Sobre opiniões e sabedorias

É quase que um costume em toda santa primeira aula de filosofia trabalharmos – claro, de diferentes maneiras e abordagens – a diferença entre “opinião” (doxa) e “sabedoria” (sofia). Resgatamos a clássica distinção entre sofistas (emitidores de opiniões) e filósofos (produtores de sabedoria). Por um tempo achei isso besteira, assumindo até uma postura imatura de rejeição à proposta. De uns tempos para cá, entretanto, reencontrei esse mapa e percebi que tinha dado os passos na direção errada! Era um problema de interpretação. Uma coisa é o “produto”, outra é o “meio de produção”…

Tive um professor que ensinou: “filosofia é um método“. Método significa “caminho”. Filosofia é um caminho a se tomar, a ser tomado. Filósofos são os “desbravadores”: os construtores de caminhos. Aqui está a diferença entre opinião e sabedoria: uma é o lugar, outra é o caminho. Nos Tópicos (que significa numa tradução literal “lugares”), Aristóteles explica que dialética é o exercício de discurso que trabalha com a contraposição, os opostos: é saber contrapor argumentos, afirmações. É emitir “opiniões contrárias”. Como exemplo, ele nota o exercício dos políticos nas audiências públicas. Assim, demonstra que é possível a qualquer um aprender a “fazer dialética”. É exercício cotidiano, do “homem da rua”. É possível, sempre, emitir opiniões contrárias.

Assim, “emitir opiniões” não é o trabalho do filósofo. Ele não apresenta “lugares”, mas esboça o caminho para se chegar aos lugares. A dialética é um caminho, um método filosófico – para Aristóteles, o método excelente! -, e é sobre o movimento e as possibilidades de se trabalhar que a filosofia se desdobra. Sabedoria é o “modo de produção”, opinião o “produto”. Sabedoria, no caso aristotélico, seria explicitar o caminho dialético; opinião seria apresentar o lugar em que se chegou.

John Dewey, em Experiência e Natureza, desenvolve seu método pragmático de pesquisa. Ao fim desse compartilhamento, ensina que o investigador filosófico deve seguir um método (caminho) anotando todas as placas, sinais, características da paisagem que forem se apresentando enquanto caminha. Ao final, deve retornar pelo mesmo caminho revisando tudo. Traçado o percurso, feito um mapa, deve-se convidar outros para que siga o mapa e percebam onde se chega com ele, critiquem o que foi visto de errado durante o caminho, enriqueçam o próprio método com sinalizações esquecidas, paisagens não contempladas, etc. O trabalho filosófico está no método. Sábio é quem constrói e apresenta caminhos, ferramentas, não quem está em lugares, entrega produtos prontos.

Hoje é mais do que necessário o ensino de filosofia! É urgente. O que tem se seguido nas discussões em redes sociais, debates políticos, entrevistas, conversas e opiniões sobre o mundo são entregas de produtos acabados, tudo pronto; embates de objetos já realizados que são atirados contra outros. Marx escreve que o meio de produção condiciona a distribuição e as trocas do que se é produzido. Para nós a filosofia seria esse trabalho louco de produzir um novo meio de produção – inovar -, revolucionar tecnologicamente os caminhos que são tomados para a produção de opiniões. É o desenvolvimento de ferramentas conceituais a serem entregues para pessoas, de modo que estas possam produzir por si mesmas opiniões. Possuindo diferentes ferramentas, é-se possível manejar mais de um tipo de produção, até inventar-inovar a tecnologia conceitual (os marcos categoriais) e se tornar autônomo, livre da dependência de outro que possua os meios de produção.

Marx nos Grundrisse faz uma diferença entre o abstrato e o concreto conceitual enquanto desenvolve seu método de filosofia (pouco conhecido e estudado). Para a esquerda, hoje, por exemplo, falta conhecer esse método: o meio de produção intelectual de Marx. O que se tem feito é simplesmente a repetição desenfreada dos produtos aos quais Marx chegou. Não se consegue inovar, desenvolver “tecnologicamente” a teoria, tomar para si os meios de produção, porque não se conhece o caminho, a ferramenta, apenas o “lugar”, o produto. O marxismo fez de Marx um burguês (que sacrilégio!). Assim como os teólogos filhos da Libertação: perderam de vista as ferramentas, o caminho tomado para se chegar a certas propostas (produtos intelectuais) e se tornaram consumidores e emitidores de opinião.

Creio que hoje seja um desafio para nós, sábios, a apresentação dos caminhos, das ferramentas, de modo a dar autonomia às pessoas para que construam suas opiniões, tomem posse dos meios de produção, e inovem, criem, recriem e produzam autenticamente aquilo que é necessário. Ei! Não nos enganemos: sábio não é o filósofo que emite as opiniões, que sabe discursar e apresentar os resultados a que outros chegaram, mas aquele que sabe tomar caminhos e produzir caminhos; aquele que toma e compartilha os “meios de produção”, as ferramentas conceituais, dando possibilidade para que outro indivíduo assuma autonomia, se liberte da reprodução mecânica na indústria de opiniões. É qualquer “homem de rua”.

É esse nosso desafio e missão nesse momento: distribuir ferramentas.  Hoje vivemos numa exibição de produtos, numa disputa de mercado aberta e sem “regulação de mão invisível”. Destinados ao colapso e uma guerra inútil, de manutenção de sistema,  em que um atira contra outro produtos e não compartilhamento dos meios de produção, que um atira contra o outro opiniões ao invés de compartilhar os métodos, as ferramentas, não promoveremos libertação nunca. Enxergaremos no outro, que como nós é “proletário”, o inimigo. Se hoje nos consideramos autônomos e “libertos”, capazes de transformar o sistema, que paremos de emitir opiniões e comecemos a produzir caminhos, apenas.

A libertação do Outro é minha responsabilidade, mas decisão dele.

Bruno Reikdal Lima

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