desse sistema e suas conexões.

O trabalho com filosofia muitas vezes é chato, demorado e cansativo por causa disso: você precisa enxergar o sistema que justifica determinada expressão. Quando Rorty indica suas inspirações – Nietzsche, Dewey e Heidegger -, está apresentando os caminhos que tomou e que precisam ser seguidos para que sua filosofia seja compreendida. Quando cita Habermas, Fukuyama, Marx ou Hegel, apresenta concordâncias e discordâncias: mais alguns pontos de seu sistema, de seu marco teórico. Vendo, tateando, ouvindo… Começamos a entender o sistema, enxergar seus fundamentos, seu desenho, organização e, a partir disso, se torna possível criticá-lo.

Neste post, apresentarei traços do sistema de Rorty (desenhando, na verdade, um rascunho dele num guardanapo) e, enquanto isso, fazer uma crítica sistêmica (desenhando outra forma possível em outro guardanapo). O objetivo final é exemplificar a análise de um sistema significativo de justificação (filosofia) e abrir caminhos para críticas. Precisamos aprender esse trabalho. É o que tenho escrito em outros textos a respeito da construção de um “marco teórico” próprio.

O texto chamado Fim do leninismo, Havel e esperança social possibilita didaticamente entender “com quem” e “como” estamos conversando. Nele, Rorty está fazendo uma crítica a uma tradição filosófica delineada por ele como Platão-Hegel-Marx-Heidegger. A crítica objetiva é ao sentido que “história” tem para essa tradição: um caminho de lutas, puro, destinado aos “heróis-sábios-intelectuais”. É o “romance da história”, que sonha com uma política utópica em que o mundo inteiro viverá em paz, alcançando a glória e a ordem perfeita. Seria uma filosofia que tem como fundamento primeiro a República de Platão; que ganhará outros caracteres e sentidos, mas com o mesmo significado: um ápice no fim da História em que todos viverão plenamente felizes, sustentados na justiça, no bem e sem miséria.

Aqui já podemos comentar a função de um sistema: dar sentido aos significados. A “política utópica” tem o mesmo significado, para Rorty, na tradição de Platão a Heidegger. Isso significa que é “a mesma coisa”? Não. O significado dessa cosia (política utópica) tem diferentes sentidos nos diferentes sistemas dos filósofos citados. Dependendo o lugar que um significado (uma coisa) ocupa dentro de um sistema, tem determinado sentido. Um exemplo que Enrique Dussel dá é: imagine uma mesa; ela tem um significado já sabido, mas quando você a vê com as quatro pernas para cima, ao contrário do que “deveria”, você diz que “não faz sentido!”. Tem o mesmo significado – continua sendo mesa -, mas o sentido é alterado pois está disposto em um lugar e de modo diferente. Para que tenha “sentido”, todo o sistema terá que ser reorganizado. Se isso não ocorre, não entendemos o porquê aquela coisa ou aquele significado está com “outro modo”, em outro lugar – fica sem sentido!

Rorty, então, propõe que a esquerda precisa jogar fora o vocabulário que constitui esse “romance da história”. Com críticas contundentes e geniais – que serão tema de outro texto – que não utilizaremos aqui, apresenta seu interlocutor: os intelectuais estadunidenses. Sua conversa é direcionada para a esquerda e para a intelectualidade existente na realidade concreta, histórica e determinada das universidades dos Estados Unidos da América. Assim, para eles, afirma que deveríamos entender a preocupação de Fukyuama (que escreveu a respeito do “fim da História”) que o que está sendo constatado em nosso mundo não é o fim da história propriamente falando, mas o fim da “filosofia da história” e com ele o fim desse romance da história. A história deixou de ser um objeto manipulável por nós, intelectuais-filósofos do ocidente, o que impede que declaremos “paz eterna” e que proponhamos “justiça e fim da miséria humana”.

“Filosofia da História” e “História como Objeto” são referências direcionadas: tem que ter sentido à partir de Hegel e Heidegger, respectivamente. Hegel propôs uma filosofia da história que considerava a passagem do tempo como o processo de encarnação e consumação do Espírito rumo à liberdade absoluta. O trabalho intelectual seria saber analisar esse movimento e trabalhar como guias sábios para o bom fim, gran finale. Marx, em certa medida, assume o movimento ao tornar o trabalhador como o agente revolucionário que instaurará o comunismo e a “salvação” humana. Heidegger, por sua vez, estabelece um sentido de história diferente (bem diferente) e tenta, à partir do fundamento ontológico, entender a história como objeto, como o ser-aí que passa e se demora compreendendo-se; era o problema de entender o , o hodierno, e o passado na construção do “mundo”, na vivência do ser-aí-no-mundo (Ser e Tempo e Ontologia).

“Descobrimos” que não conseguimos dar conta nem desse desenvolvimento da história e, muito menos, tê-la como objeto. Descobrimos, então, que não damos conta dessa “fantasia” de política utópica, de conhecimento do absoluto, da História e seu movimento, da realização da justiça plena, etc. A partir disso, Rorty constrói positivamente as contribuições desses autores (Hegel e Heidegger), mas optando por outras características: paramos de pensar “como as coisas deveriam ser” (Hegel) e que “a filosofia não é mais que seu tempo apreendido em pensamento” (Heidegger). É à partir desses dois pontos que podemos entender a “criatividade e imaginação” necessárias à filosofia hoje, que Rorty propõe, e a sua limitação: ela é limitada, histórico-temporal.

