Não reclame! Pagamos por nossa omissão

camara-deputados-nova1“[A luta] não nasceu para ser episódica e sim para ser história e para fazer a história. Se a história é criação dos homens e das ideias, podemos encarar com esperança o futuro. Nossa força é constituída por homens e por ideias […] É inútil o grito isolado, por mais profundo que seja seu eco; importa a pregação constante, contínua, persistente. Não importa a ideia perfeita, absoluta, abstrata, indiferente aos fatos, à realidade móvel; importa a ideia fecundante, concreta, dialética, operante, rica em potência e capacidade de movimento.” – José Carlos Mariátegui

Nossa força é constituída por humanos e por ideias – mas por humanos, primordialmente. Sem estes, não teríamos ideias… Distanciar-mo-nos uns dos outros, nos isolarmos, irmos para nossos cantos abandonando comunidades e movimentos, nos faz ser grito inútil – mesmo que a ideia seja a melhor do mundo! Nosso fundamento é gente, é a gente.

Trabalhar é difícil. Trabalhar em comunidade é mais difícil ainda. Dussel diferencia poiésis de práxis: a primeira é a produção de sobrevivência, sem outro termo além da própria produção e do produtor. Já práxis, a segunda, é a produção direcionada ou destinada a alguém. Por isso o trabalho prático, o trabalho comunitário, é mais complicado: ele não termina em si mesmo, mas tem como destino o Outro. A luta histórica é prática porque exige sempre o próximo como destino  de nosso esforço. A luta histórica não é de uma única voz, isolada, gritando pelos cantos ou indo morar sozinha nas montanhas, ouvindo seu próprio eco verdadeiro. A luta histórica é luta em comunidade e que não abandona a comunidade.

Hoje pagamos por nossa ausência, por nossa omissão. Nos isolamos e acreditamos que distantes da grande comunidade (da política), em nosso gueto familiar, seríamos capazes de mudar o mundo. Não. Somos vozes inúteis. Não persistimos na pregação de uma mensagem histórica, mas desistimos para ouvir de nós mesmos uma voz episódica. Temos ideias – quase absolutas e perfeitas -, mas perdemos o primordial, a base da força transformadora: o homem. Não temos gente, nem que nos ouça e nem que fale por nós. Da grande comunidade, da política e do político, nos distanciamos, nos escondemos e não nos envolvemos. De dentro de casa falamos, criticamos  para nós mesmos. Perdemos a grande comunidade e nos fechamos em nosso canto. Nosso canto não é fecundo nem frutífero; sem a comunidade, morreremos solitários.

Abandonamos nosso povo, deixando-o nas mãos de imbecis. Pagamos o preço. Hoje esses imbecis envolvidos com a grande comunidade, com a política e com o político, dirigem nossa terra. Pagamos por nossa omissão, por nosso abandono, por nossa arrogância, por nossa ausência. Se sabemos que temos a verdade em nossas mãos e sabemos o caminho, não temos mais os humanos que tomem posse dela e sigam para o futuro frutífero. Morreremos com o tesouro guardado em nossa casa, enquanto o mundo acaba lá fora. Se hoje o movimento religioso tem causado distúrbios incontroláveis, temos que assumir nossa culpa: não estávamos lá quando era necessário.

Não adianta reclamar nem esbravejar. Não adianta ficar indignado e nem levantar o nariz. Não adianta porque a culpa é nossa. Nós fomos embora. Retornar é quase impossível. Voltar a participar da comunidade de novo não será trabalho tranquilo: é trabalho prático e histórico dobrado. Não tivemos misericórdia, não devemos esperá-la agora.

Criticamos errado, atiramos errado, nos despolitizamos docilmente. Trocamos nossa primogenitura por um prato de lentilhas. Cremos na certeza de que estávamos garantidos e, hoje, vemos Jacó roubar e mentir, fugir e enganar, e ainda ser o protagonista da História. Ao criticarmos o movimento evangélico como um todo, atacamos as pessoas erradas: ao invés de acertar os líderes corruptos, tacamos pedra no povo e o subjugamos. Não diferenciamos o cretino poderoso do humilde fiel. O cretino poderoso era o problema, mas o colocamos no mesmo saco que os humildes fieis e abrimos caminho para que estes se abraçassem, selassem um pacto do mal que apenas trouxe tristeza, ignorância e destruição. Os cretinos se tornaram mais poderosos e os fiéis mais humildes: nenhuma revolução existe neles mais. Cansados, aceitam as chibatas dos capatazes e preferem o faraó egípcio ao libertador hebreu.

