O fundamento da violência

Não falaremos de policiais militares, nem de civis, nem de ricos, nem de pobres, nem de negros, nem de brancos, nem de adolescentes, crianças, adultos ou idosos. Não são os políticos, nem os banqueiros, nem os estudantes, estudados ou os “fora da escola”. Nos importa, aqui, nossa relação como  sujeito: para além de todo sistema, de toda função social, de toda aparência, generalização e determinação, é a vida verdadeira de pessoa como pessoa. Para além de todo sistema, o sujeito “transcende” – excede

É no “fundamento” que está a violência como experiência humana. Esse termo para a maioria dos filósofos e pensadores contemporâneos parece não ter tanto sentido. Parece algo vazio, “etéreo”, coisa de “primitivos”. É a tentativa de acabar com a Metafísica. Mas sejamos mais originais: vamos entender meta-física do modo como essa palavra surgiu, mesmo: depois dos livros sobre a “física”, sobre as “casas”, as “aparências”, nossas funções-sociais, olhemos para a complexidade de nossas relações pessoais: significados das experiências, das palavras, o modo de ver o mundo, nossa formação comunitária, cultural, dependente, genética… Essa série intensa e complexa que resulta em sermos pessoas, humanos: gente que é-no-mundo estando para além dele – somos mais do que nosso rosto e mais do que aquilo que fazemos.

Nesse mais, nesse além, que a violência precisa ser trabalhada, transformada. Esse turbilhão de complexidades, nossa subjetividade, se revela quando nos posicionamos para além de nossa função social, no espaço sem lei vigente: na comunidade pequena, no momento solitário em que nada nos impede, em que podemos agir “abertamente” ou quando estamos protegidos pela tela de um computador. É onde, no exterior de um sistema, conseguimos apresentar o fundamento. É quando gastamos a raiva do chefe contra o filho porque ele derrubou água no chão; quando a violência que desejávamos dirigir para o professor se volta contra os irmãos; quando até, dentro do carro, sozinhos, decidimos punir alguém com uma “fechada” no trânsito por estar andando mais lentamente do que deveria; quando gastamos com veneno-ódio-rancor e excesso de sarcasmo em algum post nas redes sociais.

É nesse sentido que entendo o “opressor dentro do oprimido” em Paulo Freire: quando o sujeito enquanto sujeito se confunde com o próprio sistema (se percebe e percebe os outros apenas como atores sociais): encontra nas relações sistêmicas seu fundamento e se torna reprodutor de determinada estrutura. Nas relações sociais ou de trabalho, sou tratado por meio de regulações e violência. Sendo pessoa, além dessas relações e funções, não consigo transcender e nem me perceber como  mais do que isso: ajo como violento. Emmanuel Lévinas diz que Ética é Meta-física: é a relação pessoal, entre duas pessoas, para além das funções sociais, numa experiência sem mediação. O Outro aparece e sou responsável por ele, me relaciono com ele. Se não conseguimos transcender as funções sociais, nos perceber à partir da exterioridade de um sistema, não vemos o verdadeiro fundamento da violência e confundimos a atuação dentro de um sistema com a própria pessoa. A pessoa está além e para além, sempre!

Observemos a afirmação de que o Brasil é um país pacífico: no Índice Global da Paz, “ocupa a 103a posição de um total de 162 nações – atrás de Haiti, Cuba, Argentina e Serra Leoa” (veja a reportagem Brasil cai em ranking da paz e eleva ‘custo’ mundial de violência, do El País). Quando nos referimos à nossa atuação social como brasileiros, dizemos que somos gentis, alegres e de paz. Temos uma média de mais de 50.000 mortes anuais por homicídio; o valor gasto pelo Estado com questões de violência é 7 vezes maior do que o investimento em saúde. Essa é a “casca”, onde aparece o problema da violência. Mas um número tão alto não pode encontrar sua fonte na atuação de “bandidos” ou “policiais”: está além, faz parte de nossa construção pessoal – e é lá que devemos e precisamos trabalhar, transformar. É a partir de lá que podemos nos libertar dessa estrutura sistêmica assassina, violenta, doente e maléfica.

