“Ninguém quer ser José”: sobre economia política

Mundo-716x393Alguns amigos mais velhos diziam essa frase quando eu era adolescente: “Ninguém quer ser José, né?!”. Tinham muitas referências (desde um “Zé” qualquer até “José” marido de Maria, que assumiu um filho que “não era seu”…), mas vamos redirecionar o sentido: ninguém quer administrar crises. José do conto semita – aquele que é vendido como escravo e depois de interpretar sonhos se torna governador do Egito – tem que resolver um problema: sustentar a economia de uma nação durante um longo período de escassez. Pior, esse período vem imediatamente após um período equivalente de fartura. Coincidentemente, vivenciamos um período de fartura recente e temos entrado em um momento equivalente de escassez. Nesse momento, é importante adequarmos nossas categorias (ferramentas interpretativas) para enxergar o que está acontecendo

No texto bíblico, José tem a habilidade de interpretar sonhos. José sabe fazer previsões: tanto dos êxitos quanto das desgraças. Ele não é “sonhador”; é intérprete dos sonhos, dos desejos, dos possíveis efeitos das relações familiares, institucionais e econômicas. Assim, ele diz: “Virão 7 anos de fartura, em que haverá alimento em todo o Egito. Depois virão 7 anos de fome. E a fome será tão terrível que ninguém lembrará do tempo de fartura, em que havia excedente” (Gênesis 41: 29-31).  O efeito de uma série de relações, de desejos e ações, será duplo e sazonal: excedente e fartura, falta e fome. Por causa dessa habilidade de previsão, o faraó o encarrega de governar a crise: é da responsabilidade de José gerir o excedente de produção no período de fartura para que seja possível a superação do período crítico de recessão. O problema: ninguém lembrará do tempo de fartura.

Essa é uma das dificuldades que José terá de enfrentar: ninguém vai se lembrar do crescimento recente. Os processos econômicos não são previsíveis por si, mas em constante relação política: é das determinações da administração pessoal das relações e da gestão do excedente que nasce a possibilidade de enfrentamento de crises. Nos acostumamos a enxergar a “economia”  através de números – e isso nos esconde aquilo que “realmente acontece”. Cremos, por exemplo, que economia é uma ciência e todas as ações administrativas calculáveis. Mas, ao mesmo tempo, não percebemos o óbvio: os “economistas” não conseguem prever as crises e apenas descobrem as “causas” depois que elas acontecem. Ou seja: a economia não gere excedente e nem apresenta o que está acontecendo, mas tem agido apenas como ferramenta de análise posterior. Sem “José” a economia por si só não consegue superar a crise.

O governo Dilma tem sido criticado por causa da crise econômica – tem sido essa a bandeira da “oposição”. Nesse período de vacas magras, esquece-se do período anterior das vacas gordas: os anos de fartura foram abandonados na memória por causa do surgimento de anos de recesso. Apenas por números, os economistas criticam a desaceleração de “crescimento”, mas escondem que ainda há excedente de produção disponível e que aquilo que fora produzido é mais que suficiente para a superação de crises. O problema primeiro, anterior e ulterior não é a administração de “agora”, isolada das relações indeterminadas. As vacas magras “uma hora chegam”, e as pressões “externas” não estão sob controle daquele que administra. O que está na mão de quem gere é a capacidade de previsão, apenas.

Aí a falta e a falha da economia: portando-se e reportando-se aos números, escondendo que a produção não nasce sozinha, mas da relação entre materiais disponíveis e trabalhadores com acesso a eles, não prevê o que “vai acontecer”, mas apenas acusa aquilo que está acontecendo enquanto acontece. Cabe ao gestor do excedente prever e realizar a boa governança. Problema: o gestor do excedente de produção não é o mesmo que o dono dos meios que produzem. Ou seja: diferente de José, prever e administrar a crise não está nas mãos da mesma instituição – muito menos de um mesmo projeto! Assim, temos duas categorias ocultas: a origem da produção e a gestão do excedente.