Os cretinos poderosos quando reagiam não atacavam o movimento libertador que nascia, mas seus líderes – apenas. Estes se tornaram episódios, aqueles viraram história. É, o problema não é a voz dos maus, como diria Martin Luther King, mas o silêncio dos bons. Os maus fizeram trabalho prático e histórico; os bons poético e episódico. Uns visaram a comunidade (mesmo que desejando a escravidão); outros visaram o próprio trabalho poético (mesmo que desejando a libertação). Invertidos, produziram o quadro doente e assustador que vivemos hoje no Brasil: políticos que usam da religião radical para fazer loucuras e promover a desgraça. Não foi ontem que esses nasceram: estão faz tempo, desde quando decidimos nos isolar…

Não fomos expulsos; nos isolamos. Não fomos persistentes; desistimos. Não fomos dialéticos; somos monológicos. Não promovemos a diversidade; nos isolamos para a mesmice. Não seremos ouvidos. Para que nossa voz retorne à prática, à comunidade, à política, teremos muito trabalho.

Falo especificamente de nós, evangélicos. Falo especificamente de gente que se assusta com a morte sendo celebrada como vida, com o inferno sendo tido como céu, com um ídolo sendo chamado de Deus. Fico impressionado com a luta verdadeira que a Teologia da Libertação (católica) experimentou e promoveu: hoje o Papa é fruto desse movimento. Foram persistentes, não abandonaram o barco e nem a comunidade. Críticos, uns foram expulsos, excomungados, outros mortos, mas sem nunca ir embora. Goram persistentes, foram lutadores, operantes, fiéis. Nós nos isolamos, só…

Por fim, somos muito culpados, pois eramos a única porta aberta para a transformação. Eramos a possibilidade de renovação, avivamento, mudança de consciência e conversão de fé. Eramos. Enrique Dussel, em sua filosofia e em sua teologia da libertação, mostra que nossas transformações latino-americanas são profundamente religiosas. Não somos movidos e nem formados por escolas e academias, mas por comunidades religiosas e igrejas. Nossa formação tem a centralidade na religião – seja qual for. Mas a gente prefere ser europeu: lá a formação não é religiosa, mas delegada às instituições técnicas (escolas, universidades, diferentes academias, etc.). É traço cultural deles, diferente do nosso. Não é melhor nem pior. Dussel mostra que a esquerda latino-americana tem muitas dificuldades por ser “europeia”, por ter a cabeça colonizada: ela crê que primeiro as pessoas tem que se converter ao academicismo para depois se tornarem socialistas de verdade, revolucionários. Parece que não nascemos aqui ou que, se nascemos, nascemos errado – porque o certo é nascer europeu. A esquerda tem muita dificuldade, como mostra Dussel, porque rejeita e humilha a religiosidade das pessoas, levantando o nariz e crendo que é apenas sem religião que é possível uma pessoa se formar politicamente e transformar a sociedade verdadeiramente.

Tudo bem a esquerda fazer uma coisa dessas (apesar de errado, até entendo). Mas nós, como religiosos, fazermos o mesmo? Aí já é muita estupidez e descompromisso pessoal e histórico! É simplesmente fingir que Jesus não era religioso. Não preciso me tornar acadêmico para transformar o mundo; apenas preciso seguir Jesus – em toda minha realidade concreta e a partir dela. Abandonamos o barco, nos isolamos, produzimos por produzir imitando uma cabeça que não é nossa. Temos muito trabalho para retornar. A religião (de onde nasceram os monstros que estão no poder) era nossa responsabilidade.

Não adianta reclamar. Pagamos por nossa omissão. Voltemos ao trabalho…

Bruno Reikdal Lima

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