Judá e Tamar: instituições, sujeitos e atores sociais

Judah and Tamar-richard Mcbee-2000Temos vivido um crescimento de aversão às instituições. Ao mesmo tempo que aumentam o número de críticas a governos, a políticos, pastores, padres, empresas, escolas, etc, se desenvolve o desgosto pela existência desses “espaços”. A indignação e a tristeza com a corrupção e com as crises que temos vivenciado se convertem em repulsa à “política”, à “religião”, ao “mercado”, ao Estado, às igrejas, às associações. Não compreendermos o porquê da existência de instituições, nossas atuações sociais e políticas, o porquê das organizações sociais e, além disso, nosso estatuto de sujeito, faz com que nos distanciemos dos processos decisórios do dia-a-dia. É a velha frase: “quem não gosta de política é governado por quem gosta”…

Esse texto, portanto, é a tentativa de apresentar um “fundamento” do político; o porquê precisamos de instituições, qual sua função e como nos relacionamos nesse jogo. Para tal, tomaremos o texto semita que conta a história de Judá e Tamar (está em Gênesis 38, na Bíblia). Através dele e com ele, explicitaremos a diferença entre sujeito e ator social; nessa diferença perceberemos a função e a necessidade de instituições. Afirmar que instituições são necessárias não é tomá-las como imutáveis. O objetivo final é: sabendo que elas estão aí, o que faremos com elas?

Judá e Tamar é um dos encontros (conflitos) mais intrigantes dos contos semitas: com uma trama de novela (digna daquelas trilhas sonoras dramáticas das telenovelas mexicanas que passavam no SBT à tarde), um problema familiar, tendo o pai de uma das tribos de Israel como vilão e uma mulher que se torna uma prostituta como heroína, é história riquíssima para debates.

Tamar era nora de Judá. Seu primeiro marido morre e, de acordo com as leis do povo, Judá faz com que seu outro filho case com ela para manter a linhagem da família e não deixá-la sozinha. Assim se faz, porém o seu filho descumpre uma lei moral e também morre. Novamente, Judá deveria fazer com que seu filho se casasse com Tamar. Judá descumpre a lei e deixa de lado a viúva. Muito tempo se passou e a lei ainda não havia sido cumprida. Certo dia, sabendo que Judá passaria pela cidade em que morava, Tamar vestiu um véu no rosto e ficou no caminho. Quando Judá a viu, pensou que era uma prostituta e foi “contratar o programa”. Acertaram um valor que Judá não tinha naquele momento, então ela pediu para que ele deixasse seu colar com sinete e seu cajado como garantia. Judá entregou, voltou para pegar o pagamento e, quando retornou atrás da “prostituta”, ficou sabendo que não havia nenhuma prostituta na cidade. Assim, deixou quieto e voltou para casa. Tamar engravidou de Judá. Quando este ficou sabendo ficou furioso por saber que ela havia descumprido as leis, tendo relações sem ser casada com quem era de direito (seu outro filho). Então, fulo da vida, ordenou que ela fosse queimada. Tamar sendo levada para o castigo, pediu para que entregassem ao sogro os pertences do homem que a engravidou. Quando Judá viu seu cordão com sinete e seu cajado, exclamou: “Esta mulher tem mais razão do que eu! Libertem-na. Eu deveria ter casado ela com meu filho e não o fiz”.

Temos nessa história várias instituições, sujeitos e atores sociais envolvidos. Entretanto, selecionaremos as figuras e imagens centrais para nossa investigação. A principal instituição em discussão é o “casamento”. O casamento, no texto e no contexto do conto, é o meio pelo qual é possível dar seguimento à família: reproduzir a vida familiar. Instituições tem essa função geral: são meios, mediações, que podem e devem ser utilizadas para se atingir determinados fins. O fim é a reprodução da família e a manutenção da linhagem; assim, o casamento é um meio para tal. A indignação que Judá tem ao ver Tamar grávida é a inversão do processo: tomou o casamento como fim, a instituição como “o mais importante”, esquecendo-se da origem do casamento: do porque ele era necessário. Judá havia esquecido de que, em principio e por princípio, seu outro filho já deveria estar casado com Tamar. Por isso sua fúria é cínica, imprópria, hipócrita e “sem razão”.