Esses “economistas” tomam como origem da produção a preferência de um mercado. Assim, trabalha-se não para satisfazer necessidades pessoais de gente real, de carne, concreta, mas para atender as preferências de alguém que compra produtos. Mas, de verdade, o trabalhador não trabalha porque prefere consumir alguma coisa, mas trabalha porque necessita de meios que permitam-no manter-se vivo! A origem, ou melhor, a fonte de produção, não é a preferência do consumidor, mas a necessidade de uma pessoa de reproduzir sua vida. No outro espaço, os economistas responsabilizam a ordem estatal (o governo) pela gestão dos recursos produzidos como se fosse ele o “dono e responsável” pelos meios de produção, quando, na verdade, os excedentes de produção ficam em sua gigantesca parte nas mãos de quem é dono de uma empresa, fábrica, indústria ou qualquer outra entidade que atenda às preferências de consumo. Quem gere efetivamente o excedente são vários indivíduos em suas propriedades particulares, não o governante; e quem produz efetivamente são pessoas necessitadas, não consumidores. Continuar lendo

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Judá e Tamar: instituições, sujeitos e atores sociais

Judah and Tamar-richard Mcbee-2000Temos vivido um crescimento de aversão às instituições. Ao mesmo tempo que aumentam o número de críticas a governos, a políticos, pastores, padres, empresas, escolas, etc, se desenvolve o desgosto pela existência desses “espaços”. A indignação e a tristeza com a corrupção e com as crises que temos vivenciado se convertem em repulsa à “política”, à “religião”, ao “mercado”, ao Estado, às igrejas, às associações. Não compreendermos o porquê da existência de instituições, nossas atuações sociais e políticas, o porquê das organizações sociais e, além disso, nosso estatuto de sujeito, faz com que nos distanciemos dos processos decisórios do dia-a-dia. É a velha frase: “quem não gosta de política é governado por quem gosta”…

Esse texto, portanto, é a tentativa de apresentar um “fundamento” do político; o porquê precisamos de instituições, qual sua função e como nos relacionamos nesse jogo. Para tal, tomaremos o texto semita que conta a história de Judá e Tamar (está em Gênesis 38, na Bíblia). Através dele e com ele, explicitaremos a diferença entre sujeito e ator social; nessa diferença perceberemos a função e a necessidade de instituições. Afirmar que instituições são necessárias não é tomá-las como imutáveis. O objetivo final é: sabendo que elas estão aí, o que faremos com elas?

Judá e Tamar é um dos encontros (conflitos) mais intrigantes dos contos semitas: com uma trama de novela (digna daquelas trilhas sonoras dramáticas das telenovelas mexicanas que passavam no SBT à tarde), um problema familiar, tendo o pai de uma das tribos de Israel como vilão e uma mulher que se torna uma prostituta como heroína, é história riquíssima para debates.

Tamar era nora de Judá. Seu primeiro marido morre e, de acordo com as leis do povo, Judá faz com que seu outro filho case com ela para manter a linhagem da família e não deixá-la sozinha. Assim se faz, porém o seu filho descumpre uma lei moral e também morre. Novamente, Judá deveria fazer com que seu filho se casasse com Tamar. Judá descumpre a lei e deixa de lado a viúva. Muito tempo se passou e a lei ainda não havia sido cumprida. Certo dia, sabendo que Judá passaria pela cidade em que morava, Tamar vestiu um véu no rosto e ficou no caminho. Quando Judá a viu, pensou que era uma prostituta e foi “contratar o programa”. Acertaram um valor que Judá não tinha naquele momento, então ela pediu para que ele deixasse seu colar com sinete e seu cajado como garantia. Judá entregou, voltou para pegar o pagamento e, quando retornou atrás da “prostituta”, ficou sabendo que não havia nenhuma prostituta na cidade. Assim, deixou quieto e voltou para casa. Tamar engravidou de Judá. Quando este ficou sabendo ficou furioso por saber que ela havia descumprido as leis, tendo relações sem ser casada com quem era de direito (seu outro filho). Então, fulo da vida, ordenou que ela fosse queimada. Tamar sendo levada para o castigo, pediu para que entregassem ao sogro os pertences do homem que a engravidou. Quando Judá viu seu cordão com sinete e seu cajado, exclamou: “Esta mulher tem mais razão do que eu! Libertem-na. Eu deveria ter casado ela com meu filho e não o fiz”.