Encontrarmos escândalos de corrupção em todas as instituições e atuações sociais tem que nos mostrar que a libertação do sistema não vem à partir dele, mas numa posição exterior a ele: que possa intervir na questão de modo criador, de um lugar outro que não este. Ao vivermos os problemas da violência – e da corrupção – ficamos indignados com o sistema e desejamos impetuosamente transformá-lo. Assim, lançamos mão das primeiras armas que “vemos pela frente” e atacamos os fenômenos que se nos apresentam: o menor que assaltou, o policial que assassinou, o político que corrompeu, o pastor que extorquiu, o crente que atacou… O problema é a Igreja?Destrua ela. O problema é a política? Explode uma bomba no Congresso. O problema é o adolescente? Taca ele na cadeia. O problema é o pastor? Botemos todos na forca. O problema é o professor? O problema é o taxista? O problema são as mulheres? Os homens? Os brancos? Os negros? As roupas? Não! O problema é que como pessoas, deixamos de ser pessoas para assumir uma função, para manter um sistema. Repetimos os padrões de violência sistêmica mesmo quando se abre a possibilidade de agirmos como pessoa! A transformação das atuações sociais e das estruturas sistêmicas é possível radical e verdadeiramente apenas se assumindo a posição de exterioridade. Precisam, sim, ser alteradas, as exigências sociais continuarem, mas, para que efetivamente se transforme, mudanças profundas precisam acontecer: lá onde somos pessoa.

Sabemos, inclusive, que os problemas são sistêmicos; mas ao invés de transformá-lo assumindo e descobrindo na exterioridade do sistema outro fundamento, promovemos sua manutenção ao utilizarmos das ferramentas do próprio sistema na luta contra ele. No fim, não o transformamos: apenas alteramos as funções dos atores. Não somos atores! Atuamos, sim; mas estamos para além, somos pessoa, sujeitos complexos.

Durkheim escreveu que o enfraquecimento dos laços sociais tende ao suicídio. O rapper Projota tem uma música chamada Mataram um amigo meu em que ele conta a história de uma amigo que cometeu suicídio; mas ele não sabe e nem consegue considerar essa ação como uma decisão do próprio amigo: no fundo, ele Projota tem responsabilidade e, sistemicamente, todos temos responsabilidade. A morte do amigo foi, na verdade, homicídio. O suicídio é, em última instância, a pessoa assumindo completamente sua função social e abandonando sua vida como pessoa extra-sistema. Não é, então, o enfraquecimento dos laços sociais, mas o laço apertado o máximo possível, impedindo a circulação do ar e do sangue: morte. É a violência assumida ao extremo.

Por fim, como exemplo, a Redução da Maioridade Penal como solução para se acabar com a violência é reflexo do oprimido agindo como opressor: a pessoa que deixa de lado a experiência extra-sistêmica para assumir o sistema com sua violência. Isso não significa que a pessoa como pessoa não é violenta, é perfeita, boa, etc. Não! Sem ingenuidade! O que precisamos entender é que a posição de exterioridade ao sistema, de podermos estar para além da função social, é abertura para utopia, para a paz. Se há possibilidade de transformação do sistema, de lutar contra a violência, a corrupção, o mal, é nesse espaço “transcendente”, a partir dele, espaço aberto que pode ser e onde se pode agir de modo completamente distinto – outro completamente outro.

Jesus disse para os fariseus que o mal não é o que “entra pela boca” – numa ação sistêmica de manutenção da vida -, mas o que “sai dela” – na experiência e relação como pessoa para além do sistema. Disse que a violência, o crime e a imoralidade tem como fundamento o coração dos homens, não suas mãos. Deus alerta para Caim que o pecado batia à porta antes de Caim efetivamente realizar o ato. A pessoa é e pode estar para além do sistema. Somos mais que funções sociais; mas a pergunta é: temos nos posicionado como pessoa onde?

Bruno Reikdal Lima

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