Crítica aos críticos

husserl-1“Filosofia é um método” – já estou quase tatuando mais essa frase em mim. Esses dias estava dando uma aula para um tutoriado e, nela, traduzíamos alguns termos. Entre eles, “método”: no caminho, entre o caminho, seguindo uma trilha… Caminhar exige paciência. Escolher um caminho determina o modo como cada passo deve ser dado. Crítica é um caminho, um método. Como qualquer outro caminho, ela não pode ser feita de qualquer jeito, às pressas, sem respeitar as curvas, os buracos, as paradas, o tempo. Empolgados com a crítica, nós, críticos, batemos nos muros, saímos da estrada, atropelamos outras pessoas, vazamos pelas tangentes

Enrique Dussel tem desenvolvido uma obra chamada Política da Libertação. Ela tem três volumes: “História Mundial e Crítica”, “Arquitetônica” e, o último que ainda não foi lançado, “Crítica”. A Crítica é o último momento. Para chegar nela, é preciso passar pela História e pela Arquitetônica. Em suas obras sobre o método de filosofia da libertação – desenvolvido por ele mesmo -, Dussel mostra nas filosofias de Aristóteles, Tomás de Aquino, Marx, Hegel, Nietzsche, Heidegger e Lévinas (claro, comentando muitos outros!) esses momentos necessários para a crítica. Trabalhar a história, recontando ela, justifica ideologicamente o porquê de se propor um novo caminho. A arquitetura dos nossos sistemas de filosofia, o que ele chama de “momento ontológico”, é fundamental na apresentação teórica de “como as coisas são”. Aí sim vem a crítica: ir do abstrato ao concreto, à prática, encontrando os vários buracos que nosso dia-a-dia abrem nas “ideias”.

A esquerda se perde nesse método: crê que Marx já realizou os passos anteriores e ela, hoje, é apenas sua continuidade crítica. Não! Se ela toma a história como pronta e a filosofia construída até então como explicação suficiente “de como as coisas são”, não é capaz de realizar a crítica! Ela já começa a-crítica. É preciso que cada grupo, cada geração, cada sujeito histórico coletivo reconstrua a história, organize ontologicamente uma filosofia abstrata e a critique trazendo-a para o concreto. Os críticos precisam ser criticados.

Os movimentos de minha geração são a-críticos. Tomaram a convocação para virmos à “prática” como chamada para o “não pense, faça!” (criticado de maneira brilhante por Zizek). Não entendem que a prática não é contrária à estruturação de uma filosofia abstrata. A crítica, vinda da prática, é a partir da organização de nossas categoriais – não as “do passado”, mas as nossas atualizadas, nossos pensamentos, estruturas, desenvolvimentos teóricos. O que criticamos não é “o que foi”, mas nossas próprias propostas, de modo a torná-las factíveis, reais, cotidianas, efetivas. Os partidos políticos de esquerda estão desatualizados e desarticulados na distância entre o que dizem e o que devem fazer.

Na filosofia propriamente dita, minha geração não remonta a história da filosofia – toma a si mesma como “continuação” de um passado europeu que não a pertence. Menos ainda realiza a construção de uma filosofia própria, o momento ontológico de sistematização de conceitos e categorias próprias, articuladas à partir da realidade latino-americana. A crítica, então, é movimento impossível. Não há o que ser criticado. Por isso aparecem filósofos para dar palestras motivacionais ou, em casos muito específicos, falar de problemas superficiais, recentes, “de ontem”. Propositivamente, não há desenvolvimento crítico.

Crítica não é abandonar o que foi feito, descartar a história ou realizações. Crítica é um movimento prático que desconstrói nossos desenvolvimentos teóricos quando se ascende do abstrato ao concreto. Nossos desenvolvimentos, atualizados, sistematizados, organizados no presente (aqueles que hoje estamos sistematizando). Talvez a teologia seja, na minha geração, o carro que mais andou no processo da crítica – mas que ao mesmo tempo deve ser o mais “acidentado” -, porque pelo menos realizou o primeiro passo. A recontação da história tem sido feita constantemente pelas várias tradições. Os passos seguintes que estão vazios. Não há constituição teórica bem fundamentada por aqueles que se lançam à crítica. A ansiedade por criticar tem promovido uma aceleração inútil e maléfica. Quer-se criticar sem saber o que é que se está criticando.

É desafio mais próximo à minha geração teológica, é possível nos direcionarmos para a  crítica. O primeiro passo do caminho foi, pelo menos, realizado. O segundo tem titubeado e o terceiro tem sido uma queda brusca. Faço parte de uma comunidade religiosa, por exemplo, que se pretende crítica. Infelizmente, temos falhado no processo de constituição ontológica das categorias abstratas. Por isso, na prática, não temos criticado nada além de uma história vaga do passado. Não sabemos o que é que estamos criticando, pois não construímos a totalidade teórica a ser criticada. Nosso desafio, atual, deveria ser essa sistematização de categorias, de discurso, de significados. Sem isso, criticamos “o nada”, fazemos um discurso vazio e repetitivo, preso à história, ao passado, a fantasmas.

Como críticos, temos que criticar. Criticar exige passos metódicos, metodológicos. Não adianta criticar sem saber o que é que se critica. Criticar o passado é bater em cão morto. Tem-se que atualizar a teoria, os sistemas teológicos, filosóficos e políticos para que seja  possível a crítica presente, real, encarnada, prática. Não somos continuidade de alguma coisa que sempre esteve aí. Aceitar isso é ser, por princípio, a-crítico. Como José Comblin escreveu, cada geração determina seu projeto e está em sua mão a escolha por continuidade da anterior ou não. Tempo e projeções descontínuas são possíveis pela crítica. Aliás, a própria escolha depende, antes, de um movimento crítico.

Bruno Reikdal Lima

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