Temos nessa história várias instituições, sujeitos e atores sociais envolvidos. Entretanto, selecionaremos as figuras e imagens centrais para nossa investigação. A principal instituição em discussão é o “casamento”. O casamento, no texto e no contexto do conto, é o meio pelo qual é possível dar seguimento à família: reproduzir a vida familiar. Instituições tem essa função geral: são meios, mediações, que podem e devem ser utilizadas para se atingir determinados fins. O fim é a reprodução da família e a manutenção da linhagem; assim, o casamento é um meio para tal. A indignação que Judá tem ao ver Tamar grávida é a inversão do processo: tomou o casamento como fim, a instituição como “o mais importante”, esquecendo-se da origem do casamento: do porque ele era necessário. Judá havia esquecido de que, em principio e por princípio, seu outro filho já deveria estar casado com Tamar. Por isso sua fúria é cínica, imprópria, hipócrita e “sem razão”.

O Estado, por exemplo, é uma instituição. O Estado é um meio a ser utilizado. O problema é que o tomamos como fim em si mesmo. Assim, em períodos eleitorais, vemos uma disputa para tomar o Estado: de meio, esta instituição passou a ser o fim – e é aí o problema! Política não é um problema. Problema é tomar o Estado como o fim da Política, quando, na verdade, a origem dessa relação é ao contrário: a Política é o fim, enquanto que o Estado é um meio para a realizarmos. Continuar lendo

Liberdade e libertação: do absoluto ao processo

20Semana passada realizei a prova de uma das fases de um processo seletivo para mestrado. Foram sorteados 2 temas de 8 e eu, candidato, tinha a possibilidade de escolher um deles. O tema que escolhi para desenvolver um texto filosófico foi “Liberdade e Necessidade”. Tendo que necessariamente escrever sobre esse tema, e ao mesmo tempo tendo liberdade de escolher como o faria, desenvolvi a passagem de um absoluto para um processo. Me percebi fora do lugar comum. Assumi minha posição latino-americana

Para explicitar o desenvolvimento da luta de classes na história, Engels escreveu que “os homens fazem sua própria história, mas não escolhem as condições a partir das quais hão de construí-la”. Tal afirmação coloca, de pronto, um modo diferente da discussão clássica do problema necessidade-liberdade: os homens são livres para construir sua história, mas a partir de condições necessárias anteriores. Há liberdade no ato, mas limite de condições materiais disponíveis. Com isso, só é possível produzir a partir de materiais necessários que condicionam os acontecimentos e, esses próprios materiais necessários são fruto de uma produção anterior. Não discutimos, assim, no desenvolvimento concreto da história, a contradição entre ser livre e ser determinado, mas travamos um embate dialético dentro de um sistema significativo de justificação: atos que se tornam necessários para os próximos acontecimentos, condições que são necessárias para a realização de atos livres produtivos na história.

Não estamos trabalhando “Liberdade” ou “Necessidade” como condições de um indivíduo isolado, solipsista, a partir e em seu conhecimento ou vontade de viver; mas em sujeitos em relação, comunidades, sociedades, intersubjetivos por princípio. Não temos como pressuposto o indivíduo em “estado de natureza” – a lá Rousseau ou Locke -, mas concreto. Está pressuposta a “classe”, as relações intersubjetivas. Liberdade de ação não como a vontade do indivíduo, mas sabendo que esse próprio indivíduo é constituído por condições necessárias anteriores: sua comunidade, seus pais, sua cultura, traumas, experiências, etc.

