O que mudou com a não redução da maioridade penal?

presos_SPNada. A violência continua presente nas esquinas e nos corações, os meninos e as meninas continuam morando nas quebradas, nas favelas, continuam sendo aliciados pelo tráfico; as escolas continuam destroçadas, as famílias destruídas, a polícia despreparada, os traficantes se aproveitando das brechas e da corrupção; os políticos continuam negociando a alma, corruptos, disputando poder. Crianças são transformadas em feras, homens fardados são jogados por homens de terno aos leões. Gente morre, gente não trabalha, o salário vai embora com comida e condução, universidade uma palavra vazia de significado. A perspectiva de vida é zero, a realidade de morte é imensurável

Não mudou nada. E o que isso significa? Significa que o campo é grande, as obras são muitas, mas poucos são os trabalhadores. Significa que uma ferida está exposta, apodrecendo, fedendo. E a ferida não é causada por crianças e os adolescentes. Nem por um policial, um bandido, um político, um partido, um homem, uma mulher… Temos, sempre, que nos lembrar que o inimigo é outro. Temos que nos lembrar que ele age nas entrelinhas, circula à nossa volta, ataca sem percebermos. Temos que nos lembrar que Mamom é um ídolo, não um deus! Se mata por carteira, se mata por celular, se mata por emprego, se mata pra passar num concurso, se mata para ser alguém. Porque aqui é assim: quem tem é lembrado e reconhecido; quem não tem nasce morto.

Enquanto não lembrarmos que nossas dores são filhas da desigualdade, que a luta primeira não é contra o crime, mas contra o que anima ele, não há lei no mundo que possa ajudar. A letra, por si só, mata. A mudança primeira é no Espírito: é contra a valorização de objetos e exclusão de pessoas. A inclusão fundamental depende do alargamento social, de quem é conhecido e reconhecido como “gente da gente”, como pessoa, como sujeito. Democracia é participação política, aumento de representatividade, do reconhecimento de quem é pessoa. Pessoa não é quem tem direitos garantidos num papel, só. Pessoa é quem é reconhecida como pessoa simplesmente por ser pessoa, que tem seus direitos garantidos nas nossas relações cotidianas, pessoais, cara-a-cara! Mas não, não é esse nosso Espírito! Nosso Espírito ainda mede o que um papel diz, ainda mede alguém de cima a baixo para ver se esta é ou não é aceitável (suas roupas, seu carro, sua profissão, seu vocabulário, a cor-da-pele…).

Não mudou nada. E o que isso significa? Significa que temos muito a fazer. Significa que agora que assumimos e reconhecemos que existe um problema, que vivemos em um país violento, nossa responsabilidade também foi exposta. Quem constrói o país são  pessoas. Não é o Estado. É gente! A responsabilidade pela qualidade das escolas do meu bairro é minha. A responsabilidade pela exclusão de meninos e meninas, é minha. A responsabilidade pelo aumento da violência é minha, tua, do político, do policial, dos vizinhos, das igrejas, das associações de bairro, dos donos de escolas particulares que apenas desejam aumentar ano a ano seus lucros, da saúde seletiva, dos processos seletivos excludentes das universidades, dos pais, das mães, dos irmãos. Somos nós os trabalhadores convocados para a obra, mas poucos os que assumem o cargo.

Enquanto esperamos Moisés descer do monte, fazemos um bezerro de ouro e o adoramos. Enquanto esperamos o Messias vir, prostituímos nossa política, nossa religião, nosso culto. Se esperamos ele retornar, sentamos a na cadeira, ouvimos a mensagem e aguardamos o apocalipse. Se não esperamos nada; já estamos mortos – e provavelmente vivendo um inferno…

Ontem não teve vitória. Ontem teve uma pausa. As coisas continuam como estão. Nada mudou. A única coisa que ficou clara foi a luz do sol no horizonte, já indo embora, com a noite escura chegando e lembrando que devemos trabalhar enquanto é tempo, pois logo o inverno vem e nada poderá detê-lo. Somos convocados a nos envolver, a mobilizar nossas comunidades, igrejas, sindicatos, organizações, associações de bairro, empresários, condomínio, escolas e famílias. A responsabilidade pelo sangue é nossa – de qualquer um que morre ou que nasce morto, sem esperança. É tempo de combater a causa da violência, de impedir que os pequeninos se percam, se desviem do Caminho, da Verdade e da Vida.

E desejo que quando o Caim que habita em nós perguntar “e por um acaso sou eu guardador do meu irmão?”, Deus responda: “o que foi que você fez?”.

Creio que a música bota nossa cabeça no lugar. Segue o som:

Causa e efeito” e “Mulheres“, MV Bill

Mais do que pegadas” e “Eu sou problema“, Projota

Depósito dos rejeitados” e “Playground do diabo“, Eduardo (ex-Facção Central)

Bruno Reikdal Lima

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