Marx e o marxismo são entendidos, assim, dentro desse sistema: seu vocabulário e suas proposições clássicas fazem parte do romance histórico, dessa fantasia de política utópica. Rorty, como lhe é característico, propõe que se abandone esse vocabulário romântico, que se criem novos nomes (novos significados) a serem adicionados ao sistema. Note-se que não há a proposição de transformação radical do sistema, mas abandono e adição de vocabulário. A mudança sistêmica, nessa concepção rortyana, viria da gravidade dos novos significados, que seriam capazes de desordenar e repolarizar o sistema. Assim, Rorty escreve:

Os eventos de 1989 convenceram aqueles que ainda tentavam se segurar no marxismo de que precisamos de um modo de apreender nossa época em pensamento, e de que precisamos de um plano para tornar o futuro melhor do que o presente, que agora há de se abandonar a referência ao capitalismo, ao modo de vida burguês, à ideologia burguesa e à classe trabalhadora […] Não podemos mais usar o termo ‘capitalismo’ para indicar tanto ‘a economia de mercado’ quanto a ‘fonte de toda injustiça contemporânea’ […] necessitamos encontrar novos nomes para essas coisas […] Uma razão pela qual todos nós de esquerda internacional teremos de arrancar de nosso vocabulário termos como ‘capitalismo’, ‘cultura burguesa’ (e até ‘socialismo’) é que nossos amigos na Europa Central e Oriental olharão para nós incredulamente se continuarmos a empregá-los.

Tem-se uma proposição criativa: novos nomes, novos significados. A produção de novas possibilidades em Rorty precisa ser entendida dentro desses quadros (e outros, além de muitos detalhes que não cabem aqui, nesse exercício).

Mas é desenhando esse sistema, de uma conversa com certos autores, dentro de uma tradição Europeia de filosofia, descartando certas estruturas e adotando outras, sabendo-se que o interlocutor é a intelectualidade estadunidense e que, no fundo, não se propõe uma mudança sistêmica radical, mas uma transformação (reforma) à partir da produção de novos significados, que podemos traçar críticas. Veja que Rorty não abre possibilidades para além de um sistema-mundo determinado. Ele assume, mesmo que implicitamente, uma História Universal que está sendo apreendida por um círculo contemporâneo determinado (esse sim assumido) e fechado de “pensadores”. Ao afirmar que a filosofia é o tempo apreendido pelo pensamento, Rorty se fundamenta na Ontologia de Heidegger e subsume em seu sistema, na totalidade, o “espaço”: o lugar em que esse pensamento apreende o tempo. Eis a primeira crítica: é um sistema que considera a limitação histórico-temporal da filosofia, mas esconde em si a situação-concreta-espacial.

No texto (que vale muito a leitura!), Rorty fala de outras localidades e da frustração de “nós” (leia-se: intelectuais norte-americanos) não conseguirmos cuidar “deles”: crianças em Uganda, pobres da periferia de Lima, no Peru. Ou seja, a opção por abandonar o romance da história e seu vocabulário é o caminho encontrado para que se possa manter o sistema significativo de justificação intacto: ainda somos os especiais na história universal, mas temos que assumir nossa incapacidade de acabar com a miséria e instaurar a justiça. Deixemos de ser Messias; acostumemos que somos os salvos e que a desgraça do mundo faz parte. É um caminho de solução de problemas específico: para o pensamento processual estadunidense.

Esse sistema, aqui, para nós latino-americanos, não é apenas assustador como uma manutenção imperialista: não existem colonizadores e colonizados, culpados e inocentes, opressores e oprimidos, apenas o que está acontecendo. Não temos um paradigma, um marco categorial, um sistema significativo de justificação estruturado para conseguirmos seguir o mesmo método de Rorty. Se o tivéssemos, talvez fosse útil. Porém, nossa situação concreta-histórica-temporal (note que coloquei concreta para que lembremos que o lugar em que estamos é fundamental e constituidor de nossa compreensão de mundo e produção filosófica) não é de adaptação sistêmica, mas ou de produção ou de mudança radical. Produção nos âmbitos que não possuímos nenhum; mudança naqueles que simplesmente adotamos como “colonizados”. Não é do interesse e nem funcional para Rorty e para a intelectualidade estadunidense uma mudança radical no sistema; o simples abandono e/ou adição de nomes é útil. Não é esse nosso lugar, nossa posição…

Heidegger ensina em sua filosofia que o ser-no-mundo compreende-se e precisa se compreender: fazer da história objeto – o “pensar o tempo que passa”, ou o que Rorty retoma, “apreender o tempo em pensamento”. Isso é um método para a constituição de um sistema. Além disso, mais além, temos de adicionar o “lugar em que estamos”: nossa realidade de excluídos de um sistema-mundo. Não apenas excluídos no que diz respeito ao mercado, tecnologia, etc. Excluídos de sistemas significativos de justificação: o próprio Rorty chamando crianças de Uganda e moradores da periferia de Lima de “eles”. Hegel considerava a América como “novo mundo” ainda não realizado. Ou seja, os índios, as civilizações que aqui habitavam, a vida das pessoas concreta e cotidianamente, a história, cultura, experiências, ainda “não-são”. Somos “excluídos”, o “eles” o “não-nós” – e essa noção e posição nos permite sermos críticos, produtivos e transformadores: podemos criar do nada (além do sistema, de modo mais perfeito do que Rorty que cria a partir de um sistema consolidado) e mudar completamente à partir de nossa posição, sistemas vigentes.

Como indicação, fica um texto que escrevi a respeito da construção de marcos categorias. Espero que seja útil: Marcos categoriais: é tempo de descolonizar a cabeça     😉

Bruno Reikdal Lima

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