Jacques Maritain propõe uma distinção significativa entre comunidade e sociedade – que pode ser muito útil para nossa compreensão e discussão sobre o problema “Liberdade-Necessidade”. Em O homem e o Estado, Maritain diz que comunidade é uma estrutura necessária, fruto do instinto ou da hereditariedade (constituída em torno de uma tradição, língua, cultura, etc.). Sociedade, por sua vez, é uma organização fruto da ação produtiva livre do intelecto humano constituída em torno (ou em vista) de um objeto comum (uma associação de empresários, um sindicato, partido político, etc.). Todo homem nasce, necessariamente, em uma comunidade. Ela é necessária e condição de possibilidade para o surgimento de uma sociedade. A sociedade, por sua vez, pode vir a se tornar uma comunidade com o tempo, quando não se reúne mais em torno de um objeto comum, funcionando por “hábito”, simples repetição (tradição). Analogamente ao que Engels fala sobre a luta de classes na história, a condição “necessária” é possibilidade para a ação livre que, em sequência, se torna a condição necessária para um ato seguinte. Além disso, mais uma vez, não se parte de um indivíduo absolutamente livre ou absolutamente necessário, mas de uma relação complexa e já sempre relacional.

Slavoj Zizek conta uma historinha interessante que é útil para compreendermos essa interpretação dialética da história: nas cenas clichê de comédias românticas, alguém tropeça e cai nos braços de outra pessoa. Imediatamente, para nós espectadores, aquele acidente casual e contingente se torna necessário para o início da relação de amor entre as duas personagens: “só poderia acontecer daquele jeito!”. Em seguida, desenvolve-se a trama da decisão livre entre dois de estabelecerem uma relação amorosa. Esta decisão livre, novamente, se torna uma relação necessária condicionada pelo acidente anterior que de contingente também se tornou necessário. Atos livres que se tornam condições necessárias para atos livres seguintes. Uma relação complexa, intersubjetiva, dialética e concreta. É um processo…

Isso! Um processo. Se assumimos que o desenvolvimento histórico é um processo, uma movimentação relacional e complexa, somos capazes de superar a tradição europeia que engloba, em certo sentido, Engels, Maritain e o próprio Zizek. Não falamos de um Reino de Liberdade no fim da história, da Necessidade que condiciona e determina a Revolução Comunista ou de um valor absoluto enquadrado em um conceito entupido de determinações que o constituem. Falamos de um processo de “liberdade-necessidade”. Filosofia de processo ou processual: característica própria das filosofias originais das Américas! Continuar lendo

As bases da política – Leo Wolfgang Maar

jovens_olham_para_o_alto“Como entender uma atividade política cuja meta explícita não é a disputa do poder institucional do governo? Que papel ocupa a política nos sindicatos, nas comunidades de base, nos organismos feministas, nas associações profissionais ou de bairros?

Seu objetivo não é a ocupação do Estado. Apesar disto, porém, a atividade que desenvolvem adquire um significado político peculiar, comumente de política de base, por ser executada a partir de movimentos de base da sociedade.

Sem dúvida se trata do plano em que a criatividade se manifesta com maior riqueza. Nos movimentos sociais, a política revela seu maior potencial dinâmico, pelo constante desenvolvimento de novas formas derivadas de situações cotidianas e da necessidade de sua transformação. É neste espaço que todos são políticos […]

A atividade desenvolvida nos movimentos sociais, pela presença que neles ocupam as questões cotidianas, se encarrega de conferir um novo sentido a uma política progressivamente desmoralizada pela atuação das instituições públicas e da disputa governamental. Isto não é de estranhar, porque, fora dos momentos eleitorais, a atividade institucional do Estado não oferece espaço à participação das pessoas nas decisões políticas, e aparece apenas como restrição ou imposição de normas legais. Mesmo enquanto sistema representativo, a política governamental se comporta como tutor paternalista dos interesses públicos. Depois de escolhidos, os representantes se tornam autônomos, e conduzem os negócios do país – no caso do governo – ou de setores dele – no caso dos partidos – à revelia da interferência dos cidadãos ou dos filiados e militantes. Estes perdem até mesmo possibilidade de voltar atrás nas suas escolhas, quando estas não correspondem mais aos seus interesses, e precisam esperar até que se esgotem os prazos da tutela – os mandatos – que os governantes têm em relação aos governados, os dirigentes em relação aos dirigidos.

‘De que adianta votar? Vai tudo continuar na mesma.’ Esta seria a questão fundamental que se procuraria responder. Sem dúvida, o descrédito e o desalento contidos na formulação são os principais responsáveis pelo crescimento significativo dos movimentos sociais nos últimos tempos. Enquanto na política institucional se fala pelo e para o povo, nos movimentos sociais é o povo quem fala e está presente cotidianamente.