O Estado, por exemplo, é uma instituição. O Estado é um meio a ser utilizado. O problema é que o tomamos como fim em si mesmo. Assim, em períodos eleitorais, vemos uma disputa para tomar o Estado: de meio, esta instituição passou a ser o fim – e é aí o problema! Política não é um problema. Problema é tomar o Estado como o fim da Política, quando, na verdade, a origem dessa relação é ao contrário: a Política é o fim, enquanto que o Estado é um meio para a realizarmos.

No caso da história, a instituição das “leis do povo” era uma proteção para Tamar: a lei do povo que obrigava os irmãos do homem a casarem com as cunhadas em caso de morte do marido tinha como objetivo proteger a viúva. Viúva sozinha passaria fome: não podia trabalhar, não tinha casa para cuidar, não teria filhos que se responsabilizariam por ela. Negar o casamento a Tamar era errado em dois sentidos: destituía a atuação social de Tamar como “mulher” e, ao mesmo tempo, era o esquecimento da pessoa Tamar. Como atora social, Tamar tinha estatuto enquanto casada: agia em campo político e institucional. Sem estar casada, como viúva, não tinha campo próprio e nem instituições às quais recorresse. Como pessoa, como sujeito, Tamar está para além de “mulher”, além de “viúva” e além de qualquer outro papel que assumisse (como “prostituta”, por exemplo). Esta é a diferença entre sujeito e ator social.

Nas relações institucionais, não nos apresentamos como pessoa-sujeito completos, mas determinados pelo campo e pelas funções que exercemos em cada espaço, em cada instituição. Sou professor, nas relações trabalhistas, mas não apenas isso. Sou também filho na instituição “família”. Sou líder religioso, sou estudante de pós-graduação, sou homem, namorado, eleitor, blogueiro, brasileiro, motorista… Em determinados espaços, em cada campo, atuo socialmente de modo diferente. Sou eu como ator social. Entretanto, sou sempre “mais” do que qualquer uma destas determinações. Enquanto sujeito, transcendo os sistemas e as instituições. Mas minhas experiências e vivências de sujeito enquanto sujeito, quase que “despido” dos papéis, são raras e especiais. São íntimas, com poucos e para poucos. Encontros face-a-face, silenciosos, peculiares.

Tamar é capaz de agir socialmente, mas está sempre além de sua atuação. Ela é um sujeito, uma pessoa. Assim, desejava atuar como mulher na instituição do casamento, tomando-o como fim para a reprodução da vida. Estava sendo impedida de tal feito porque Judá estava descumprindo a lei: abandonando a instituição da “lei do povo”. Tamar, então, atua como “prostituta”, em outro campo, inclusive descumprindo a lei! Mas é desse modo, usando as instituições (o casamento, as leis e sabendo jogar instituição “contra” instituição e lei “contra” lei) que ela é capaz de transformar sua realidade e efetivar o fim para o qual a instituição fora criada. Tamar como sujeito transcende a instituição e sua atuação social; não para abandonar tudo isso, mas para transformar e resgatar a origem de tudo: a reprodução da vida.

Deste modo, sabendo que instituições são meios e não fins, que atuamos socialmente em cada campo de modo determinado, mas que como sujeitos transcendemos tais determinações, que precisamos tomar consciência do político, do religioso, do econômico, etc. Abandono e “cansaço” frente as instituições não é o caminho e nem suficiente. É tomar nossa sujeiticidade – o “excesso de ser sujeito”, que as próprias instituições não comportam, esse “x” que nos permite atuar de diferentes maneiras – e direcioná-la para a transformação, que nos permite resgatar o fundamento; que é a reprodução da vida. Nós enquanto sujeitos somos a origem das instituições; elas são meios, apenas. Não devemos tomá-las como fim e nem nos confundirmos com nossas atuações sociais. Estamos para além. E, além de tudo, é a Vida o fim último…

Bruno Reikdal Lima

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