O ‘povo’ – os dominados e dirigidos, que podem vir a ser dominantes e dirigentes – fala por si. A história está recheada pela sua ilimitada capacidade de responder de modo inventivo e inovador aos problemas das próprias relações de dominação e direção políticas que estabelece. Mas discorrer sobre a prática dos movimentos sociais enfrenta o grave risco de normativiza-los, padroniza-los, tolhendo-os precisamente no que têm de mais frutífero; sua qualidade maior é o dinamismo que rompe com as estruturas pré-fabricadas de participação, representação e direção.

Não é possível dizer como é a atividade política nos movimentos sociais em geral;. Pode-se descrevê-la em determinadas situações específicas em que este ‘como’ está sendo continuamente elaborado. Quem diria, alguns anos atrás, que os sindicatos, os estudantes, as mulheres, os bairros, os camponeses, as comunidades eclesiais de base, as organizações civis e de profissionais adquiririam a forma atual? Continuar lendo

Não reclame! Pagamos por nossa omissão

camara-deputados-nova1“[A luta] não nasceu para ser episódica e sim para ser história e para fazer a história. Se a história é criação dos homens e das ideias, podemos encarar com esperança o futuro. Nossa força é constituída por homens e por ideias […] É inútil o grito isolado, por mais profundo que seja seu eco; importa a pregação constante, contínua, persistente. Não importa a ideia perfeita, absoluta, abstrata, indiferente aos fatos, à realidade móvel; importa a ideia fecundante, concreta, dialética, operante, rica em potência e capacidade de movimento.” – José Carlos Mariátegui

Nossa força é constituída por humanos e por ideias – mas por humanos, primordialmente. Sem estes, não teríamos ideias… Distanciar-mo-nos uns dos outros, nos isolarmos, irmos para nossos cantos abandonando comunidades e movimentos, nos faz ser grito inútil – mesmo que a ideia seja a melhor do mundo! Nosso fundamento é gente, é a gente.

Trabalhar é difícil. Trabalhar em comunidade é mais difícil ainda. Dussel diferencia poiésis de práxis: a primeira é a produção de sobrevivência, sem outro termo além da própria produção e do produtor. Já práxis, a segunda, é a produção direcionada ou destinada a alguém. Por isso o trabalho prático, o trabalho comunitário, é mais complicado: ele não termina em si mesmo, mas tem como destino o Outro. A luta histórica é prática porque exige sempre o próximo como destino  de nosso esforço. A luta histórica não é de uma única voz, isolada, gritando pelos cantos ou indo morar sozinha nas montanhas, ouvindo seu próprio eco verdadeiro. A luta histórica é luta em comunidade e que não abandona a comunidade.

Hoje pagamos por nossa ausência, por nossa omissão. Nos isolamos e acreditamos que distantes da grande comunidade (da política), em nosso gueto familiar, seríamos capazes de mudar o mundo. Não. Somos vozes inúteis. Não persistimos na pregação de uma mensagem histórica, mas desistimos para ouvir de nós mesmos uma voz episódica. Temos ideias – quase absolutas e perfeitas -, mas perdemos o primordial, a base da força transformadora: o homem. Não temos gente, nem que nos ouça e nem que fale por nós. Da grande comunidade, da política e do político, nos distanciamos, nos escondemos e não nos envolvemos. De dentro de casa falamos, criticamos  para nós mesmos. Perdemos a grande comunidade e nos fechamos em nosso canto. Nosso canto não é fecundo nem frutífero; sem a comunidade, morreremos solitários.

Abandonamos nosso povo, deixando-o nas mãos de imbecis. Pagamos o preço. Hoje esses imbecis envolvidos com a grande comunidade, com a política e com o político, dirigem nossa terra. Pagamos por nossa omissão, por nosso abandono, por nossa arrogância, por nossa ausência. Se sabemos que temos a verdade em nossas mãos e sabemos o caminho, não temos mais os humanos que tomem posse dela e sigam para o futuro frutífero. Morreremos com o tesouro guardado em nossa casa, enquanto o mundo acaba lá fora. Se hoje o movimento religioso tem causado distúrbios incontroláveis, temos que assumir nossa culpa: não estávamos lá quando era necessário.

Não adianta reclamar nem esbravejar. Não adianta ficar indignado e nem levantar o nariz. Não adianta porque a culpa é nossa. Nós fomos embora. Retornar é quase impossível. Voltar a participar da comunidade de novo não será trabalho tranquilo: é trabalho prático e histórico dobrado. Não tivemos misericórdia, não devemos esperá-la agora.

Criticamos errado, atiramos errado, nos despolitizamos docilmente. Trocamos nossa primogenitura por um prato de lentilhas. Cremos na certeza de que estávamos garantidos e, hoje, vemos Jacó roubar e mentir, fugir e enganar, e ainda ser o protagonista da História. Ao criticarmos o movimento evangélico como um todo, atacamos as pessoas erradas: ao invés de acertar os líderes corruptos, tacamos pedra no povo e o subjugamos. Não diferenciamos o cretino poderoso do humilde fiel. O cretino poderoso era o problema, mas o colocamos no mesmo saco que os humildes fieis e abrimos caminho para que estes se abraçassem, selassem um pacto do mal que apenas trouxe tristeza, ignorância e destruição. Os cretinos se tornaram mais poderosos e os fiéis mais humildes: nenhuma revolução existe neles mais. Cansados, aceitam as chibatas dos capatazes e preferem o faraó egípcio ao libertador hebreu. Continuar lendo

Crítica aos críticos

husserl-1“Filosofia é um método” – já estou quase tatuando mais essa frase em mim. Esses dias estava dando uma aula para um tutoriado e, nela, traduzíamos alguns termos. Entre eles, “método”: no caminho, entre o caminho, seguindo uma trilha… Caminhar exige paciência. Escolher um caminho determina o modo como cada passo deve ser dado. Crítica é um caminho, um método. Como qualquer outro caminho, ela não pode ser feita de qualquer jeito, às pressas, sem respeitar as curvas, os buracos, as paradas, o tempo. Empolgados com a crítica, nós, críticos, batemos nos muros, saímos da estrada, atropelamos outras pessoas, vazamos pelas tangentes

Enrique Dussel tem desenvolvido uma obra chamada Política da Libertação. Ela tem três volumes: “História Mundial e Crítica”, “Arquitetônica” e, o último que ainda não foi lançado, “Crítica”. A Crítica é o último momento. Para chegar nela, é preciso passar pela História e pela Arquitetônica. Em suas obras sobre o método de filosofia da libertação – desenvolvido por ele mesmo -, Dussel mostra nas filosofias de Aristóteles, Tomás de Aquino, Marx, Hegel, Nietzsche, Heidegger e Lévinas (claro, comentando muitos outros!) esses momentos necessários para a crítica. Trabalhar a história, recontando ela, justifica ideologicamente o porquê de se propor um novo caminho. A arquitetura dos nossos sistemas de filosofia, o que ele chama de “momento ontológico”, é fundamental na apresentação teórica de “como as coisas são”. Aí sim vem a crítica: ir do abstrato ao concreto, à prática, encontrando os vários buracos que nosso dia-a-dia abrem nas “ideias”.

A esquerda se perde nesse método: crê que Marx já realizou os passos anteriores e ela, hoje, é apenas sua continuidade crítica. Não! Se ela toma a história como pronta e a filosofia construída até então como explicação suficiente “de como as coisas são”, não é capaz de realizar a crítica! Ela já começa a-crítica. É preciso que cada grupo, cada geração, cada sujeito histórico coletivo reconstrua a história, organize ontologicamente uma filosofia abstrata e a critique trazendo-a para o concreto. Os críticos precisam ser criticados.

Os movimentos de minha geração são a-críticos. Tomaram a convocação para virmos à “prática” como chamada para o “não pense, faça!” (criticado de maneira brilhante por Zizek). Não entendem que a prática não é contrária à estruturação de uma filosofia abstrata. A crítica, vinda da prática, é a partir da organização de nossas categoriais – não as “do passado”, mas as nossas atualizadas, nossos pensamentos, estruturas, desenvolvimentos teóricos. O que criticamos não é “o que foi”, mas nossas próprias propostas, de modo a torná-las factíveis, reais, cotidianas, efetivas. Os partidos políticos de esquerda estão desatualizados e desarticulados na distância entre o que dizem e o que devem fazer.

Na filosofia propriamente dita, minha geração não remonta a história da filosofia – toma a si mesma como “continuação” de um passado europeu que não a pertence. Menos ainda realiza a construção de uma filosofia própria, o momento ontológico de sistematização de conceitos e categorias próprias, articuladas à partir da realidade latino-americana. A crítica, então, é movimento impossível. Não há o que ser criticado. Por isso aparecem filósofos para dar palestras motivacionais ou, em casos muito específicos, falar de problemas superficiais, recentes, “de ontem”. Propositivamente, não há desenvolvimento crítico. Continuar lendo

O que mudou com a não redução da maioridade penal?

presos_SPNada. A violência continua presente nas esquinas e nos corações, os meninos e as meninas continuam morando nas quebradas, nas favelas, continuam sendo aliciados pelo tráfico; as escolas continuam destroçadas, as famílias destruídas, a polícia despreparada, os traficantes se aproveitando das brechas e da corrupção; os políticos continuam negociando a alma, corruptos, disputando poder. Crianças são transformadas em feras, homens fardados são jogados por homens de terno aos leões. Gente morre, gente não trabalha, o salário vai embora com comida e condução, universidade uma palavra vazia de significado. A perspectiva de vida é zero, a realidade de morte é imensurável

Não mudou nada. E o que isso significa? Significa que o campo é grande, as obras são muitas, mas poucos são os trabalhadores. Significa que uma ferida está exposta, apodrecendo, fedendo. E a ferida não é causada por crianças e os adolescentes. Nem por um policial, um bandido, um político, um partido, um homem, uma mulher… Temos, sempre, que nos lembrar que o inimigo é outro. Temos que nos lembrar que ele age nas entrelinhas, circula à nossa volta, ataca sem percebermos. Temos que nos lembrar que Mamom é um ídolo, não um deus! Se mata por carteira, se mata por celular, se mata por emprego, se mata pra passar num concurso, se mata para ser alguém. Porque aqui é assim: quem tem é lembrado e reconhecido; quem não tem nasce morto.

Enquanto não lembrarmos que nossas dores são filhas da desigualdade, que a luta primeira não é contra o crime, mas contra o que anima ele, não há lei no mundo que possa ajudar. A letra, por si só, mata. A mudança primeira é no Espírito: é contra a valorização de objetos e exclusão de pessoas. A inclusão fundamental depende do alargamento social, de quem é conhecido e reconhecido como “gente da gente”, como pessoa, como sujeito. Democracia é participação política, aumento de representatividade, do reconhecimento de quem é pessoa. Pessoa não é quem tem direitos garantidos num papel, só. Pessoa é quem é reconhecida como pessoa simplesmente por ser pessoa, que tem seus direitos garantidos nas nossas relações cotidianas, pessoais, cara-a-cara! Mas não, não é esse nosso Espírito! Nosso Espírito ainda mede o que um papel diz, ainda mede alguém de cima a baixo para ver se esta é ou não é aceitável (suas roupas, seu carro, sua profissão, seu vocabulário, a cor-da-pele…).

Não mudou nada. E o que isso significa? Significa que temos muito a fazer. Significa que agora que assumimos e reconhecemos que existe um problema, que vivemos em um país violento, nossa responsabilidade também foi exposta. Quem constrói o país são  pessoas. Não é o Estado. É gente! A responsabilidade pela qualidade das escolas do meu bairro é minha. A responsabilidade pela exclusão de meninos e meninas, é minha. A responsabilidade pelo aumento da violência é minha, tua, do político, do policial, dos vizinhos, das igrejas, das associações de bairro, dos donos de escolas particulares que apenas desejam aumentar ano a ano seus lucros, da saúde seletiva, dos processos seletivos excludentes das universidades, dos pais, das mães, dos irmãos. Somos nós os trabalhadores convocados para a obra, mas poucos os que assumem o cargo. Continuar lendo